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OHAYO Bom dia II

No Brasil sempre fui “a japonesa”, mas em Portugal virei “a brasileira”!

Outro dia li “Astro”, escrito por Hudson Okada e publicado neste site e, na mesma hora, lembrei um fato ocorrido comigo anos atrás.

Nasci na Capital de São Paulo, filha de pai japonês e mãe nikkei filha de imigrantes japoneses. Portanto, minhas feições são de uma japonesa, tanto que quando estou no Japão, enquanto não abro a boca, todos pensam que sou japonesa nata. Sim, porque o nikkei (pelo menos nós brasileiros) sempre acaba se traindo pela pronúncia um tanto peculiar ao falar japonês.

Durante minha infância e adolescência morei no bairro do Ipiranga, numa rua onde não havia muitas famílias japonesas. Assim, achava normal que todos se referissem a mim como “japonesinha”. Na escola não me recordo se o tratamento era igual, pois havia um número considerável de alunos descendentes, mas conservo na memória o dia em que a professora de Português cismou com a pronúncia de uma aluna nikkei e chamou um por um apenas os alunos com nome japonês para falar duas palavras: “avô” e “avó”. Queria saber se nós sabíamos pronunciar o “o” fechado e o “o” aberto. Essa atitude me surpreendeu tanto que não lembro qual foi o resultado dessa averiguação nem se eu pronunciei as duas palavras a contento.

Na faculdade (USP) também presenciei caso semelhante, quando o professor de Linguística consultou a lista de presença e chamou apenas quem tinha nome japonês para responder uma questão capciosa.

Fins da década de 1970, meu primeiro dia como professora de Língua Portuguesa, eu entrei na sala que me foi indicada e os alunos foram logo dizendo: Professora, agora é aula de Português...

Devem ter pensado que eu fosse professora de Matemática ou Ciências, pois os nikkeis são mais propensos às exatas.

E por aí vai.  Os pais de alunos quando queriam falar comigo diziam: Eu quero falar com aquela professora japonesa. Imagine o trabalhão para saber que professora seria, pois era uma escola onde a grande maioria dos professores era descendente.

Enfim, passei mais de 60 anos de minha vida sendo chamada de “japonesa”.

Mas algo inédito aconteceu quando visitei Portugal em 2011.

Fiquei hospedada no centro de Lisboa, mais exatamente na rua Portas de Santo Antão, uma via pitoresca com construções antigas e uma variedade de restaurantes típicos, um ao lado do outro.

Pois logo no primeiro dia, entrei no restaurante e falei: Eu quero sardinha assada na brasa e também um caldo verde. Foi quando o garçom arregalou os olhos e, depois de tomar fôlego, exclamou como se anunciasse uma grande descoberta: Mas a senhora fala português!

Para não despertar a atenção dos demais clientes, provavelmente turistas de outros países, expliquei que nasci e me criei no Brasil, portanto, a minha língua nativa é o português.

Mesmo assim, ele disse ainda sem acreditar: Mas os outros japoneses que para cá vêm não falam como a senhora!

Pensei: já sei, ele está se referindo aos muitos turistas do Japão que vão conhecer Portugal e que, quando muito, conhecem apenas algumas palavras em português. Mas a minha vontade de saborear as sardinhas era tanta que eu apenas sorri e disse: Sou uma japonesa que sabe o seu idioma.

Conversas em Lisboa. Foto Naomi Kimura

Nos outros dias foi a mesma coisa: aonde eu ia bastava falar algo que os vendedores me olhavam surpresos e então eu tinha que me apresentar: Eu nasci no Brasil, sou brasileira.

Em suma, principalmente os garçons dos restaurantes da Portas de Santo Antão quando me viam apontando na rua diziam alegremente: Olha a brasileira!

Foi um sentimento de surpresa e novidade feliz que experimentei pela primeira vez na vida!

 

© 2017 Laura Hasegawa

Brazil identity Japanese Brazilian language Portugal portuguese

About this series

Quando criança, eu falava misturando o japonês e o português. Entrando na escola fundamental, fui aprendendo naturalmente a distinguir o que era uma língua e outra e, escrever em português se tornou uma atividade prazerosa. Hoje, 60 anos passados, escrever tanto em português como em japonês é a maior das minhas alegrias. Através desta série, espero poder contar histórias sobre os mais variados temas. Que isto possa chegar até vocês, como se fosse o meu cumprimento de uma refrescante manhã. 

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