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Nikkeis gays falam sobre preconceito e aceitação - Parte 1

Nikkeis gays sofrem com estereótipos e fetichização (Foto por Henrique Minatogawa)

No Brasil, vivem aproximadamente 190 milhões de pessoas de acordo com o censo de 2010 realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Destes, aproximadamente 1,5 milhão são japoneses ou descendentes de japoneses, ou seja, menos de 1% da população do país, conforme dados do Ministério de Relações Exteriores do Japão e do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros. Em termos quantitativos, portanto, o Nikkei faz parte de uma minoria.

Segundo estimativa da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (Abglt), aproximadamente 20 milhões de brasileiros são homossexuais, o que corresponde a 10% da população. Trata-se de outro grupo minoritário.

Por “minoritário”, não se trata apenas de estatística; existe também um fator de ignorância e preconceito que, de uma forma ou de outra, começa a ser discutido na sociedade brasileira. No caso dos Nikkeis homossexuais, então, é um grupo que constitui uma minoria dentro de uma minoria.

No Brasil, os Nikkeis ainda sofrem algum tipo de preconceito, manifestado sobretudo na forma dos estereótipos. Consequentemente, os homossexuais também podem ser atingidos. “Acho que recebemos uma carga extra de preconceito. Já ouvi diversas vezes que ‘nunca tinha visto um japa gay’, o que mostra muito da nossa invisibilidade e de como as pessoas supõem que pela minha raça eu seja isso ou aquilo”, conta Aryel Murasaki, 29 anos, terapeuta ocupacional e descendente de quarta geração (yonsei).

Já para Ricardo Nakase, 33, sansei, não há essa carga extra. ”Mesmo porque, em sua grande maioria, os homossexuais orientais são bem discretos. Muitos, com medo da sociedade ou mesmo da reação dos familiares, não se assumem. Isso não é uma exclusividade dos homossexuais orientais. De uma forma geral, o preconceito vem numa ordem meio padronizada. Observando a sociedade como um todo, podemos ver que o preconceito vem conforme o grau de divergência ou distanciamento da ‘normalidade’ que se acredita ser o certo. Então, se a pessoa é gay, a primeira coisa que vão apontar é esta característica. Se é gay e gordo, vão primeiro apontar por ser gay e, em segundo plano, que é gordo. É muito complexo entender o grau de preconceito da sociedade”, avalia.

Uma outra forma de preconceito é a fetichização, algo que atinge os Nikkeis hetero e homossexuais de forma similar. Ainda, esse preconceito também parte de homossexuais não orientais.

“Dentro de nossos traços físicos e costumes, que as pessoas conhecem de forma muito rasa, há um misticismo, fascínio e fetichismo consequente. Nunca passei por uma situação em que não fosse vista como um fetiche exótico, seja por asiáticos ou não asiáticos. Percebo que o asiático (homem ou mulher) é visto como fetiche e não como indivíduo. Tem amigos que chegam em mim e falam ‘apresenta aí algum amigo japa seu’; até então, eu nem tinha amigos asiáticos em São Paulo. Compreende como o preconceito é sutil, mas não deixa de existir? Quando eu pergunto ‘por que você tem tudo isso por asiático?’, a resposta geralmente é ‘ah, não sei, eu gosto porque é diferente’. Então noto que raramente sou vista como indivíduo; eu sou um estereótipo ao olhar do mundo. Tive parceiros que diziam sobre asiáticas serem melhores ou comentários como ‘você não tem jeito de japonesa’, que eu tenho muito corpo para ser japonesa. Realmente é complicado”, conta Kiyomi, 26, maquiadora, sansei.

“Já fui a encontros em que eu me senti um objeto; a pessoa já fazia várias suposições sobre mim, inclusive sobre preferências sexuais, e quando eu não correspondia a certas expectativas, ouvia coisas como ‘mas você não é japa?’”, diz Aryel. “Já fui dispensado por diversas pessoas por ser descendente, muitas vezes com frases como ‘não curto orientais’. Por outro lado, houve pessoas que queriam ficar comigo simplesmente pelo fato de eu ser oriental, porque nunca tinham ficado ou porque gostavam. Em muitos momentos, me senti um objeto. Hoje, lido melhor com isso, mas antes ficava mto mal.”

Existem gírias que expressam alguns desses fetiches. De forma geral, atribui-se a expressão “yellow fever” a uma pessoa não oriental que sente atração por orientais, tanto homo quanto heterossexuais. “Rice Queen” refere-se a um homem gay que tem preferência por orientais. Ambas, dependendo da situação, podem ter um significado pejorativo para o lado oriental da relação.

Os estereótipos contra Nikkeis gays têm um agravante: produz-se uma imagem de um homem de traços delicados, afeminado, pele macia, sem pelos e necessariamente passivos sexualmente, o que nem sempre corresponde à realidade.

“Questões étnicas causam um frisson. Sempre permeado por clichês e rótulos. Eu me sinto extremamente objetificado. [Homossexuais não orientais] nos julgam os power bottoms e pouco dotados. Brincadeirinhas são sempre um motivo recorrente desses estereótipos”, afirma Jan Kumagai, 23, estudante, sansei.

O psicólogo Flavio Murahara, 34, sansei, compara o preconceito entre os homossexuais ao racismo contra orientais em geral. “Ele segue a mesma lógica normativa da sociedade, do ideal de beleza do homem ser de cor branca, estatura alta etc. O oriental entra como uma subclasse nessa ordem classificativa. Apesar de ter vivido inúmeras situações de diferentes gravidades, vou citar duas que considero bem caricatas e bizarras. Lembro de um ‘ex-ficante’ comentar com um amigo em comum que não se conformava com o fato de que eu, o oriental, ter terminado a relação, pois ele, a pessoa branca, que deveria decidir o futuro da relação. Em outra ocasião, a pessoa disse para o meu companheiro, comigo presente, que ele não precisava sentir ciúmes porque ela não se sentia atraída por orientais. A estranheza se dá no sentido de que não são frases escutadas normalmente por pessoas brancas ou mesmo negras na mesma situação, pois soaria extremamente racista. Portanto, penso que existe um racismo contra pessoas orientais que é totalmente naturalizado na cultura brasileira, ou seja, é uma questão que extrapola o preconceito vivido do universo homossexual e que precisa ser discutido amplamente”, avalia.


Aquela pergunta

Como você descobriu que é homossexual? – é uma pergunta que frequentemente aparece em listas daquelas que “homossexuais estão cansados de ouvir”. Com um pouco de esclarecimento, é fácil perceber por que ela é equivocada.

“Se me perguntarem, eu não conseguiria definir uma resposta de imediato. Sempre fui”, afirma Ricardo. “Agora, se perguntarem como eu me assumi como gay para a sociedade, a resposta será diferente e terá uma história sobre aceitação, conflito familiar e preconceito”, completa.

“Acho que o ‘cansado de ouvir’ está relacionado à frequência com que nós ouvimos. Não considero essa uma pergunta irritante, mas conheço muitas pessoas que sim. Por isso, nós repetimos isso várias vezes ao longo da nossa vida e as pessoas não fazem a pergunta ‘como você descobriu que era hétero?’”, pontua Aryel.

“No caso dos LGBT, essa pergunta muitas vezes remete ao sofrimento da ‘descoberta’ da orientação, como as dúvidas, os medos e as angústias. É algo muito íntimo. Se analisarmos essas “listas de perguntas”, geralmente a maioria tem cunho preconceituoso ou ofensivo. Mas são perguntas que também existem em outras comunidades minoritárias, por exemplo, com os deficientes físicos, quando alguém os trata como crianças”, acrescenta Ricardo.

Família

A relação familiar ainda é um ponto delicado, de foro muito pessoal. A decisão de contar aos familiares costuma ser o início de um processo de transformação.

“Decidi contar para a minha família que era homossexual porque aquilo estava gerando muito sofrimento para mim. Sentia que eu não podia ser quem eu realmente era, fazia esforço para disfarçar todas as pequenas coisas, não só esconder o que eu fazia fora de casa, até tentava controlar os meus gestos para não parecer feminino, inventava histórias, mentia. Aquilo exigia muito esforço e ficava com uma sensação de que estava preso, encurralado, e a qualquer momento alguém poderia descobrir a verdade e me expor. Eu tinha muito medo. Estar no armário é uma sensação muito ruim”, conta Aryel.

“No início, eu não entendia o que estava acontecendo. Primeiro veio a fase da autoculpa: ‘por que sou diferente?’, ‘o que as pessoas vão pensar?’, entre muitas outras dúvidas e tormentas. Aos 18 anos, tive meu primeiro envolvimento, e foi nessa ocasião em que contei para a minha família. Foi um caos”, recorda Ricardo. “Hoje eu entendo o lado de todos, principalmente da minha mãe, a quem sou muito apegado. Depois desse primeiro episódio, aconteceram alguns problemas familiares, sem relação à minha situação, que me fez abdicar da minha vida durante alguns anos. Quando retomei a minha vida, me envolvi com uma outra pessoa. Eu já estava muito mais seguro e já havia superado a fase de aceitação. Assumi o namoro e, diferente da primeira vez, fui muito bem aceito pela minha família. Não nego que houve novos dramas, dúvidas e situações constrangedoras, mas tudo isso faz parte do processo de evolução do ser.”

“O medo de me assumir para a família vinha acompanhado de muitas inseguranças, principalmente pelo fato de ser economicamente dependente do meu pai. Tinha medo de ser expulso de casa ou de viver uma situação tão desagradável que a convivência não seria mais possível. Foi nesse momento da minha vida que compreendi a importância de assumir a minha orientação sexual para minha família, que era a necessidade de ser verdadeiro, de ser íntegro. Ter que omitir parte da minha vida era algo que me incomodava demais”, conta Flavio. “O que me permitiu fazer essa revelação foi descobrir essa certeza interna que, independentemente da reação do meu pai [a mãe faleceu quando Flavio era criança], eu teria coragem para encarar quaisquer que fossem as consequências. Depois de contar que era gay, percebi que esta não deve ser uma questão vivenciada apenas pelo jovem que vive todos esses preconceitos, mas a família também tem que assumi-la. Os meus irmãos tiveram também que lidar com o preconceito das outras pessoas. Dois dos meus irmãos mais próximos contam sobre o dia a dia que é falar para os outros que têm um irmão gay. Como se a homossexualidade fosse um ‘problema’ apenas do jovem e não uma responsabilidade social da família que também pode assumir a tarefa de desconstruir preconceitos.”

“O outing [sair do armário] me levou a aprender muito com grupos de Facebook, textos acadêmicos, relatos de outras pessoas e outras informações sobre várias questões do mundo LGBTQ+ que me deram conhecimento suficiente para me encontrar”, afirma Jan.

“Dentro da comunidade Nikkei, existe uma certa ‘aceitação velada’. Por se tratar de uma cultura muito discreta quando se trata da vida particular, não sofri nenhum tipo de preconceito pelos meus familiares. É aquela história de que ‘todo mundo sabe, mas ninguém comenta’. Eu sei que, em parte, isso se deve pelo meu empenho pessoal. Quando você se respeita e respeita as pessoas, não tem como não o aceitarem como você é. Dentro da minha família, tanto do lado paterno como materno, eu fui o primeiro neto a se formar em uma faculdade e o único a se envolver nas atividades dentro da comunidade Nikkei”, continua Ricardo.

“Não moro com eles [familiares] há uns sete anos. Eu ainda não contei que sou bissexual; sinto que é uma questão que está no ar, mas todo mundo ignora. Entendo que é confortável para eles dessa forma, portanto, deixo assim. A homossexualidade é como um ‘tapa’, e não falar sobre isso explicitamente seria um ‘tapa’ menos forte”, diz Kiyomi. Entre os familiares mais próximos, está seu avô. “Nunca falei explicitamente para ele, pois ele deseja do fundo do coração que eu seja feliz, e a bissexualidade não é um caminho fácil. Em toda história, existe o momento em que o protagonista precisa escolher o caminho certo, e esse caminho nunca é fácil.”

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© 2017 Henrique Minatogawa

Brazil LGBT sexuality