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Histórias de Decasséguis

História nº 30 (Parte I): A grande aventura de Joana

Desde criança Joana foi trabalhadeira. De manhã bem cedo saía para trabalhar na roça junto com os pais e três irmãos mais velhos; retornava à casa às 11 e meia, almoçava com os dois irmãos menores e iam juntos à escola.

Quando faltavam três meses para terminar o curso primário, sua mãe ficou muito doente e Joana cuidou dela, ao mesmo tempo em que fazia o seu serviço e também o da mãe na lavoura. Por isto, não pôde continuar os estudos, mas ela tinha consciência que era para o bem da família e se esforçou para conciliar o serviço de casa e na lavoura.

Casou-se aos 18 anos com um agricultor da vila vizinha e teve quatro filhos. Junto com o marido e o sogro ia trabalhar na plantação e, à tarde, voltava um pouco mais cedo para fazer o serviço de casa e cuidar das crianças, que ficavam com a sogra enquanto Joana trabalhava na lavoura.

Quando o terceiro filho estava com 8 anos de idade, nasceu a tão aguardada filhinha e a família toda comemorou. Os nomes dos três filhos o seu marido é quem tinha escolhido, mas o nome da filha, Joana fez questão que fosse feita a vontade dela.

- Depois que parei de estudar, a minha professora vinha em casa e ensinava muitas coisas e me incentivava. O livro que ganhei dela eu guardo até hoje. Eu queria que a minha filha fosse assim como ela, bondosa e que pensa no bem do próximo.

- E como é o nome dessa professora?

- O nome dela é Luíza!

Foi assim que o nome da filhinha foi escolhido.

Luíza cresceu forte e saudável. Teve notas boas na escola desde o ensino fundamental e, pouco antes de concluir o ensino médio, os seus pais se viram diante de uma questão difícil:

- Se ela quer ser enfermeira, precisa ir estudar em São Paulo, não é?

- Mas nós não temos nem parentes nem conhecidos em São Paulo.

- Eu que não deixo a minha filha única ir sozinha a São Paulo!

Foi então que o segundo filho, que sonhava viver na cidade, pediu para que o deixasse ir junto com a irmã, que ele cuidaria bem dela e até iria estudar.

- Josué, o que você está dizendo? E o trabalho na lavoura, como é que fica? – falou o pai.

- Você diz que vai estudar, mas o que você quer é ter aula de violão, não? – o irmão mais velho esclareceu.

- Eu vou! – disse Joana com convicção.

- Quê? Mas a mãe nunca foi pra São Paulo!

- A mãe quando vê uma notícia de São Paulo na televisão diz que não tem vontade de ir pelos desastres, assaltos a banco, assassinato que têm por lá!

- Você vai mesmo?

- Mas aí, quem vai fazer o serviço de casa?

A família inteira se mostrou muito apreensiva.

- Podem ficar tranquilos. Eu vou com a Luíza para São Paulo, vamos arrumar um lugar para morar e, quando as coisas estiverem em ordem, eu logo volto!

O marido e os filhos se convenceram, embora um pouco apreensivos e despediram-se com carinho e emoção.

A nova vida de mãe e filha em São Paulo começou bastante corrida. Levantavam-se às 5 horas da manhã, preparavam uma marmita para cada, caminhavam 20 minutos até o ponto de ônibus e, ao descer do ônibus, Luíza fazia baldeação para o metrô e ia para a escola. A mãe, Joana, ainda caminhava uns 15 minutos até chegar numa pequena fábrica de bolsos, onde trabalhava até 17 horas e meia hora depois mãe e filha se encontravam no ponto de ônibus e juntas voltavam para casa.

Essa rotina continuou por cerca de meio ano até que chegaram as férias de julho e Luíza mudou-se para perto da escola.

Ela havia conhecido Akemi e Kaori, duas colegas do 2º ano da Escola da Enfermagem que moravam no apartamento perto da escola e que a convidaram para morar junto.

No começo, Joana achou muito interessante, porque na região em que sempre vivera não havia nenhum oriental, portanto, nunca tinham tido contato com um. A única coisa que lembrava era que, quando criança, havia na cidade uma loja conhecida como “a loja do chinês”. Dentre as colegas de escola de Luíza também não havia nenhum descendente de oriental.

Akemi e Kaori eram primas, nascidas no Brasil e netas de imigrantes do Japão. Akemi era muito alegre, firme e decidida; Kaori, muito habilidosa, logo tricotou um cachecol para Luíza. Vendo que elas tratavam Luíza como a uma irmãzinha querida, Joana se tranquilizou e achou que não teria mais com que se preocupar.

Duas semanas depois, Joana retornou à sua terra com o coração tranquilo.

Seu marido e filhos receberam-na com entusiasmo. A casa, que ficara sem os cuidados de Joana havia alguns meses, estava bastante desarrumada, mas isso não tinha a menor importância, porque deu para sentir o quão gratificante era estar em seu lar.

No mesmo dia ao anoitecer começaram a aparecer os amigos da vizinhança, curiosos para saber como é a São Paulo que Joana viu pela primeira vez na vida.

A conversa estava ficando animada, quando Joana se lembrou de repente e foi buscar uma pesada mala que abriu à frente de todos. Nisto, apareceram um sem-número de pequenos objetos: tigelas e canecas coloridas, “meias de 5 dedos”, espelhos, minivassouras e pazinhas, esmaltes, doces, estiletes, mixers portáteis, ingredientes para “karê”, esponjas, cabides, pratinhos, fitas decorativas, etc.etc.

- Comprei tudo na “Loja de 100 ienes do Japão1”que só existe em São Paulo – disse Joana que fez uma distribuição de docinhos japoneses a todos.

O fato de a filha ter feito duas amigas nikkeis fez com que Joana entrasse em mais uma grande aventura, pela segunda vez.

Continua... >>>

Nota:

1. Hyaku-en Shoppu corresponde à loja de 1,99 do Brasil.

 

© 2019 Laura Honda-Hasegawa

Brazil family sao paulo

Sobre esta série

Em 1988 li uma notícia sobre decasségui e logo pensei: “Isto pode dar uma boa história”. Mas nem imaginei que eu mesma pudesse ser a autora dessa história...

Em 1990 terminei meu primeiro livro e na cena final a personagem principal Kimiko parte para o Japão como decasségui. Onze anos depois me pediram para escrever um conto e acabei escolhendo o tema “Decasségui”. 

Em 2008 eu também passei pela experiência de ser decasségui, o que me fez indagar: O que é ser decasségui?Onde é o seu lugar?

Eu pude sentir na pele que o decasségui se situa num universo muito complicado.

Através desta série gostaria de, junto com você, refletir sobre estas questões.