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Histórias de Decasséguis

História nº 12 (Parte II): Crianças sem paradeiro certo

Faltando pouco para retornar ao Brasil, Sayaka começou os preparativos. A lista de presentes para a família ela não tinha conseguido completar ainda, mas havia algo que a deixava inquieta naquele momento.

Era a menininha que havia conhecido no parque em pleno verão e a “escola brasileira do Japão”, da qual ouvira falar pela primeira vez. Como tinha trabalhado numa escola de ensino fundamental no Brasil, ela ficou muito interessada e foi visitar a escola para crianças brasileiras no Japão.

Foi numa sexta-feira à tarde, bem na hora do término das aulas. O ônibus escolar estava esperando pelos alunos.

Sayaka lembrou que no Brasil o ônibus escolar é pago pelos pais, motivo pelo qual a maioria das crianças não tem outro jeito a não ser voltar a pé para casa. Então ela quis saber do diretor da escola como funcionava no Japão. “Aqui também é assim e, tanto a mensalidade como o material escolar e o ônibus, tudo é pago separadamente. Para os decasséguis eu sei que é muito dinheiro, mas, se não for assim, a escola brasileira não tem como. Nossa escola agora está no limite”, disse o diretor.

Muito tempo atrás, o diretor morava no Brasil e era professor de língua japonesa, mas depois que sua esposa faleceu, ele retornou ao Japão. Foi para a casa onde havia nascido, mas viu que lá não havia mais lugar para ele, pois era residência do filho e dos netos de seu irmão mais velho. Diante disso, ele foi para a província de Shizuoka, onde vivem muitos decasséguis. Nos primeiros nove anos, trabalhou em serviços considerados duros, sujos e perigosos – os chamados 3K (Kitsui-Kitanai-Kiken). E, seis anos atrás, realizou o sonho de abrir uma instituição onde os filhos de decasséguis pudessem se sentir bem acolhidos - o recanto “Criança Feliz”.    

Quando o diretor soube que Sayaka tinha sido professora no Brasil, juntou as mãos em sinal de prece e lhe fez um pedido: “Eu sei que é repentino, mas será que poderia vir nos ajudar no próximo sábado? Estamos precisando muito!”.

Tratava-se de um pedido inusitado, mas ela concordou.

É fato que no Brasil o sábado não é dia letivo, mas no Japão os decasséguis têm sábado em que trabalham e, assim, as escolas que atendem crianças brasileiras dispõem de um programa especial para os finais de semana.

Chegando o sábado, Sayaka levantou-se cedo como de costume e às sete horas estava chegando à escola. O diretor se encontrava na entrada, recebendo as crianças. Nesse dia, estavam previstas atividades de reforço e recuperação, além de aulas de japonês e também de português.

Imediatamente, Sayaka ficou encarregada de sete alunos: o Guigui e a Marina do 1º ano, o Henri do 3º e Lisa e Anna do 4º ano. Além desses, havia os irmãos Yuji e a Maya que frequentavam a escola japonesa e não sabiam quase nada de português. Como os pais iam voltar definitivamente para o Brasil, os filhos tiveram que começar a estudar o português. Maya se esforçava para copiar as palavras, mas Yuji, dois anos mais velho que ela, não demonstrava o menor interesse, nem havia tirado o material da mala e ficou olhando o que se passava lá fora pela janela.

Algum tempo depois, ele tirou de dentro da mala um game e, de cabeça baixa, começou a falar sozinho: “Eu nasci no Japão e vou terminar o ensino fundamental na escola japonesa. Eu não quero ir para o Brasil, não! Lá os gaijin¹ vão judiar de mim! Eu não quero, de jeito nenhum!”.   

A irmã tentou acalmá-lo, mas não adiantou, pois Yuji deixou a sala repentinamente, retornando uns 10 minutos depois. Sentou-se e ficou assim.

Sayaka entendeu perfeitamente a situação pela qual o adolescente estava passando. E falou: “Lembro que eu também me senti assim, quando nós tivemos que mudar para São Paulo por causa do trabalho de meu pai. Eu cursava a 8ª série e não queria me separar dos colegas de classe e morria de medo de ser ridicularizada por ser do interior, ser chamada de “caipira”. E quando se trata de ir para um outro país, como no seu caso, é bem mais complicado. Mas sabe, vai dar tudo certo! Você vai se acostumar logo e vai fazer muitos amigos!”.

O adolescente, que ouvia calado, tirou seu material para estudar. A irmã já estava no treinamento oral. Os demais alunos executavam as tarefas, com exceção do Guigui. O segundo semestre já estava terminando e ele ainda não conhecia as letras, o que atrasava a lição de reconhecimento das palavras.

A hora do almoço chegou e todos rumaram para o refeitório. Aos sábados não era servida a merenda escolar, cada um tinha que levar seu próprio lanche. Além das crianças e adolescentes, havia três jovens, todas recém-chegadas do Brasil e que tinham aulas de japonês com o diretor. Eram decasséguis que precisavam saber a língua para garantir o emprego.

Quando Sayaka abriu seu bento bako², a Lisa que estava do seu lado, exclamou admirada: “Nossa! O que é isso?”. Era um cozido à moda japonesa preparado na véspera.

Nisto, os demais alunos se juntaram em volta de Sayaka, querendo espiar sua comida. Quem ficou mais admirada foi Sayaka: “Mas o que tem aqui que chama tanto a atenção?”.

O fato é que essas crianças não conheciam comida japonesa. O almoço servido na escola era basicamente o arroz temperado e o feijão, como no Brasil. Nos finais de semana iam com a família ao fast-food e em casa as refeições eram preparadas com ingredientes comprados na loja de produtos importados do Brasil.  

E mais uma vez Sayaka se surpreendeu com a realidade dessas crianças: moram no Japão, mas não falam o japonês nem conhecem a cultura do país, mas também não conhecem suficientemente as coisas do Brasil.

Foi nesse momento que as crianças menores chegaram alegremente da rua.

Uma garotinha de chapéu pink viu Sayaka e correu para abraçá-la.

- Talita! É você?!

A jovem que vinha logo atrás cumprimentou Sayaka. Meses antes, Sayaka tinha tido um encontro casual com a menininha e com a jovem funcionária da escola.

Talita segurou firme na mão de Sayaka e começou a tagarelar. Igualzinho como na primeira vez em que se viram, e a menininha continuava falando numa língua que não era japonês e também não era português.

- Como a mãe dela é filipina, ela está falando em filipino, esclareceu a jovem.

- Então, por que frequenta a escola brasileira?

- O pai dela é japonês e primeiro foi casado com uma brasileira, com quem teve três filhos. Como o pai quer que a Talita possa conversar com os irmãos mais velhos, ele pediu que ensinasse português a ela. Acho que foi um ano atrás. Mas já não tem mais necessidade. Logo a Talita vai morar nas Filipinas.

- Como assim?!

- Bem, não sei o que houve na família, mas a Talita vai ser criada pela avó materna.

Sayaka lembrou-se do menino Guigui que tinha acabado de conhecer e perguntou:

- O Guigui do 1º ano, aconteceu alguma coisa também com ele?

- É de dar pena. Ele nasceu no Japão e estava frequentando a pré-escola na escola japonesa. Mas seus pais se separaram e ele veio com a mãe para esta cidade. E como ela quer voltar em breve para o Brasil, resolveu matriculá-lo aqui. O menino sente tanto a falta do pai, que não consegue se concentrar nos estudos.

“Igualzinho como acontece no Brasil”, pensou Sayaka. Nos seus 25 anos de professora, ela assistiu a tantos casos assim, em que as crianças são as maiores vítimas de adultos que agem segundo suas próprias conveniências.

Sayaka ajudou na escola por mais três sábados.

No último dia, bem na frente da placa “Criança Feliz” fez uma oração pela felicidade de todas as crianças e, por fim, disse adeus.

Notas:

1. Significa “estrangeiro”, mas curiosamente o termo é usado pelos nikkeis para designar o não nikkei.

2. Conhecido como bento box no exterior, é o recipiente (caixa) que acondiciona a refeição chamada bento.

 

© 2013 Laura Honda-Hasegawa

Brazil dekasegi fiction

Sobre esta série

Em 1988 li uma notícia sobre decasségui e logo pensei: “Isto pode dar uma boa história”. Mas nem imaginei que eu mesma pudesse ser a autora dessa história...

Em 1990 terminei meu primeiro livro e na cena final a personagem principal Kimiko parte para o Japão como decasségui. Onze anos depois me pediram para escrever um conto e acabei escolhendo o tema “Decasségui”. 

Em 2008 eu também passei pela experiência de ser decasségui, o que me fez indagar: O que é ser decasségui?Onde é o seu lugar?

Eu pude sentir na pele que o decasségui se situa num universo muito complicado.

Através desta série gostaria de, junto com você, refletir sobre estas questões.