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Doce hobby: do sonho para a realidade

Idealizadora da Moti Confeitaria, Melissa Takami passou a gostar mais de doces depois de conhecer as sobremesas japonesas (foto: Moti Confeitaria/Instagram)

Fachada meiga, decoração geek. Pela porta, passa a pessoa que estava sendo aguardada. Num primeiro olhar, a expressão séria faz jus às responsabilidades de microempresária. Porém, em uma conversa mais informal, descobre-se outro lado: uma alegria de menina que ama o que faz. Caçula de três irmãos, Melissa Takami, de 34 anos, é fundadora e administradora da Moti Confeitaria.

A camiseta temática de anime indica o interesse pela cultura japonesa – que vem, principalmente, de suas amizades. “Sempre andei mais com orientais, não só com japonês, mas com chinês e coreano também. Então eu sempre gostei da cultura”. Fez o colegial em escola técnica, no bairro do Ipiranga, onde se vê uma concentração de asiáticos. Lá, Melissa era da “panelinha” que dançava street dance (dança de rua), conjunto de estilos hoje rebatizado como K-pop. Fora do colégio, conhecia gente na balada e se tornava amiga de amigos quando se encontravam em shoppings. “Até hoje tenho muito amigo dessa época”, diz.


Novos ares e sabores no Japão

A ideia de ir ao Japão se tornou realidade em 2006, depois de prestar vestibular e não ter tido aprovação em alguma faculdade pública. No país de origem de sua família, trabalhou em fábricas, entre as quais de produção de obentô e de doces (na seção de embalagem).

Morou em diversas províncias – como Aichi, Mie e Nagano – mais na região do interior, onde teve a experiência de viver numa casa cercada por arrozais. No início, Melissa conta que ficou mais ou menos seis meses no mesmo trabalho até terminar de pagar a passagem de avião.

Depois, porém, já não compensava financeiramente, porque não tinha tanta hora extra, e decidiu buscar opções em uma daquelas revistas de anúncios de emprego. “Como lá tem muita demanda em fábrica, era mais tranquilo de ficar me mudando.” Desta forma, teve a chance de conhecer diferentes partes do país. O que ajudava era o fato de não ter muitas roupas nem coisas para carregar: “vivia só com o básico, né?”

No entanto, precisava resistir à tentação de gastar com compras. “Eu passeava direto em Tóquio, Nagoia. Era muito novinha, então juntar dinheiro que era bom, nada! [risos] Você vê um monte de coisa bonitinha, dá vontade de comprar tudo”, confessa.

“Uma das coisas que eu não regulava era comida, queria conhecer muitos restaurantes. E quanto mais eu conhecia, mais queria experimentar.” Mesmo pratos exóticos, para aproveitar a viagem ao máximo. Já as sobremesas do Japão são o “ideal” para o seu paladar. “Comecei a gostar dos doces de lá, porque não gosto de nada muito doce nem muito salgado”, explica a jovem curiosa pelas combinações da confeitaria japonesa. O tradicional choux cream Melissa revela que comia quase todos os dias. Outro ponto a favor é que em relação aos doces mais comuns “não tem nem comparação”, são “bem mais levinhos”. “Tanto que voltei uns 10 kg mais gordinha. Os ingredientes de lá são melhores, tipo a farinha: é bem mais fininha e o bolo fica mais fofinho”.

Quando morou no Japão, Melissa costumava comer choux cream; hoje tem sua própria receita (foto: Moti Confeitaria/Instagram)


Doce destino

Após três anos no Japão, Mel – assim chamada pelas pessoas mais próximas – voltou ao Brasil e começou a faculdade de Administração. Fez estágio em algumas empresas e, em 2010, entrou no Banco de Tokyo, onde foi efetivada ao concluir os estudos. Chegou a fazer pós-graduação em Mercado Financeiro por três meses. “Não era isso que queria fazer para o resto da vida.Só que eu não tinha coragem de sair, com medo de não dar certo”.

Decidiu, então, investir naquilo que sempre gostou de fazer: cozinhar. Inscreveu-se em cursosde confeitaria de bolo e iniciou a venda de doces em 2015. “Comecei fazendo pão de mel, brigadeiro, coisa bem básica.” Participava de eventos aos finais de semana e recebia encomendas de colegas de trabalho da mesma área, além de outras pessoas do escritório que provavam e terminavam por fazer pedidos também. Seus doces agradaram tanta gente que passou a oferecê-los mais vezes aos próprios amigos.

Até que, certa vez, uma encomenda pode ter sido o indício de um novo ciclo para Melissa, mesmo sem que ela se desse conta. A sobremesa típica em questão é o ichigo daifuku, mochi recheado com anko e morango. Os primeiros exemplares não saíram tão uniformes quanto o desejado, mas – em compensação – a harmonia de sabores conquistou a clientela.

Parece obra do destino. O banco onde trabalhava a mandou embora junto com outros funcionários em fevereiro de 2017. Sua mãe ficou “desesperada”, pois ficou preocupada com o que a filha iria fazer da vida.

- Vou abrir uma loja de doce!

- (cara de decepção) Meu Deus, você vai gastar todo o seu dinheiro?

- Vou. [risadas]

“Peguei tudo o que recebi [da rescisão do contrato de trabalho] e investi na loja. Já tinha um cardápio em mente, era tudo o que eu gostava e fazia mais ou menos”, conta. A esta altura, as habilidades relacionadas ao preparo do ichigo daifuku estavam aprimoradas, resultado da prática constante. E relembra que a ideia era encontrar um local pequeno, “para começar mesmo”. Foram quatro meses de pesquisa por imóveis até a inauguração da Moti Confeitaria na Vila Clementino, região sul de São Paulo.

O ichigo daifuku tem um espaço especial não só na história como também no cardápio da confeitaria: está disponível em mais de cinco sabores, entre os quais matchá e chocolate belga ao leite (foto: Moti Confeitaria/Instagram)

A loja de doces deu tão certo que no final de 2019 se mudou para o bairro Cursino. A área total do cantinho anterior era equivalente à do atual salão. Na cozinha, “era uma esbarrando na outra, bem apertadinho”, enfatiza Mel.

Embora tivesse conhecimentos em administração e determinação em transformar o que era somente hobby em profissão, o estabelecimento físico era uma incerteza. “Se for perder, dos prejuízos, o menor. ” Outra dúvida tratava-se do tipo de comida que seria oferecido. “Antes eu pensava em fazer prato salgado, tipo shogayaki, karê”, relata. Porém, logo percebeu quesó de imaginar ter de cozinhar em grande quantidade “desanima”. Por esse motivo, prepara apenas para comer em casa. Além disso, o desafio era descobrir algo que não fosse tão comum. “Agora tem bastante opção de doce japonês, mas na época era um pouco mais difícil”, compara.

Dedicação no dia a dia

Como proprietária de um pequeno negócio, sua rotina exige mais que fazer parte da produção e supervisionar a equipe. Melissa fica encarregada ainda da parte administrativa, entre compras (algumas inclusive em dias de folga), contas e papeladas. Assim, chega cedo – em geral por volta das 6h – e cumpre jornadas diárias de 12 horas. “Por isso, quando surge uma oportunidade, prefiro fechar. É um dia ou alguns dias em que a gente consegue descansar, né?”, justifica. No tempo livre, aproveita para ficar em casa e, claro, para dormir e repor as energias.

Não só entre momentos de descanso como no trânsito também, a atribulada microempresária lê livros de teoria de culinária e vê vídeos no YouTube em busca de dicas. “Pego uma coisa de um livro, misturo com outra e aí faço uma coisa minha. Gosto muito de inventar, quebrar a cabeça”, afirma. Para isso, testa alterações a partir da receita original com o objetivo de aprimorar o resultado. “Cozinhar é você saber para que serve cada coisa, se vai ficar bom ou não. Muita coisa dá errado, ou a gente come ou joga fora, porque não dá para vender. É experimento mesmo”.

Conquistar, melhorar e ir além

Sem dúvida, um novo e importante passo foi dado com a inauguração da nova casa em novembro de 2019. Agora, passada a fase de adaptação ao espaço mais amplo, o momento é de pensar no que pode ser melhorado. Atualmente, os doces predominam o cardápio, enquanto o pão de batata é a única opção salgada. Mel destaca, dentre as variações de recheio, o de karê (kare raisu ou curry rice) – uma versão abrasileirada do karepan. “Tudo o que a gente faz, sai, porque o pessoal gosta bastante”, diz. E adianta que um dos planos é incluir outros salgados inspirados na culinária japonesa.

Um dos sacrifícios, por outro lado, é quase não ter vida social. Entretanto, não é isso que preocupa os amigos, e sim o fato de trabalhar tanto. “É uma fase”, diz Melissa ao explicar que deve se esforçar para quitar o pagamento da reforma. O sonho pode parecer não tão bonito na dura realidade. Porém, mantê-lo vivo é o que nos motiva a concretizá-lo.

Talvez por essa razão continuar funcionando em meio à pandemia provocada pelo coronavírus e de sua rápida propagação na cidade tenha sido um desafio razoavelmente fácil de ser encarado. A maior dificuldade encontrada foi pensar em como oferecer o serviço de entregadepois da decisão de fechar o salão ao público – tomada antes do decreto oficial de quarentena. “Como medida de prevenção da COVID-19, interditamos a área onde os clientes consomem os doces para evitar aglomeração e disseminação do vírus”, informa um dos comunicados publicados no perfil da confeitaria no Instagram. “O delivery é uma experiência nova para nós”, acrescenta outro.

O que se notou foi uma série de semanas de sucesso, ao contrário de muitos negócios locais que ainda não conseguiram se adaptar tão bem à situação. Na primeira, o sistema de entregas estava em operação com a distância e taxas ajustadas. Na semana seguinte, foram incluídos mais cinco itens no cardápio de delivery. Já para a Páscoa, a equipe reduzida trabalhou até o limite de produção. Mas não se esperava tamanha demanda. “Por isso, cada encomenda recheava nosso coração de esperança”, revela o post de agradecimento.

 

© 2020 Tatiana Maebuchi

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