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Crônicas Nikkeis 8 — Heróis Nikkeis: Pioneiros, Modelos e Inspirações

Meu tio inesquecível

Criança ainda, costumava ler uma revista de circulação mensal que até hoje existe, na qual tinha uma seção chamada “Meu tipo inesquecível”, a minha preferida, onde era retratada a vida de personagens marcantes. Pessoas comuns que, por suas qualidades ou atitudes, haviam se destacado ou influenciado a vida de outras, igualmente comuns.

Uma figura inesquecível para mim foi o Tio Yotiam ou Tim para muitos, meu falecido tio pelo lado materno, que nos deixou um legado de coisas boas e alegres, além de uma imensa saudade. A lembrança do Tio Yotiam não surgiu por acaso. Em recente visita a Álvares Machado, região de Presidente Prudente onde morava o tio, e reencontrando a Tia Hilda, viúva do tio, seus filhos (meus primos) e netos, no meio das alegres confraternizações que ocorreram, entre almoços, jantares e bate-papos, não pude deixar de lembrar do Tio nessa hora e, com certa resignação , imaginar que ele deverá estar em paz, ao ver essa linda família que deixou.

Tio Yotiam, que no documento era Yoshiyuki Mizobe, foi o filho caçula de uma prole enorme, gerada por Ikuta e Koto Mizobe, meus avós maternos. Eles, meus avós, assim como fizeram centenas de outros, migraram do Japão para o Brasil no início de 1900, em busca do sonho que o nosso país representava para eles, diante de um Japão arrasado pela guerra, pela fome e sem qualquer perspectiva . Na época, deixando lá apenas o filho varão mais velho sob os cuidados de uma tia, viajaram com destino ao Brasil, com os poucos recursos que tinham e com os demais filhos a tiracolo (duas meninas e dois meninos). Aqui a família cresceu com a vinda de mais três filhos, uma menina e dois varões. O caçula foi Yoshiyuki / Yotiam, nascido em 1937.

Família Mizobe em Bastos (SP). O menino memor, à esquerda, junto com à mãe em vestido claro é o Tim. 

Por ser “raspa de tacho” como se dizia na época, Tio Yotiam nasceu uma criança esperta, alegre e determinada e, com certeza, deve ter dado muito trabalho aos pais. À mãe, precisamente, pois desde seus oito anos ficara órfão de pai, tragicamente vitimado pelo ignominioso conflito que ocorreu dentro da comunidade japonesa após o término da Segunda Guerra Mundial.

Fez um pouco de tudo na vida. Desde soldado do Tiro de Guerra (Unidade Militar), a caminhoneiro, agricultor, vendedor, comerciante e empresário. Seu temperamento o levava a não se satisfazer com coisas pequenas; apreciava grandes desafios.

Hilda e Tim, o início de uma linda história

Encontrou em Tia Hilda o seu grande amor. Moça prendada, nissei, que morava na mesma cidade. Casaram-se em 1963 e logo surgiram os filhos, ou melhor, quatro filhas: Shirley, Ana Lucia, Claudine e Rosemary, meninas meigas e lindas. Mas, como bom descendente de japoneses, continuou persistindo e sua insistência foi recompensada com a vinda do Luiz Roberto (Beto), menino esperto e determinado, com traços de personalidade parecidos com os dos pais desde pequeno. E, tamanha foi a persistência, que chegou de presente mais um menino, o Miguel Fernando, completando o sexteto de ouro.

Com seu jeitão meio matuto mas de relacionamento fácil, esbanjando simpatia, com gestos largos e fala alta, lembrando mais um italiano do que japonês, contrapôs sua pouca afinidade aos estudos com um talento para fazer amizades e um agudo senso para negócios. Além de trazer consigo outra qualidade marcante: um coração de ouro, que revelava no carinho que dedicava à família e aos amigos que surgiram em sua vida. Tudo que ele fazia era, por dizer assim, intenso e, algumas vezes, exagerado. Era o jeito dele!

Surpreender a família, chegando em casa não apenas com um picolé para cada um, mas com uma caixa inteira, de diversos sabores ou aparecer sobraçando pacotes com guloseimas que faziam a alegria da garotada. Ou, na empresa, trazendo um monte de doces e salgadinhos para o deleite dos funcionários. Tudo era uma forma de demonstração de afeto e carinho que o Tim tinha com as pessoas que queria bem. Assim como preocupação que tinha com algum empregado doente ou com problema familiar.

Um episódio ocorrido quando o Tio ainda era moço retrata bem a sua personalidade. Certo dia um menino caiu dentro de um poço profundo e diante da dificuldade de retirá-lo foram acionados os bombeiros da cidade que, ao examinarem a situação, relutaram em descer no poço diante da provável presença de gases nocivos. Percebendo o grave risco que corria o garoto, o Tio Yotiam, que acompanhava tudo ao lado, não hesitou, e ele mesmo tomou a iniciativa de descer no poço com ajuda de cordas e, mesmo diante dos riscos, conseguiu trazer o menino à superfície, são e salvo.

Assim era o TIM, emocional, solidário, sempre muito querido por todos! 

Nem as irmãs, pelas quais tinha enorme carinho, escapavam da generosidade dele. Todas casadas e morando na Capital de São Paulo, Miyuki, Aiko e Tieko, quando não pessoalmente, eram surpreendidas com caixas de mangas, laranjas e até de frangos vivos, que ele mandava entregar nas respectivas casas.

A família em momento de confraternização

Lembro-me que na minha infância, na época das férias escolares, como meus pais se dedicavam a um pequeno comércio 12 horas por dia e sem direito a folga semanal, minha mãe, com pena da gente, sempre que possível, procurava fazer que passássemos as férias junto com os tios, em Álvares Machado. Eu e o mano Carlos, os mais velhos, na época com menos de 12 anos, viajávamos sozinhos, apenas com autorização especial do Juizado de Menores. A viagem era verdadeiramente uma epopeia. De Tupã a Álvares Machado só havia a “jardineira”, como era chamado o ônibus e levávamos quase o dia todo para chegar ao destino. Hoje, essa distância é coberta em duas horas apenas por automóvel. Mas, naquela idade, não havia distância ou cansaço que nos desanimasse. Tudo era alegria e muita emoção. As férias eram muito aguardadas, principalmente, por uma razão básica. Éramos paparicados e ciceroneados pelo Tio Yotiam, que era apenas uns oito anos mais velho. Éramos como se fôssemos irmãos mais novos e ele se desdobrava em dar a melhor atenção possível, levando-nos prá lá e prá cá, na garupa de bicicleta, de jeep, de caminhão, visitando sítios, fazendas, aproveitando as viagens que ele fazia por força de seus negócios. Para nós era um mundo novo, fascinante, visto que até então, nosso horizonte era limitado apenas à cidadezinha em que morávamos, entre a casa, a escola e a vizinhança.

Um episódio indelevelmente marcado em minha memória ocorreu em um desses passeios que o Tio nos levou. Depois de muito viajar, mais ou menos no horário de almoço, o tio parou o caminhão em um pequeno vilarejo e foi conversar com a proprietária de uma casinha simples que lá havia. Chamados para entrar, fomos surpreendido com um almoço na única salinha que lá existia. Apesar da simplicidade do ambiente, nunca esqueci a costelinha de porco que nos foi servida, acompanhada de arroz e feijão! Que delícia! Até hoje, anos e anos depois, a memória olfativa ainda me faz sentir o cheiro e o sabor daquelas costelinhas, como se hoje fosse.

E, para não bastar, na volta uma outra emoção. Viajando na carroceria do caminhão como gostam os moleques, em dado momento percebi no meio do mato, à margem da estrada, um coqueiro com um cacho enorme de coquinhos maduros. Não tive dúvidas. Gritei para o Tio e pedi: “Tio, Tio, eu quero aqueles coquinhos, pega para mim?” E, lá foi o infatigável Tio, com uma paciência e um facão na cintura, trepar no coqueiro e num golpe certeiro, derrubar o enorme cacho de coquinhos, que estatelou no chão. Com muito esforço, ele conseguiu colocar o cacho na carroceria do caminhão e lá fomos nós, alegres e extasiados, como se tivéssemos conquistado um grande troféu, lambuzando a boca de tanto chupar aqueles coquinhos, doces como ele só. Nessa altura, Tio Yotiam já era um herói para nós...

Apesar da sua disposição física invejável, a partir de 1981, Yotiam começou a apresentar problemas renais que se agravaram, levando-o à alternativa extrema de ter que recorrer a um transplante de rim, que só ocorreu graças à generosidade e altruísmo de sua irmã Aiko que, sem pensar duas vezes, cedeu um dos rins ao irmão caçula a quem tinha tanto apreço. Depois de uma intervenção cirúrgica bem sucedida, realizada na USP de Ribeirão Preto, em 1982, Tim voltou para casa alegre e bem disposto, mas com recomendação médica expressa de abster-se de atividades profissionais por algum tempo, para evitar qualquer infecção e observar rigoroso regime alimentar.

Entretanto, o seu próprio jeito de ser, arrojado e impaciente, o traiu, levando-o a passar por cima das prescrições e cautelas necessárias. Em pouco tempo, lá estava ele na empresa da qual era dono, supervisionando o frigorífico de aves, num ambiente nocivo à sua recuperação e, ao mesmo tempo, rendendo-se ao pecado da gula, não conseguindo deixar de lado as suculentas feijoadas, churrascos e outros pratos substanciosos. Prematuramente, o tio nos deixou em 1983, com apenas 46 anos e uma família que o deixaria orgulhoso: seis filhos, bem formados e bem casados, com vários netos; uma família linda, vivendo em torno da célula mater, a Tia Hilda que, nos últimos trinta e tantos anos conseguiu a heroica missão de mantê-la harmoniosamente unida.

“Existem muitas formas de amor, mas o carinho de um tio pelo seu sobrinho vai mais além dos genes ou de um sobrenome: abraçam como pais, compartilham como amigos, brincam como crianças e cuidam como mães.” 

(Fonte: Site “A mente é maravilhosa” )

 

© 2019 Katsuo Higuchi

16 Estrelas

Os Favoritos da Comunidade Nima-kai

Cada um dos artigos enviados a esta série poderia ser selecionado como um dos favoritos de nossos leitores e Comitês Editoriais. Agradecemos a todos que votaram!

Brazil family heroes Nikkei Chronicles Nikkei Heroes

Sobre esta série

A palavra “herói” pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. Nesta série, exploramos a ideia de um herói nikkei e o que isso quer dizer para cada pessoa. Quem é o seu herói? Qual é a história dele? Como ele(a) influenciou sua identidade nikkei ou a conexão com sua herança cultural nikkei?

Aceitamos o envio de histórias de maio a setembro de 2019; a votação foi encerrada em 12 de novembro de 2019. Todas as 32 histórias (16 em inglês, 2 em japonês, 11 em espanhol, e 3 em português) foram recebidas da Austrália, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Japão, México e Peru. Dezoito dessas submissões foram de colaboradores inéditos do Descubra Nikkei!

Aqui estão as histórias favoritas selecionadas pelo Comitê Editorial e pela comunidade Nima-kai do Descubra Nikkei.

* Estamos no processo de tradução das histórias selecionadas.


Seleções dos Comitês Editoriais:

Escolha do Nima-kai:

Para maiores informações sobre este projeto literário >>

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