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Crônicas Nikkeis 8 — Heróis Nikkeis: Pioneiros, Modelos e Inspirações

O espírito de minha bisavó

Sentir a presença de uma pessoa quando, na realidade, não há ninguém é algo que acontece comigo com frequência. Segundo o psiquiatra, trata-se de um distúrbio mental diagnosticado como esquizofrenia. Isto aconteceu quando larguei a universidade e fui forçado a me internar. Frequentemente, só eu ouvia as vozes e eu não conseguia entender por que os outros não ouviam nada. Eu não tinha nenhuma liberdade no hospital e sempre era forçado a tomar fortes remédios. Não sei se por isso, eu não tinha motivação para fazer coisa alguma, meu corpo não se mexia. Isto aconteceu 6 anos atrás.

Meus antepassados também tiveram experiência parecida. Quando aconteceu a Segunda Guerra Mundial, eles foram levados à força para campos de concentração pelo fato de serem nipo-americanos. Durante a guerra, parece que os nikkeis tiveram de suportar tudo com paciência diante dessa injustiça que estavam sofrendo. Talvez por isto, ainda hoje a palavra gaman (suportar as adversidades com paciência) é muito usada dentro da comunidade nikkei. E mesmo naquela época, a cultura do gaman já estava enraizada na comunidade nipo-americana, sendo assim, quando houve a questão do encarceramento, todos suportaram com paciência. Eu, porém, duvido que seja verdade. A maioria das famílias nikkeis suportou a situação, mas o mesmo não aconteceu com meus ancestrais.

Meu bisavô era dentista na cidade de Portland, Oregon. Era considerado líder da comunidade nikkei e, no dia 7 de dezembro de 1941, logo após a invasão de Pearl Harbor pelos japoneses, ele foi capturado pelo FBI. Meu bisavô foi aprisionado no campo de concentração de Santa Fé, Novo México e minha bisavó e os filhos foram para o campo de concentração de Minitoga, estado de Ohio.

Minha bisavó

Quando o meu bisavô foi preso pelo FBI, a minha bisavó não aguentou e chorou. E quando ela foi conduzida ao campo de concentração de Minitoga, ela e os filhos também choraram. No encarceramento, ela ficou deprimida e passava o dia inteiro deitada na cama. Havia dias de esperança e também dias em que não havia um pingo de esperança. E o que ela percebeu foi que nada mudaria se continuasse suportando com resignação.

Do campo de concentração, ela escrevia cartas endereçadas ao meu bisavô, dizendo que havia perdido a esperança de encontrá-lo, duvidando que Deus existisse no mundo. Num outro dia, ela escrevera que seus filhos (entre eles o meu avô) estavam tristes. Tais cartas eu tinha descoberto ocasionalmente na casa de minha avó, escondidas no armário, logo depois que tive alta do hospital e não encontrava motivação para nada.

As cartas de minha bisavó são para mim um tesouro. Como nas conversas com nikkeis eu sempre ouvia a palavra gaman, achava que nas cartas de minha bisavó também encontraria essa palavra. Mas não apareceu uma única vez. O que me fez pensar: como ela conseguiu suportar?

Ela discorria sobre diversas situações: uma doença misteriosa que se espalhou no campo de concentração; que o filho tinha matado uma cobra no deserto; que as crianças evitavam a minha bisavó na hora das refeições. Em todas as cartas ela dizia que queria se encontrar com o marido. Por vezes escrevia que chorava. Dizia que, mesmo no campo de concentração onde quase não havia liberdade, o pouco que ela punha para fora os seus sentimentos fazia com que pudesse se sentir gente e com isto podia ver um pouco de esperança.

Eu pude sentir que, em vez de suportar, a minha bisavó manifestava seus sentimentos e, assim, aprofundava os laços com as pessoas. Ao ler essas cartas, eu imaginei a situação da época e as lágrimas não paravam de escorrer.

Como eu sou o filho mais velho, minha mãe dizia sempre: “As suas irmãs se desenvolvem vendo o seu exemplo, portanto, tome cuidado com o que faz e com as boas maneiras”. Ela nunca disse para suportar, mas eu entendia bem o sentido de gaman. Foi por isso que suportei em silêncio quando ouvia as vozes que só eu ouvia. Dentre essas vozes, uma dizia para eu me suicidar. Houve vezes em que eu tive impressão que todos queriam me matar. Pessoas próximas me viam com desconfiança pelo meu comportamento suspeito. Foram dias de muito medo e eu, achando que tinha que suportar, não falava sobre isto a ninguém. Como consequência fui piorando cada vez mais e acabei sendo internado à força. Eu achava que era mesmo imprestável e veio a vontade de me matar de verdade.

Dentro desse quadro, eu fui salvo pela minha bisavó. Quando eu nasci ela já havia falecido, mas graças às cartas eu fui conhecendo-a cada vez mais e melhor. Ela não suportou a adversidade e tanto ela como seu marido e os filhos puseram para fora os seus sentimentos, as suas emoções. Os seres humanos nem sempre podem suportar uma situação problemática. Mas se demonstrarem seus sentimentos, haverá solidariedade entre as pessoas, nascerá a confiança e um forte vínculo irá se formar. No campo de concentração as pessoas tinham momentos tristes, momentos em que a vontade era desistir de tudo, mas meus antepassados extravasaram bem as suas emoções e puderam sobreviver, apoiando-se mutuamente. E a minha bisavó ensinou-me que não precisa se esforçar para mostrar que está tudo bem.

Depois de ler as cartas de minha bisavó, eu comecei a manifestar meus sentimentos. A minha família e os meus amigos começaram a entender cada vez mais o meu distúrbio mental. Assim, pudemos desenvolver uma relação de confiança e aprofundar o vínculo que nos une. Agora eu me disponho a experimentar novos medicamentos e, aos poucos, estou encontrando motivação.

Cinco anos atrás a minha irmã caçula cometeu suicídio, aos 16 anos de idade. Eu e minha família, todos nós ficamos muito tristes e choramos desesperadamente. Minha irmã não reclamava nem falava sobre problemas na escola, não era deprimida e estava em boas condições, por isso, não entendo o porquê de sua atitude.

Na sociedade nikkei existem muitas pessoas que não falam sobre seus problemas, guardam para si mesmas e, haja o que houver, sofrem caladas, fingindo que não há nada com elas. Todos chamam isto de Yamato-damashi – espírito japonês – e qualquer que seja a condição pensam que jamais serão derrotados. Eu acho que esta cultura não é certa. A minha bisavó foi uma pessoa sábia e compreendeu que se esforçar demais não é nada bom. Mesmo que perca o controle da situação, o ser humano tem emoção, tem sentimento. Eu entendi muito bem como isto é importante.

Mesmo agora, muitas vezes eu penso na irmã que perdi e também muitas vezes eu ouço vozes. E eu tenho conversado sobre isso com minha família e meus amigos. Poder expressar seus sentimentos é uma das características do ser humano, pois fazendo isto preserva-se o vínculo com os amigos e a família. A minha bisavó conseguiu sobreviver no campo de concentração porque não escondeu os seus sentimentos.

Acontecem muitas coisas tristes no mundo em que vivemos. Viver sozinho é difícil. E se continuarmos perseverando sem procurar a ajuda de outras pessoas, vamos ficando cada vez mais solitários. Mas se contarmos sobre o nosso passado para as pessoas, elas vão entender e nos apoiar. Não é o espírito japonês Yamato-damashi enraizado na sociedade nikkei, mas o que vem à tona é o espírito da bisavó. A vida é um tesouro. Os sentimentos também são importantes. Todos têm experiências tristes ou tiveram um passado triste. Não precisa se esforçar e enfrentar as adversidades. É compartilhando as tristezas que vamos nos entender e, juntos, vivermos a vida.

 

© 2019 Sumōru Maunten

9 Estrelas

Os Favoritos da Comunidade Nima-kai

Cada um dos artigos enviados a esta série poderia ser selecionado como um dos favoritos de nossos leitores e Comitês Editoriais. Agradecemos a todos que votaram!

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Sobre esta série

A palavra “herói” pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. Nesta série, exploramos a ideia de um herói nikkei e o que isso quer dizer para cada pessoa. Quem é o seu herói? Qual é a história dele? Como ele(a) influenciou sua identidade nikkei ou a conexão com sua herança cultural nikkei?

Aceitamos o envio de histórias de maio a setembro de 2019; a votação foi encerrada em 12 de novembro de 2019. Todas as 32 histórias (16 em inglês, 2 em japonês, 11 em espanhol, e 3 em português) foram recebidas da Austrália, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Japão, México e Peru. Dezoito dessas submissões foram de colaboradores inéditos do Descubra Nikkei!

Aqui estão as histórias favoritas selecionadas pelo Comitê Editorial e pela comunidade Nima-kai do Descubra Nikkei.


Seleções dos Comitês Editoriais:

Escolha do Nima-kai:

Para maiores informações sobre este projeto literário >>


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