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Histórias de Decasséguis

História nº 10: Um novo começo para Kimiko

Os imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil mais de 100 anos atrás pensavam que voltariam um dia ao Japão. Os decasséguis que começaram a fazer o caminho contrário na década de 1980 acreditavam que voltariam um dia ao Brasil. Mas nem tudo é um mar de rosas. Muitas coisas podem acontecer depois do retorno e um grande número de pessoas volta novamente ao Japão. Kimiko foi uma delas.  

“Não tem jeito, mãe! Vai, se anima”.

Kimiko se surpreendeu ao ouvir a voz de seu filho Alex e pensou: “Aqui é o Brasil e até que enfim estou de volta. Mas por que é que tenho que ir novamente ao Japão?!”.

Não dava para acreditar. Ela foi ao Japão em 1988 e trabalhou bastante com o firme propósito de regressar ao Brasil em menor tempo possível e foi o que fez dois anos depois, em 1990. Mas, a partir daí, era como se estivesse num barquinho sendo levada pela forte correnteza do rio, à mercê do destino sem nada poder fazer.

Nove de março. Quem apareceu no aeroporto para recebê-la foi apenas o seu filho Alex. Como não recebia notícias da filha Érica desde há muito, Kimiko foi atrás do seu paradeiro, não conseguindo nada. A filha já não morava naquele endereço.

Onze de março. Kimiko encontrou-se com sua irmã mais nova, Terê, e perguntou-lhe de Érica, mas a irmã também não tinha tido notícias. “Mas sabe que algum tempo atrás ela ligou para mim. Parecia que estava no meio de uma viagem, então nem lhe perguntei onde estava morando”. Kimiko ficou inconformada com a falta de sensibilidade da irmã.

Treze de março. O governo decretou feriado bancário em todo o país. Quem lhe deu essa notícia foi Eiko, sua irmã mais velha que costumava ouvir rádio enquanto costurava em casa. A notícia dizia que durante três dias ninguém podia tirar dinheiro do banco. Na hora, Kimiko não levou a sério, pensou que fosse uma brincadeira de mau gosto da irmã.

Dezesseis de março. Desde cedo, longas filas se formavam na frente dos bancos. Todo mundo ansioso aguardando a abertura das portas, enquanto conversavam com as pessoas próximas. O assunto do dia era a posse do novo governo e o futuro da situação econômica do país.  O novo governo chamado “Brasil Novo” acabava de anunciar medidas drásticas para sanar a economia do país.

Dentre essas medidas, o que pegou o povo de surpresa foi o “confisco” do saldo da caderneta de poupança. As contas com saldo superior a 50 mil cruzados novos ficariam bloqueadas durante 18 meses. Quer dizer, até 31 de julho de 1993, quem tivesse mais de 50 mil cruzados novos na poupança não teria como movimentar esse dinheiro.

Vinte e oito de março. Kimiko estava completando 49 anos de idade. Como “presente de aniversário” ela recebeu extratos bancários e não se conformou ao verificar que as remessas feitas em dois anos de trabalho duro no Japão ficariam intocáveis por um ano e meio. “Por mais que se diga que a inflação está alta, por que o governo tem que pôr a mão no dinheiro que é nosso? Se eu soubesse que isso ia acontecer, preferia ter ficado lá no Japão, que eu ia lucrar mais”. Sentiu que todos os seus sonhos e esperanças se esvaíram em instantes.   

Kimiko estava morando de favor na pequena casa da irmã mais velha. Alex também morava lá, mas pagava aluguel todo mês religiosamente. Mas Kimiko, que acabava de fazer 49 anos, nem emprego tinha e sua poupança estava a zero. Ela não queria incomodar a irmã que vivia das costuras que fazia em casa, então decidiu voltar para o Japão e ser decasségui novamente.

Pouco tempo depois, Kimiko estava no aeroporto prestes a embarcar, mas comparando com dois anos e meio antes, seu velho pai já não estava presente (ele havia falecido quando Kimiko estava no Japão) nem sua filha Érica, que na primeira vez tinha ido se despedir.      

“Vamos indo, mãe” – Alex roçou levemente no seu braço e se adiantou, levando nas mãos sua bagagem de mão e a bolsa de sua mãe.

Kimiko reparou que seu filho estava um homem feito e sorriu. Olhando bem, ele não estava com a camiseta, a calça jeans e o tênis de sempre, mas vestia paletó e calça azul-marinho, camisa social branca e sapatos de couro preto. No Japão, ele seria confundido com um jovem que acaba de se formar e está à procura de colocação numa grande empresa.

De repente, Alex para e aguarda a mãe. E vendo Kimiko que fazia um esforço para alcançá-lo, ele riu, mas na verdade estava era muito tenso, pois seria sua primeira viagem de avião. Alex estava firmemente decidido a ajudar sua mãe, indo junto para trabalhar no Japão.

A princípio, Kimiko foi contra. Seu filho tinha concluído o ensino médio e bem que ela gostaria que fosse fazer faculdade. Além disso, ele tinha emprego fixo, trabalhando numa gráfica desde quando cursava o segundo ano colegial. Por ele ter largado o emprego para ir junto, demonstrando o carinho que nunca tivera da filha Érica, Kimiko estava profundamente grata ao filho.

Finalmente ela pôde colocar os pensamentos em ordem. Agora sim, com o filho junto no Japão, trabalhariam os dois para recuperar a felicidade da família.

A primeira coisa seria se adaptar ao novo emprego. Na primeira vez, tinha trabalhado cuidando de idosos e, dessa vez, iria para uma grande fábrica trabalhar na cozinha do refeitório. Ganharia menos, mas o fato de morar junto com Alex deixava-a mais tranquila. Depois de algum tempo, quando pudesse ter uma folga, queria muito fazer uma visita para a senhora Nakayama e sua filha. Certamente elas ficariam espantadas e perguntariam: “Como? E o dinheiro juntado com tanto sacrifício, pra onde foi?”.

Responderia assim: “Pois é, voltei. Quero fazer mais um pouco de sacrifício, pois agora meus sonhos aumentaram de tamanho, são muito maiores!”. Será que estou querendo demais?

O avião decola e Kimiko se lembra das palavras da saudosa mãezinha: “O que tem de ser, será”.   

© 2013 Laura Honda-Hasegawa

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Sobre esta série

Em 1988 li uma notícia sobre decasségui e logo pensei: “Isto pode dar uma boa história”. Mas nem imaginei que eu mesma pudesse ser a autora dessa história...

Em 1990 terminei meu primeiro livro e na cena final a personagem principal Kimiko parte para o Japão como decasségui. Onze anos depois me pediram para escrever um conto e acabei escolhendo o tema “Decasségui”. 

Em 2008 eu também passei pela experiência de ser decasségui, o que me fez indagar: O que é ser decasségui?Onde é o seu lugar?

Eu pude sentir na pele que o decasségui se situa num universo muito complicado.

Através desta série gostaria de, junto com você, refletir sobre estas questões.