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Histórias de Decasséguis

História nº 1: Kenjinho descobriu o Brasil!

No primeiro dia na nova escola, o menino não pôde comparecer porque estava com uma tremenda diarreia.

A mãe ficou preocupada e pensou que tinha sido a feijoada.

Mas no fundo no fundo o menino sabia direitinho o motivo. Os colegas da outra escola tinham falado: “Lá vai ter só gaijin”.

“Como vai ser?” O menino, que tinha vivido a vida toda na cidadezinha cercada de montanhas, agora estava no outro lado do mundo. “Na casa da vó Iracema todo mundo fala uma língua que não entendo. Será que na escola também vai ser assim?”. Estava muito apreensivo.

No dia seguinte, já refeito, ele foi à escola. A mãe foi junto até o portão. O menino estava tão ansioso que entrou sem dar tchau para a mãe.

O pátio fervilhava de meninos e meninas.

Deu o sinal e todos, de uma só vez, dirigiram-se para as salas de aula.

O menino começou a procurar a sala do 4º ano C, mas não havia nada escrito nas portas. Estava meio indeciso quando alguém chegou por trás e bateu nas suas costas dizendo “É aqui”. Era o seu primo Lucas, que morava quase vizinho. Lucas era bem mais alto e desenvolvido e o menino se sentia em segurança só de estar perto dele.

Entrando na sala de aula, ali também estava uma algazarra. O menino achou uma carteira vaga bem na frente e sentou-se.

Algum tempo depois, uma mulher entrou, tirou da bolsa o celular e pôs em cima da mesa. O menino ficou surpreso. Na escola onde estava o celular era proibido. Nunca tinha visto um professor portando um. “Como as coisas no Brasil são diferentes”, estava assustado.

A professora começou a chamada, mas os alunos não estavam nem aí. Tinha gente de costas jogando game e muitos conversavam.

Quando o menino ouviu chamar Mateus Kenji Harada, levantou-se e respondeu em voz alta: Hai.

A professora que até então estava de cabeça baixa, levantou os olhos, mirou o menino e disse alguma coisa.

Então a classe toda deu risada. O menino não entendeu nada e sentiu muita vergonha. 

Ao voltar a casa, a vó Iracema estava esperando na varanda e disse carinhosamente:

- Vá lavar as mãos que tem um gostoso bolo te esperando.

Nessa hora o menino abriu o berreiro. A avó consolou-o, dizendo que logo ele iria se acostumar.

Passado um mês, o menino já estava achando a escola legal. Mas isso era só na hora do recreio. Eram apenas 20 minutos em que ele se sentia livre. Comia a merenda rapidamente e o resto do tempo jogava bola. O Lucas estava sempre junto.

Mas assistir às aulas era duro. A professora falava depressa e ele não entendia quase nada. Ela escrevia na lousa com uma rapidez que ele não conseguia copiar tudo. E todos os dias ele se queixava disso para a mãe.

A mãe andava ocupadíssima atrás de emprego, mas foi falar com a diretora da escola. A professora da classe foi chamada e a diretora perguntou-lhe sobre o aluno. E pelo jeito a professora nem tinha percebido que estava com um aluno vindo do exterior. 

- O meu filho nasceu no Japão e viveu lá todo esse tempo. Gostava demais da escola japonesa e não queria saber de voltar para o Brasil. Mas é que...

Com voz tremida, começou a chorar. A diretora e a professora se aproximaram, procuraram acalmá-la e ofereceram-lhe uma cadeira.

- Não fique assim, mãe. Por favor, esteja à vontade para continuar falando – disse a diretora.

Nisto, um funcionário veio chamar a professora, pois mal ela saiu, começou uma briga entre alunos na sala de aula.

- Coitado do meu filho! Teve que vir embora a mando daquele covarde...

Os olhos da mãe brilhavam de ódio. Levantou-se e continuou:

- Trabalhei até o Kenji nascer. Na mesma fábrica do meu marido. O serviço era pesado, mas suportei bem pensando no filho que ia nascer. Aí o Kenji nasceu e eu fiquei cuidando dele e trabalhando em casa; eu fazia bolos e tortas para os brasileiros do lugar. Foram dias muito felizes.

A mãe pareceu mais serena. A diretora ofereceu-lhe um cafezinho, mas ela continuou falando:

- Mas meio ano atrás, a minha vida virou de cabeça pra baixo. Meu marido saiu de casa, pediu as contas e sumiu.

A diretora começou a olhar insistentemente para o relógio.

- Até que um mês depois, quando o Kenji chegou da escola, viu o pai em frente de casa.

Disse que era melhor nós voltarmos para o Brasil, entregou um dinheiro para o Kenji e foi-se.

- Então a senhora não chegou a falar com o pai do Kenji?     

- Aquele dia eu estava fazendo bico, cortando cabelo e fazendo manicure nos fundos de uma loja brasileira. Quando voltei para casa era depois das 10 da noite...

A diretora olhou novamente para o relógio e disse:

- Mãe, pode ficar tranquila que eu vou conversar direitinho com a professora. O Kenji é ainda uma criança, vai se acostumar logo. Por favor, tenha fé que vai dar tudo certo.

Os dias foram passando e o menino pareceu estar se acostumando à nova vida. O período de aulas era de apenas 4 horas, mas ele estudava também em casa. Ele, que era bom em aritmética, agora estava com dificuldade por não entender o enunciado dos problemas em português. A conjugação dos verbos achava difícil, mais ainda a diferença entre substantivo masculino e substantivo feminino. Mas a História do Brasil ganhava de tudo! Que matéria mais complicada!

Mas ele via as coisas pelo prisma do otimismo, tinha que gambatear, né? Ele que chegou no Brasil com a mãe que jurava que nunca mais ia voltar ao Japão - tinha que virar brasileiro!

Tarde de domingo, o menino saiu para a rua e ficou deslumbrado! Nos dois lados havia muitas pessoas trabalhando. Estavam pendurando fileiras de bandeirinhas verde e amarelo e, na frente da padaria, pintavam a bandeira do Brasil no chão. A criançada havia se juntado para ver tudo de perto. O menino também se aproximou levado pelo Lucas. Pela primeira vez na vida ele estava vendo uma bandeira tão grande e alegre.

Nessa noite, ele ganhou um presente inesperado da vó Iracema: uma camiseta amarela, um boné azul e uma vuvuzela amarela. Ele gostou demais da camiseta amarela com o BRASIL bem grande escrito em verde. Só então ele ficou sabendo que o Brasil estava participando da Copa do Mundo.

A vó Iracema abraçou o menino bem forte dizendo:

- O meu Kenjinho agora mora no Brasil, então é brasileiro e tem que torcer pelo Brasil, uai!

Desse dia em diante o mundo do menino foi se alargando. Como uma muda de árvore que foi transplantada de uma cidade pequena para um país grande, o menino ficou forte e vigoroso.

E na hora em que o time brasileiro marcou o seu primeiro gol, Kenjinho começou a dar pulos e mais pulos de alegria. A mãe vendo isso não acreditou. Era a primeira vez que via o filho, que era um tanto tímido, vibrar desse jeito! No rostinho queimado de sol, seus olhos brilhavam que mais pareciam pedras preciosas.

Acabava de nascer mais um brasileiro: Kenjinho, garoto com o coração tão grande como o tamanho do Brasil. Valeu!

© 2012 Laura Honda-Hasegawa

Brazil dekasegi fiction

Sobre esta série

Em 1988 li uma notícia sobre decasségui e logo pensei: “Isto pode dar uma boa história”. Mas nem imaginei que eu mesma pudesse ser a autora dessa história...

Em 1990 terminei meu primeiro livro e na cena final a personagem principal Kimiko parte para o Japão como decasségui. Onze anos depois me pediram para escrever um conto e acabei escolhendo o tema “Decasségui”. 

Em 2008 eu também passei pela experiência de ser decasségui, o que me fez indagar: O que é ser decasségui?Onde é o seu lugar?

Eu pude sentir na pele que o decasségui se situa num universo muito complicado.

Através desta série gostaria de, junto com você, refletir sobre estas questões.