ジャーナルセクションを最大限にご活用いただくため、メインの言語をお選びください:
English 日本語 Español Português

ジャーナルセクションに新しい機能を追加しました。コメントなどeditor@DiscoverNikkei.orgまでお送りください。

media

pt

Reflexões Perante a Ameaça da Morte na Obra em Kinosaki de Naoya Shiga

Em Kinosaki (Kinosaki nite, 1917) é considerada uma das obras-primas de Naoya Shiga (1983-1976) também visto como sumidade entre os escritores japoneses modernos.

Diante da aparente simplicidade de uma obra curtíssima que parte de uma visão extremamente particular, o autor traz à tona um tema universal e eterno que é a morte. Tece considerações sobre ela a partir de exemplos bem próximos da vida cotidiana e que em geral passam desapercebidos ou são negligenciados.

Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa de uma viagem de três semanas às termas de Kinosaki onde o narrador protagonista foi restabelecer-se de um ferimento na coluna causado por um acidente de trem ocorrido três anos antes, período máximo para constatar se sua vida estaria em risco.

Em meio ao clima outonal, ele é tomado por pensamentos solitários e deprimentes, mas ao mesmo tempo serenos e agradáveis. Ao encarar a morte como um fato inevitável e diante da incerteza de quando ela poderá ocorrer, o eu narrativo constata que deveria haver alguma razão para ter sobrevivido ao acidente e estar, naquele momento, aguardando para saber o seu destino. Isso o leva refletir sobre o seu estado a partir da observação de uma abelha já morta, da agonia de um rato diante de uma morte iminente e da morte de um lagarto d’água causada acidentalmente por ele.

No caso da abelha, a morte é vista como quietude e calmaria, como o cessar da atividade de um ser vivo. Essa quietude é comparada à agitação desses insetos que ele observou da sacada de seu quarto na hospedaria em Tajima a voar de um lado para outro indiferentes à companheira que ali jazia inerte.

O rato foi visto tentando sair do rio ao qual fora jogado com um espeto atravessado na garganta. Não continuou com a observação até o final, mas foi o suficiente para sentir o temor de que antes da morte existia uma fase de sofrimento como a presenciada. Pensou qual teria sido sua reação diante de uma declaração que o ferimento era fatal. Se não sobreviveria ao temor da morte ou se faria o possível e o impossível para ser salvo, como no caso do rato. Ao imaginar a possibilidade de enfrentar a morte naquele exato momento, chega à conclusão de que as coisas são como devem ser, são regidas pelo acaso. Mas, a consciência sobre as circunstâncias que envolvem a morte aponta para uma opção que a obra mostra como exclusividade do ser humano: o suicídio. Para o eu narrativo que idealiza a morte como quietude, a opção de aliviar o sofrimento que precede a morte continuou fora de cogitação, pois o resultado final foi positivo, ele salvou-se desse risco, e justamente por isso, a questão não tenha merecido um aprofundamento.

A morte do pequeno lagarto d’água é apresentada como acidental. Observa-se um paralelo com a situação do rato, na medida em que a arma do crime é a mesma, uma pedra, mas o resultado é diferente do esperado. Se as pessoas arremessavam pedras ao rato com a intenção de acertá-lo, a pedra que o narrador protagonista lançou em direção ao pequeno lagarto não o foi, mas acabou por matá-lo. Ele acompanhou a sua reação até a morte com uma descrição minuciosa e conclui que tanto a morte do animal quanto a sua vida foram obras do acaso.

Essa narrativa com um viés intimista e introspectivo tece relações com o mundo extratextual da obra. Os topônimos que constroem o cenário são autênticos, e a descrição da paisagem das termas de Kinosaki em Tajima, Província de Hyogo, Japão, na qual se insere também a descrição da fauna e da flora, faz parte da riqueza dessa obra, fato comum às muitas outras de Shiga. Além de reais, os lugares possuem ligação com a vida do autor. Kinosaki é o local onde Naoyar esteve por três semanas para convalescer de um ferimento na coluna, que poderia levá-lo à morte, causado pelo acidente de trem da linha Yamanote em Tóquio, em agosto de 1913 e que o levou a uma internação de 12 dias. A obra inicia-se com a menção do fato e as razões que levaram o narrador protagonista a procurar o local em outubro de 1913: “Viajei sozinho às termas de Kinosaki em Tajima para recuperar-me de um ferimento que sofri ao ser atropelado por um trem elétrico na linha Yamanote.” Aoyama, por sua vez, é o nome de um cemitério em Tóquio, onde está o jazigo da família Shiga.

A vida real do autor também se faz presente na obra com a menção sobre O Crime de Han, no original, Han no hanzai, publicado pelo autor na revista Shirakaba em outubro de 1913 e sobre a obra longa (chôhen) que Shiga vinha escrevendo há muito tempo e que se pode afirmar sem sombra de dúvidas tratar-se de Trajetória em Noite Escura (An'ya K?r?) , romance que ele iniciou por volta de 1912 e veio à publicação em 1937.

Desse modo, a intertextualidade faz-se presente nessa obra como num anseio por sua ampliação semântica a exemplo dos poemas clássicos japoneses, mas de um modo diferente, é claro, destes últimos que aproveitavam parte de outros poemas, próprios ou alheios, como demonstração de conhecimento sobre os mesmos numa época em que tal ato não era tomado como plágio.

Outra peculiaridade dessa obra são as opções lingüísticas do autor no uso do tempo presente para relatar alguns fatos que se referem a Kinosaki. Ele cria um efeito de realidade que transporta o leitor para o momento narrado, como ocorre no segundo parágrafo: “Minha cabeça/mente continua confusa” (Atama wa mada nandaka hakkiri shinai), ou no terceiro parágrafo, linha 6: “Mas nisso tudo, encontro uma sensação serena e agradável” (Shikashi sore niwa shizuka na ii kimochi ga aru). O mesmo acontece com algumas descrições como a do telhado e a da movimentação das abelhas e com os fatos mostrados como se fossem atualizados no momento em que a obra está sendo escrita, ou seja, três anos depois, como mostra o próprio texto no final. O ângulo de visão utiliza recurso semelhante ao mostrar o deslocamento do narrador protagonista às termas, com “vim” (kita) no lugar de fui, no primeiro parágrafo como se o relato estivesse sendo feito no momento em que o narrador protagonista estava no local.

O uso de jibun, forma de tratamento da primeira pessoa mais neutra e versátil que watakushi (eu masculino ou feminino na forma polida de modéstia), watashi (eu masculino ou feminino na forma polida comum) ou boku (eu masculino na forma coloquial), torna evidente a posição do autor centrado em si mesmo sem uma preocupação com as relações sociais que o envolvem enquanto indivíduo dentro dessas reflexões pessoais. Mesmo assim, como já foi dito, ele amplia a discussão de modo tímido para a questão do suicídio. Fato muito presente na vida dos japoneses, esse ato de coragem ou covardia praticado para redimir-se de um erro, para honrar o nome ou para livrar-se do sofrimento e da agonia da vida, não deixa de ser o símbolo de uma problemática social e que nessa obra é abordada como uma opção deixada apenas ao ser humano. Naoya, que tinha a noção do pecado que consistia o suicídio no cristianismo, não a vê como possibilidade para a situação de seu narrador protagonista, e nem aponta para uma esperança fundamentada na crença na vida após a morte conforme a visão budista ou xintoísta. Sua visão é materialista. A vida consiste nessa atividade terrena que é caracterizada pelo movimento, enquanto a morte é o cessar da atividade, a inércia e a quietude, de tal modo que é possível encará-la com uma serenidade suspeita, uma vez que a obra aborda uma questão já resolvida, pois o protagonista salvou-se da ameaça que pairava sobre sua vida.

Em Kinosaki é uma obra curta com características híbridas de literatura intimista, memorialista, de viagem e pode ainda ser vista como ensaio nos moldes da literatura dos retirados que faz reflexões sobre a vida. Na concepção da crítica japonesa, insere-se no gênero conhecido pelo nome de shinky? sh?setsu, “romance introspectivo”, segundo a classificação dos estudiosos Sei Ito e Ken Hirano para esse tipo de obra que narra uma situação crítica após a sua superação com um desfecho satisfatório.

Seja qual for a classificação que se possa dar a ela, pode-se dizer que o elevado conceito que lhe é dado confirma-se pela profundidade de suas reflexões num texto breve de aparente simplicidade. Observa-se nela o reconhecimento da pequenez dos seres vivos diante da questão da vida e da morte e a valorização da vida por meio de uma reflexão com vistas a encontrar uma razão para essa vida que se ganhou ao ultrapassar uma situação de risco. A menção ao Lorde Robert Clive (1725-74), político inglês que criou as bases para a dominação inglesa da Índia, é vista nada mais nada menos do que uma sinalização de que ainda restam uma missão para o “eu” neste mundo. Em suma, o narrador protagonista não foi condenado à situação da abelha e nem da lagartixa, e também foi poupado da agonia do rato. Obteve a chance de continuar vivo a fim de prosseguir com o seu trabalho que deve ter alguma utilidade neste mundo... E qual seria o seu trabalho? Profissionalmente, como escritor, o de continuar com sua contribuição dentro da função que lhe cabe na literatura e na sociedade? Sobre isso, só resta o questionamento, a sugestão. O fato é que Naoya Shiga sobreviveu não apenas a essa crise, mas a muitas outras, pessoais, políticas, sociais, históricas pelas quais o Japão passou.

© 2008 Neide Hissae Nagae