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Raízes e lembranças no Vale do Ribeira

Meus bisavós por parte de pai e os filhos deles (foto: Jornal Paulista/Centro de Estudos Nipo-Brasileiros)

Foi na cidade de Registro, na região do Vale do Ribeira, em São Paulo, onde minha família por parte de pai se estabeleceu. Assim como muitos imigrantes japoneses. 

Natural de lá e fã de arroz com feijão, meu tio-avô, Issuo Maebuti, de 94 anos, narra a história da família com seu jeito alegre e bem-humorado.

Trajetória de Katsuji e Toki, precursores no Brasil 

Meu bisavô, Katsuji, veio do Japão com minha bisavó, Toki. Desembarcaram em Santos e foram para Jaboticabal, perto de Ribeirão Preto, São Paulo. Tio João, como sempre foi chamado pela família, conta que ficaram lá por mais ou menos seis anos trabalhando em uma fazenda de café, cujo dono era espanhol.

“Não dava para fugir. Na época do meu pai ninguém fugiu. Tava bom, porque ganhava porco. Não sei se por dia ou por mês”, revela.

Pelas regras da imigração japonesa no Brasil, era necessário vir casado e com filho(s). Trouxeram um rapaz de 17 anos. Quando se mudaram para Registro, o dono da fazenda falou: “‘será que o senhor Maebuti não pode deixar o rapaz mais um mês só? Eu tô precisando’”. O garoto ficou, mas acabou como vítima da febre amarela.

Mais tarde, surgiu uma colônia japonesa em Registro. “Negócio de cem anos atrás com hoje é diferente. Quando meu pai entrou lá no litoral, em Registro, no sítio, sofreu pra burro. Já imaginou? Tudo mato, não tem nada, tem que derrubar. Pra derrubar uma tora dessa não é fácil, não. Precisa fazer andaime de cinco metros, cortar e derrubar. E tinha uns 40 metros”, conta sobre as dificuldades. “Minha mãe falava o quanto aparecia lagarto, parecia jacaré. E paca, capivara, lontra, jacu...”

Culturas plantadas 

A família Maebuchi plantava de tudo. “Banana, abacate, abacaxi, arroz, feijão, verduras, raízes, melancia, café, gobo [bardana], daikon [nabo]. Nas horas vagas, a gente plantava. Lá não tinha domingo, não tinha feriado…” O tio conta que depois de voltar da escola ajudava os pais a carpir.

Sobre o café, meu bisavô Katsuji levou a semente de Jaboticabal para plantar em Registro. Deu certo e até a companhia Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha – KKKK concluiu, depois de uma visita ao sítio, que a região era boa para café. Tanto que o vizinho deles passou a se dedicar à cultura do café também.

“Vendia, bebia, torrava café, quando tinha máquina para torrar. Vendia tudo, feijão, arroz, coco (colhe, seca e descasca). Arroz vendia já beneficiado. Depois comprava açúcar, sal, roupa”, explica.

Além disso, cultivavam amora e chegaram a criar bicho da seda. “Era geladinho, a gente colocava no nariz”. (risos)

Família 

Meus bisavós tiveram dez filhos: Nobuko, Kasutomo, Wataru, Takeyoshi (meu avô, mais conhecido como Gaspar), Michino, Issuo (o único vivo dos irmãos, “último dos moicanos”), Yoshihaku, Setsuharu, tia Maria e tia Kazumi.

Tudo indica que o relacionamento entre eles era bom, porque não tinha briga. “Meu irmão mais velho trabalhava no sítio. O segundo mais velho trabalhava na cidade, no beneficiamento de arroz. Era chefe, porque ele que mexia na máquina. E o Gaspar trabalhava na alfaiataria. Cada um tinha seu serviço”, justifica.

Vieram apenas os dois da família. Se viesse algum primo ou outro parente, meu bisavô seria avisado. “Mas não veio ninguém”.

“Quando ele ficou velho, não queria saber do Japão. Não falava nada, porque estava mais preocupado em trabalhar. Porque naquele tempo não era fácil sobreviver. Plantava arroz, não dava; plantava feijão, não dava. Não dava, porque derrubava e queimava mata virgem”. Talvez por isso meu bisavô Katsuji nunca tenha demonstrado saudade da terra natal.

Ofício de irmão para irmão

Quando meu avô, aos 20 anos, abriu uma alfaiataria, o tio foi ajudar. “Trabalhei dez anos de sócio [de 1939 a 1949]. Aprendi com ele”. Tinha 14 anos na época. “Até lembro o primeiro freguês que entrou lá, amigo dele, um caboclo do mato. ‘Ôôô, Takeyoshi! Você tá com alfaiataria, vai fazer uma calça pra mim’”, relembra.
 

Mudança de cidade e de vida 

Tio João morou em Registro até os 20 anos, por volta de 1949. Depois, meu avô se casou e o tio veio junto com os pais para São Paulo para cuidar deles.

“Aqui trabalhei como alfaiate até os 65 anos. Trabalhei seis anos como empregado na Alfaiataria Moreira para conhecer bem como é ser alfaiate na capital”.

Issuo não conhecia São Paulo. Mas seu irmão, Yoshihaku, sim. Compraram um jornal popular que publicava anúncios de emprego, entre os quais encontraram o de colarinheiro, que faz colarinho. “Vai lá ver e pergunta como que é o negócio”, pediu para o irmão.

“Quando ele foi, era cedo ainda. Ficou lá no corredor, vai e vem, alfaiataria tá aberta. O homem ficou olhando, aí falou:

‘Tá precisando de alguma coisa?’.

‘Não, eu tô esperando a fábrica abrir’.

‘Fazer o que?’

‘Meu irmão é alfaiate, ele não quer mais trabalhar de alfaiate, ele diz que tem gente que faz colarinho, né? Então eu tô esperando’.

‘Ah, é bobagem, fala pro teu irmão trabalhar aqui’”.

Na produção de 300 camisas por mês, 300 colarinhos somariam 300 cruzeiros. “Com 300 cruzeiros não dá pra fazer nada. Não dá pra viver”, explica.

À noite, chegou o momento decisivo na vida do tio ao saber da proposta de trabalho. “Minha mãe falou: ‘Ah, até acostumar em São Paulo, vê se fica lá mesmo na alfaiataria’. Também pensei: é bom, né? Dá pra ir procurar outro serviço”. E decidiu ficar. “Depois, abri alfaiataria. Que foi duro, foi duro”, confessa.

Lembranças de outros tempos

A única memória de infância que o tio lembra é de quando tinha uns 3, 4 anos. “Pegava aquele negócio vermelho da banana. Debaixo do cacho tem o coração, cortava. Fazia roda para empurrar carrinho”.

Já na época dos estudos, frequentou por quatro anos a escola da comunidade, que não achou difícil. “Só falava japonês, não podia falar português. Falava português com o colega e os irmãos”. Uma peculiaridade é que o professor era imigrante ou descendente que se oferecia para esse papel. “Como faltava professor na escola, colocaram minha irmã. Mi-chan e uma amiga dela. Nem sabia dar aula, mas estava lá”, conta.

Apesar das dificuldades, o caminho para a escola era uma diversão. “Descalço, tinha dia que fazia frio, mas casaco não tinha, só camisa de manga curta. Pra atravessar a ponte, tinha geada. Na terra, não tem, mas na tábua tem. [risadas] E, pra pisar na geada, era frio, gelado. Tinha uns 4 km [até a escola]. Mas a gente não achava nada.”

Hoje, é um dos fundadores (com diploma) do clube da cidade, RBBC [Registro Base Ball Club], onde treinava beisebol aos 17, 18 anos. “Eu tava no beisebol. Uniforme não tinha, porque eu era do [time] C. A, B tinham uniforme, C não. C se formou por conta própria. Quem fazia [os uniformes] era meu irmão. Um monte. Não tinha outro alfaiate que fazia, não”.

Português ou japonês 

Pelo que tio João conta, meus bisavós paternos não sabiam falar português e nem entendiam nada no idioma. Por isso, quando faziam compras na loja dentro da fazenda, precisavam fazer mímica. “Para comprar ovos, tinha que bater asa”, conta e ri.

Além disso, falava só em japonês com seus pais. “Quando falava português, minha mãe achava ruim. ‘Tá falando português outra vez!’” E continua: “Meu pai só sabia aquilo que tava escrito no caminhão ou na casa: ‘vende-se’. Falava errado: ‘tá escrito vendensse’. ‘Vendensse não, é ‘vende-se’. Minha mãe não sabia falar nada. Ela só falava a cor vermelha. [risadas] ‘Vermeio’, ‘bermeio’”.

Até hoje ele diz que ainda lembra bem o idioma japonês. Mas comenta que não tem com quem conversar – sua esposa, tia Adi, fala apenas português. Na televisão, assiste a canais do Japão.

Apenas uma saudade

“Saudade de passear em Registro. Terra natal da gente, né? A gente nasceu, foi criado e se formou adulto lá. E ainda tem conhecido”, confessa tio João.

 

© 2019 Tatiana Maebuchi

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