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110 anos da Imigração Japonesa no Brasil: com a devolução da Escola Japonesa de Santos “a guerra acabou de verdade” e chega-se à coexistência pacífica superando a discriminação contra os estrangeiros - Parte 4

Mario Jun Okuhara (em pé) pede colaboração durante a reunião ordinária do conselho da Associação Okinawa Kenjin do Brasil

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A partir de 2000 começa a engrenar o mecanismo para revisar a História

Já faz alguns anos que o mundo começou a mudar.

O diretor de cinema radicado em Okinawa, Yoju Matsubayashi, levou mais de dez anos entrevistando pessoas que sofreram ordem de despejo no tempo da guerra e agora está preparando um filme documentário. Quando esteve visitando a Escola Japonesa de Santos em 2016, ele descobriu a lista das pessoas removidas à força durante a guerra e começou a garimpar material. Das pessoas entrevistadas na época várias delas vieram a falecer, então seu desejo é concluir esse trabalho em memória dos que se foram.

O maior movimento ocorrido este ano foi o apoio dado por unanimidade a Mario Jun Okuhara na reunião ordinária da Associação Okinawa Kenjin do Brasil (presidente Eiki Shimabukuro) no dia 19 de abril deste ano. Mario Jun está movendo uma ação judicial solicitando do governo federal um pedido de desculpas em reconhecimento à perseguição aos imigrantes japoneses durante a guerra.

O fator decisivo foi o fato de mais de 60% das pessoas retiradas à força de Santos serem originárias de Okinawa e seus descendentes. Como o clima era semelhante, perto do porto de Santos havia muitas pessoas de Okinawa trabalhando no descarregamento e como pescadores. Quando este assunto foi levantado na reunião, houve manifestações da maioria dos presentes: “Com meus pais também foi assim”, “No meio dos meus parentes também”.

Relação de nomes das pessoas removidas de Santos

A revista “Muribushi” editada pelo Centro de Pesquisas da Imigração Okinawana no Brasil traz no número 3 (outubro de 2017) a relação das pessoas que foram retiradas de Santos e quatro entrevistas feitas por Yoju Matsubayashi.

Dentre elas, a história da irmã mais velha de Toyoko Yabiku (84 anos, nissei) é tocante. Quando recebeu a ordem de despejo, o marido por acaso estava ausente e ela teve de se desfazer de tudo que tinham juntado com perseverança e junto com os dois filhos foi obrigada a embarcar no trem rumo à cidade de São Paulo.

“A lembrança mais triste é que, devido ao choque, ela ficou em estado de pânico e sofreu transtorno mental a vida inteira” (pág.145), conta Toyoko. No movimento em prol do pedido de reparação está incluído o sentimento de rancor multiplicado por 6.500, que foi o número de pessoas de Santos que passaram por experiência traumatizante.

Antes de procurar a Associação Okinawa Kenjin, Okuhara foi solicitar apoio à organização que representa a sociedade nipo-brasileira, a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, mas seu pedido foi negado. A grande maioria das vítimas já faleceu, restou uma geração que desconhece esses fatos, além de que, “não é mais hora de ficar remexendo nisso”, opinam muitos. Mas Okuhara prossegue indo contra a corrente. Sua atitude logo me faz lembrar Arata Kami, que seguiu em frente, sempre.

A Associação Okinawa Kenjin, constituída por 10% da sociedade nipo-brasileira e que se orgulha de seu forte espírito de união, por ocasião dos 110 anos da imigração, tornou-se forte aliada para acelerar a deliberação na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.    

A Comissão Nacional da Verdade foi instituída durante o governo do PT com grande repercussão para investigar as violações de direitos humano no período da ditadura militar. Nessa trajetória, em 2013 a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo convocou uma audiência pública para examinar as perseguições sofridas pelos imigrantes japoneses antes e depois da Segunda Guerra Mundial, cujo conteúdo está registrado nos anais da referida comissão, o que fez com que Mario Jun Okuhara levasse o caso à Comissão de Anistia em 2015.

Nos Estados Unidos o governo pediu desculpas na década de 80, na América do Sul o governo ditatorial...

Em agosto de 1988, o presidente norte-americano Ronald Reagan assinou a Lei das Liberdades Civis, que exigia que o governo publicasse pedido de desculpas aos imigrantes japoneses e nikkeis americanos pelas violações dos direitos constitucionais e estabeleceu uma indenização individual de US$ 20,000. Da mesma forma, em 1983, os nikkeis canadenses moveram ação judicial para reparação de danos e, em setembro de 1988, o governo canadense decidiu pela reparação de danos, tanto individual como também para a comunidade nikkei.

No Brasil, a ditadura militar começou na década de 60 e teve prosseguimento até metade da década de 80, tempo em que sequer tentaram impedir uma revisão democrática da História, pelo contrário, ocultaram as evidências. Somente por volta do ano 2000 com o estabelecimento de governos de esquerda em diversas localidades foi que o assunto ganhou destaque.

Entretanto, existem cerca de 20 mil processos judiciais empilhados e os que estão sendo examinados agora são recursos anteriores a 2000. Assim como Arata Kami, a maioria dos imigrantes anteriores à guerra está falecendo em após outro. O desejo de Mario Jun Okuhara é concretizar o pedido de desculpas o mais depressa possível e estava à procura de uma organização nikkei que o apoiasse.

E foi exatamente no dia da imigração, 18 de junho, que se realizou a cerimônia de assinatura da posse definitiva da Escola Japonesa de Santos. Na ocasião, o deputado federal João Paulo Papa, que se empenhou no Congresso por esta causa, disse: “Por mais que tenha acontecido em plena guerra, não deixa de ser um grande erro. Esta devolução é o reconhecimento desse erro. Que esta parte da História seja transmitida para não ser esquecida e eu espero que este espaço seja o símbolo da paz eterna que vamos construir juntos”.

O prefeito da cidade de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, exaltou a cooperação de todos ao longo dos anos: “Justiça – Igualdade – Respeito. Tendo como base estes pilares, começa um novo capítulo da História. No mundo, princípios como o fundamentalismo e o exclusionismo estão se espalhando rapidamente. No entanto, aqui os japoneses contribuem para um Brasil novo e, através da História que vem sendo escrita, pode se pensar num futuro com muitas raças convivendo em paz, o que é inspirador. A retomada da escola japonesa é o resultado da cooperação conjunta de imigrantes japoneses e de nós, brasileiros”.

Esta retomada não teria sido possível sem a cooperação de políticos brasileiros. Foi exatamente uma “cooperação conjunta”. O próprio processo tem significado profundo.

A completa devolução da escola foi concretizada por ocasião dos 110 anos da imigração. Isto não seria “Tratar os imigrantes estrangeiros com igualdade e coexistir pacificamente”? E para reparar os erros do passado, não seria agora o momento de revisar com seriedade esta História?

 

© 2018 Masayuki Fukasawa

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