Escolha o seu idioma de preferência para tirar o máximo proveito das páginas do nosso Jornal:
English 日本語 Español Português

Fizemos muitas melhoras nas seções do nosso Jornal. Por favor, envie-nos a sua opinião ao escrever para editor@DiscoverNikkei.org!

Nikkeis gays falam sobre preconceito e aceitação - Parte 2

Evento organizado pelo grupo Asiáticos pela Diversidade (Foto por Henrique Minatogawa)

Ler Parte 1 >>

Referências

As etnias orientais têm pouca visibilidade em meios de comunicação no Brasil. Ainda que a proporção quantitativa seja pequena, em termos culturais e econômicos, a participação dos grupos orientais é expressiva. Mesmo assim, a visibilidade enquanto parte da sociedade brasileira é ínfima. Em relação aos homossexuais, há a busca por essa referência relacionada ao gênero, além da étnica.

“Lembro que em uma novela tinha um casal gay e que era tudo muito velado. Acho que era Sandrinho, mas não lembro muito como ele era [Nota: trata-se do personagem interpretado pelo ator André Gonçalves em A Próxima Vítima, exibida em 1995]. Sempre que via alguma menção em programas ou alguma discussão na mídia sobre homossexualidade, eu parava para ouvir”, lembra Aryel.

Os animes também são citados como fontes de referências; estas, mais sutis. “Tinha vários personagens com sexualidade muitas vezes não heterossexual ou com comportamentos bem fora do padrão. Lembro de Cavaleiros do Zodíaco, em que todo mundo achava que o Shun era gay; muitos davam uma conotação ruim a isso. Em Sailor Moon, havia as Sailors que eram homens e, quando se transformavam, viraram mulheres. Em Card Captor Sakura, tinha o casal Toya e Yukito, que eram muito queridos pelo público. Nos desenhos, tudo era tratado com muita naturalidade, sem grandes questionamentos. Acho que isso me ajudou a olhar essas questões com menos peso. Além disso, eu fui descobrindo que havia um estilo de mangá com histórias gays, que são os yaois”, continua Aryel.

“Fui uma criança ingênua por muito tempo. Sexualidade não era uma coisa que passava na minha cabeça. Tanto que assisti a Card Captor Sakura e nunca percebi várias coisas, vários momentos ‘homoafetivos’ que só fui tomar consciência há alguns anos. Saint Seiya e Yu Yu Hakusho, entre outros animes, são minhas referências, acredito que não de maneira sexual, mas mais ligada a questões de gênero”, recorda Jan.

Na TV brasileira, nos anos 80 e 90, o homossexual homem era geralmente representado em programas humorísticos, com gestos e fala exagerados, roupas extravagantes e comportamento espalhafatoso.

“Não me recordo de nenhuma referência positiva na infância. Lembro de personalidades como Clodovil, Vera Verão e outros, que eram personagens totalmente caricatos que definitivamente não me representavam. Isso até a adolescência, quando comecei a assistir a seriados americanos como Dawson’s Creek e Will & Grace, nos quais havia personagens mais próximos de minha realidade”, afirma Flavio.

A experiência de Kiyomi foi semelhante. “As referências que eu tinha eram ruins, bem ruins. Até que uma professora de inglês, quando eu estava na quinta série, leu um texto sobre a parada LGBT dos EUA. Essa professora era incrível, inteligente, negra. Ela disse que lá a Parada Gay era uma marcha de pessoas, executivos, artistas, trabalhadores que lutavam contra a injustiça e andavam juntos por uma causa em comum. Ela explicou que ‘gay’ significa ‘feliz’ e que ser gay não significa tentar ser do outro sexo. Nessa época eu era criança, não tinha sexualidade ainda. Aquilo realmente abalou meu mundo e me fez ver que não havia nada errado em ser gay, que eram pessoas que queriam ser tratadas iguais”, recorda.

Atualmente, a situação começa a mostrar sinais de mudança. “[Hoje] Sinto-me mais representado com certeza. Hoje, o gay não é apenas o gay afeminado ou o travesti. Há maior representação da diversidade não heterossexual. Entretanto, ainda existe a necessidade de haver mais discussão e maior presença de figuras mais diversas, especialmente nos programas mais voltados para a grande população”, defende Flavio.

“Eu acho que muita coisa mudou, mas os estereótipos continuam”, pondera Kiyomi. “O homem gay, segundo o estereótipo, entende de moda e sai para fazer compras com as amigas; e a mulher gay é uma figura máscula de cabelo curto e que fala de mulher com os amigos homens héteros, ou que abomina homens ou a lésbica fetiche igual de filmes adultos. E não é bem assim que são as coisas”, avalia.

Redes sociais

Os grupos existentes em redes sociais contribuem para busca de informações e esclarecimento dos homossexuais Nikkeis e orientais em geral. Essa aproximação é fundamental para contribuir com a questão da identificação.

A página Asiáticos pela Diversidade, por exemplo, tem atualmente mais de 6.000 seguidores no Facebook, e um grupo de estudos fechado com cerca de 450 membros. A página foi criada em 2015 e aborda de forma ampla o conceito de “asiático”, incluindo nacionais e descendentes desde o Oriente Médio até o Sudeste Asiático. “O principal objetivo é oferecer visibilidade à comunidade LGBT+ asiática residente no Brasil e ao redor do mundo através do compartilhamento de notícias, conteúdos humorísticos e depoimentos compartilháveis; promover um espaço seguro para que vivências possam ser compartilhadas, dúvidas possam ser discutidas e possivelmente esclarecidas, temores possam ser manifestados, e finalmente problemáticas possam ser desenvolvidas de maneira pedagógica e sensível”, afirma Rodrygo Tanaka, um dos administradores da página. O grupo também organiza eventos como debates, workshops e passeios.

Aryel comenta sobre a importância dos grupos em redes sociais. “Fazer parte do grupo do Facebook e depois conhecer as pessoas pessoalmente foi uma sensação ótima. Foi muito importante quando eu pude conhecer outras pessoas, principalmente os descendentes de japoneses. Eles pareciam entender melhor certas situações que eu vivia. Foi muito importante para a construção da minha identidade enquanto gay e enquanto asiático.”

A opinião de Aryel expressa alguns dos conflitos pelos quais um jovem pode passar. “Eu me sentia muito só, pois não conhecia pessoas como eu. Já era difícil achar gays assumidos, achar um gay descendente parecia mais raro ainda. Sentia como se eu fosse o único descendente gay que existia. Quando não há referências externas, a pessoa acaba por se isolar e se sentir muito sozinha. Eu lembro de ficar pensando sobre muitas coisas e sofrer muito calado, pois não tinha ninguém para compartilhar e não tinha ninguém que me entendesse.”

“Graças ao Facebook, eu conheci pessoas que em outras circunstâncias jamais conheceria. Acho importante existirem [os grupos] porque lá nós compartilhamos os mesmos problemas, passamos pelos mesmos comentários e pelas mesmas dúvidas. A individualidade é importante, mas o coletivo tem força. Em tempos assim, é bom se sentir compreendida”, conta Kiyomi.

Conforme supracitado, mesmo entre os homossexuais, há algum estigma em relação aos orientais. “Falta interseccionalidade e empatia para diversas vivências dentro da comunidade LGBT+. A militância LGBT+ ainda é muito branca, por isso, apesar de serem minorias, não estão livres da reprodução de racismo e xenofobia existente na sociedade”, destaca Rodrygo.

“Uma das coisas que aprendi durante a minha trajetória é que a melhor forma de se entender uma situação é aprender sobre ela. Geralmente, no caso dos homossexuais, vemos muitos casos tristes e até mesmo de superação. Eu posso afirmar que sou uma pessoa de muita sorte. Até hoje foram poucas as vezes em que sofri preconceito por conta da minha orientação sexual. Mesmo dentro da colônia japonesa, que costuma ser mais rígida, nunca sofri nenhuma agressão diretamente. Procurar informações sobre o assunto me ajudou muito durante o meu processo de autoaceitação. Creio que, de um modo geral, a autoaceitação é a fase mais difícil para quem se assume homossexual. Atualmente é bem mais fácil ‘sair do armário’ do que há cinco anos. A informação, principalmente através das redes sociais, ajudou muito os LGBTs a ganhar visibilidade”, afirma Ricardo.

 

© 2017 Henrique Minatogawa

Brazil LGBT sexuality