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Um Anjo Chamado Washington

Amigo Carlos Asborno e Washington Hatanaka, no café semanal.

Envelhecer é um processo natural, gradativo e contínuo e, dependendo da cultura, os idosos são vistos por diferentes perspectivas. Em alguns países, principalmente orientais, há um olhar de respeito e consideração pelos mais velhos, conceito que não se repete, via de regra, em outras sociedades, que até como estorvo são considerados.

O que não dá para ocultar é a constatação do aumento considerável de idosos em quase todos os países, particularmente nos mais desenvolvidos, e mesmo no Brasil, é notória a presença cada vez mais intensa dos “velhinhos”, assim considerados aqueles que já ultrapassaram o temido limite dos 60 anos de idade. Definição meramente formal, diante do vigor e disposição que normalmente apresentam, hoje em dia, as pessoas nessa faixa etária. Membros da Terceira Idade, entre 60 e 80 e até 90 anos, estão cada vez mais presentes em espaços públicos, como restaurantes, cinemas, teatros, excursões, shoppings, um indicativo saudável da melhoria de padrão e qualidade de vida que vem ocorrendo nas últimas décadas.

Mesmo em nosso grupo étnico, do qual fazemos parte, onde costumamos reverenciar e respeitar os idosos, tal  postura vem passando por mudança, com  as gerações mais novas não apresentando o mesmo comprometimento com os pais idosos ou, no mínimo, encarando a situação de forma superficial, como se não fosse com eles. Há dificuldade em compartilhar as responsabilidades e obrigações entre os filhos. Dificilmente, há consenso na divisão de tarefas. Tudo acaba recaindo nas costas de alguém, geralmente de uma das filhas.

Diante desse contexto, não deixa de ser surpreendente o que ocorre na família dos Hatanaka-san, onde o jovem Washington Hatanaka Jr., um dos meus melhores amigos, é o caçula entre 4 irmãos. Júnior, como é tratado carinhosamente pelos familiares, é um brilhante executivo da área de comércio exterior, dominando os idiomas inglês e espanhol e com um “background” profissional dos mais ricos, mesmo assim, por uma decisão pessoal bem pensada e repensada, resolveu abdicar momentaneamente de sua carreira, para dedicar-se de corpo e alma à família, ou seja, cuidar da sua mãezinha, D. Ivete e de sua irmã mais velha, Tomie, enfermeira aposentada, ambas necessitando de assistência pessoal direta. 

D. Ivete, viúva há muitos anos, com seus 90 anos bem vividos, simpática, falante, fluente em japonês e português, infelizmente vem apresentando dificuldades nervo-motores que limitam sua capacidade para caminhar e cozinhar, ainda mais agravados por problemas de visão. Sua irmã, Tomie, funcionária pública aposentada, fez toda uma carreira no serviços públicos estadual e municipal, na área da saúde. Vem sofrendo, porém , problemas sérios nos membros inferiores que impedem a sua locomoção . Um cenário complicado e preocupante que exigiu uma decisão prioritária da família e, contrariando o senso comum, resolveu ele, Washington, espontaneamente, mesmo sendo o caçula, assumir a responsabilidade de cuidar “full-time” das “meninas”, como costuma referir-se carinhosamente às mulheres da casa, talvez confiando em suas qualidades de “administrador doméstico“. E, não é que ele se saiu melhor que a encomenda! 

A amizade entre nós, sólida e até extemporânea, surgiu quando trabalhamos juntos na última empresa, Avance do Brasil, uma multinacional japonesa que nos permitiu essa aproximação que, além da afinidade de temperamento e cultura, foi facilitada pela proximidade de nossas residências. Moramos praticamente no mesmo bairro, permitindo um contato amiúde para um cafezinho, onde aproveitamos a oportunidade para “jogar conversa fora” e descontrair um pouco de nossos afazeres diários. “Esse cafezinho com os amigos”, confessa Washington, “serve para relaxar um pouco do trabalho pesado que tenho na cozinha! Não é fácil, não, cozinhar todos os dias, almoço e janta”, desabafa ele.

E, foram nesses encontros, nos bate-papos informais que acabei conhecendo essa outra faceta do amigo, tão surpreendente quanto brilhante são suas outras qualificações pessoais e profissionais. Revelou-se um grande chef de cuisine! Isso mesmo, chefe de cozinha, não um simples cozinheiro! Como cozinha esse homem! Seu talento vai da cozinha japonesa à francesa, passando pela brasileira e contemporânea, tão eclético o seu conhecimento. Quantas dicas recebi do amigo, com as respectivas receitas sobre como fazer um bom “bacalhau ao forno, filé à Oswaldo Aranha, espaguete à marinara, risoto à Catarina, costela de porco assada com molho agridoce, etc, etc.”, informações valiosas que entraram por um ouvido e saíram pelo outro, como se ventos fossem, tamanho o meu interesse (ou desinteresse , melhor dizendo) pela culinária. Desculpe-me, meu amigo, sou simplesmente um bon gourmet!

Mas, surpreendente é o carinho, capricho e a paciência com que ele se dedica a esse trabalho, tal qual uma missão, não medindo tempo e esforço para bem agradar às suas “meninas“. Cada dia merece um cardápio diferente, uns mais simples, outros mais elaborados, mas todos  feitos com igual capricho. E, ressalte-se que o serviço é completo. Desde a compra dos produtos, feitura dos pratos, preparo da mesa, até a limpeza final da cozinha , sem nada delegar  às “meninas”.

Obviamente, cheguei a perguntar de onde  vinha esse conhecimento, sabendo antecipadamente que os Hatanakas tinham sido uma família conceituada, de destaque na cidade de Bastos, no interior do Estado de São Paulo. Seu avô, Senjiro, tinha sido o fundador da cidade, seu tio Tadao, o primeiro prefeito nikkei da cidade e seu pai, um destacado empresário. Com a sua habitual simplicidade, ele respondeu que, em parte, foi devido à sua curiosidade e interesse pela cozinha, levando-o a pesquisar e ler sobre o assunto. Mas, a escola principal ele atribui ao período que ainda jovem e recém-formado, acompanhou seu pai, que na época havia investido em terras na Região do Cerrado Mineiro, em pleno desenvolvimento mas quase sem estrutura, sem hotel, sem restaurantes.

Morou em cidades pequenas, em sítios e fazendas e lá teve que aprender a cozinhar, preparar coisas básicas como arroz e feijão, utilizando carne seca, toucinho, e onde adquiriu os conceitos básicos de tempero, que lhe têm sido bastante úteis até hoje. Porém, mais do que essas razões, atribuo ao talento inato que o amigo tem para cozinhar. Já falei para ele, provocando-o, que um dia, na surdina, inscreverei o nome dele no MasterChef, famoso concurso de chefes de cozinha na televisão. É uma das raras vezes que ele fica sério, contrariado...

E, não apenas a cozinhar se preocupa o amigo. As “meninas” requerem muitos cuidados, pois precisam ser levadas ao médico, periodicamente, para exames clínicos, laboratoriais, fisioterapia. Necessitam de alguém para fazer as compras da casa e de medicamentos de uso contínuo; de companhia para fazer as caminhadas de vez em quando. As contas que têm que ser pagas. A lista é extensa ...

Tudo isso, porém, é encarado de forma natural e admiravelmente solidária por este ser humano de coração raro, um ombro amigo para todos os momentos, um verdadeiro anjo que atende pelo nome de Washington ou Júnior, como é tratado pelos mais íntimos. Como bem disse meu outro amigo de ouro, Carlos Ianaze, Washington terá um lugar no céu, com certeza!

 

© 2018 Katsuo Higuchi

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