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Oshogatsu: lembranças de minha infância

Meu pai veio como imigrante aos 16 anos de idade junto com a família que o adotou, pois sendo menor de idade necessitava vir como membro de alguma outra família. Naquela época, os imigrantes eram tratados como escravos. Ouvi dizer que muitos fugiram ou morreram. Não sei dizer como meu pai se libertou dessa escravidão.

Ele trabalhava incansavelmente e mandava dinheiro para a mãe e os irmãos que tinham ficado no Japão. Era uma quantia suada ao extremo (naquela época, o dinheiro brasileiro era muito valorizado no Japão).

Uma coisa que meu pai tinha como hábito era de levar toda a família para tirar fotografia nos primeiros dias de janeiro. E essa foto ele mandava para sua mãe, para que ela se tranquilizasse pensando que o filho estivesse tendo sucesso. Jamais imaginou como era a real situação dele em terra tão longínqua. Eu admirava meu pai, mas admirava ainda mais a minha mãe, pois ela jamais se opôs a que ele mandasse esse dinheiro.

Família Iwahara - sou a primeira à dir. da fileira da frente

Lembro que no Ano-Novo eu ganhava de meu pai a única roupa nova, que alguma das minhas irmãs confeccionava com tecido barato. Meu pai era quem escolhia a cor e a estampa do vestido de cada uma de nós, além de um par de sapatos novos, que eram grandes para poder usar o ano inteiro. No dia a dia, vestia “ossagari”, que eram as roupas já surradas das irmãs mais velhas. Jamais vi um vestido novo em minha infância, a não ser o vestido do OSHOGATSU.  Mas eu era feliz, não sentia falta de nada.

À medida que a vida ia melhorando, meus pais compravam porquinhos que engordavam durante o ano inteiro. E no final do ano, matavam os porcos, não desperdiçando nenhuma parte: a cabeça e os ossos viravam sopa, o couro e a carne eram muito bem fritos e toda a gordura era retirada e guardada em grandes potes de vidro para ser usada no preparo da comida.

As carnes em pedaços grandes, minha mãe temperava e fritava na própria gordura e depois conservava num galão enorme para nos deliciarmos durante meses. O couro frito era cozido junto com o feijão, ficando meio gelatinoso, macio e saboroso. O fígado, coração, etc. viravam pratos deliciosos e tudo que era resto virava sabão caseiro. Nós não conhecíamos sabão de mercado.

A parte do porco que não podia ser conservada, nós degustávamos nos dias que antecediam o GANDITSU.

Meu pai comprava refrigerante Guaraná e uma peça inteira de mortadela, que deixava pendurada no teto para os ratos não terem acesso.

Esperávamos chegar o GANDITSU numa grande expectativa, mas como a família era grande, degustávamos uma porção mínima, porque a maior parte era reservada às visitas.

Na véspera, desde o amanhecer, a família estava reunida para fazer GOTISSOU: SUSHI, MAKIZUSHI, INAKAMANDYU, YAKIMANDYU, FUKASHIMANDYU, etc. Não preciso dizer que o ANKO minha mãe fazia com antecedência.

No dia primeiro, minha mãe cozinhava o motigome e, ela e meu pai, faziam dupla no HOI HOI, em sintonia perfeita, um batendo no USSU e outro passando água no MOTIGOME.

Fazia várias paneladas de “moti”. Depois, com a massa ainda quente, entrávamos na confecção dos bolinhos. Imaginem quantos “motis” entravam na nossa boca... “Motis” recém confeccionados e ainda quentes, só quem experimentou sabe a delícia que é. Os “motis” eram com e sem “anko”.

Nos dias de hoje, ainda existe a tradição. Na vizinha cidade de Suzano, onde moram meu cunhado e um casal de sobrinhos, fazem MOTITSUKI com USSU. Talvez já estejam usando aparelhos de fazer “moti”.

Voltando à minha infância, não podiam faltar aquelas 3 bolas de “moti”, de tamanhos diferentes, um em cima do outro oferecidos para KAMISSAMA.

Minha mãe fazia também o OZOUNI e esperávamos as visitas. Meu pai dizia que seria bom que a primeira visita fosse de um homem, porque daria sorte. Eu ficava triste, porque não podia sair correndo de manhã com roupa e sapatos novos para visitar primos e vizinhos. Simplesmente porque eu era uma menina.

 

© 2015 Rosa Tomeno Takada

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