Select a primary language to get the most out of our Journal pages:
English 日本語 Español Português

We have made a lot of improvements to our Journal section pages. Please send your feedback to editor@DiscoverNikkei.org!

Hotaru no Hikari e o despertar da realidade

Sempre que ouço os acordes de Hotaru no Hikari sinto o coração apertado e a sensação de saudosismo que segue faz eclodir lembranças nostálgicas de outros tempos já vividos e ofuscados pelas brumas do tempo. Foi o que aconteceu outro dia, ao receber pelo You Tube, um vídeo sobre a vinda dos primeiros imigrantes japoneses, no Kasato Maru, e a canção ao fundo era Hotaru no Hikari. 

Miniatura do Kasato maru - Museo da Imigração Japonesa

Por que será que sentimos assim quando a ouvimos? Fácil explicação: é uma música de despedida e nessas ocasiões, quais sejam os motivos, há sempre uma separação, um distanciamento, uma mudança de paradigma, uma espécie de “turning point” na vida de uma pessoa.

A propósito, lembro-me ter ouvido de meus pais e avós, por mais de uma vez, naqueles momentos de reminiscências que eles tinham, que quando partiram do Japão há mais de 90 anos em direção ao Brasil, a cena da qual nunca esqueceram, foi do navio deixando lentamente o porto, em meio a choro e gritaria, centenas de mãos acenando o adeus definitivo, ao som de uma melodia que todos entoavam. Era Hotaru no Hikari!

Como uma caixinha mágica que se abre, mais imagens se sucedem. Surgem lembranças de outras canções que embalaram a nossa infância, como Tyurippu-no-hana, Kojo-no-tsuki, Akatombo, Yuyake koyake, misturadas com contos, fábulas e lendas que ouvíamos compenetrados, nas vozes singelas das nossas obaatiam, okaasan e das senseis do nihon gako nitiyo gako (escola dominical), que marcaram de forma indelével essa fase. Lembro-me de Momotaro-san, A Lenda de Urashima Taro, Issun-boshi, Kintaro, A Lenda dos Mil Tsurus, entre outros.

E, aqui, merece um registro importante a fazer: lembro-me que tão somente as mulheres, nossas avós, mães e tias, tinham essa preocupação de cantarolar, de contar histórias, enfim, de transmitir esse legado tão importante da cultura nipônica às crianças. Posso estar enganado, mas os homens daquela época não se prestavam a isso, não tinham esse hábito nem essa incumbência. Era atribuição feminina! Ah! Mulheres, o que seria do mundo sem vocês!

E a viagem no tempo acaba aportando na época atual, em cenário muito diferente, onde predominam os edifícios modernos, trânsito congestionado e pessoas apressadas. Uma outra realidade. Temo que essa rica e significativa cultura, da qual os mais velhos tiveram o privilégio de desfrutar, não esteja sendo transferida para as gerações posteriores. A geração mais nova, de nossos netos e netas, vive um mundo absurdamente diferente, cibernético, bombardeada por apelos consumistas e incentivados pela alta tecnologia. Tudo é plugado na internet, através dos celulares, tabletes, i-pads, notebooks, através dos quais as crianças têm acesso a quase tudo, a ponto de não dispor de tempo para conversar, de interagir com os amiguinhos, para ficarem entretidos com seus celulares. Há necessidade urgente de resgatar esta convivência lúdica entre as crianças.

Outro dia, a netinha de 4 anos, ao perceber que eu iria levá-la para um endereço não habitual, virou-se para mim, e da sua cadeirinha, dentro do carro, dentro de sua “imensa sabedoria”, sapecou: “Vô, você sabe o caminho?” E, diante de minha aparente indecisão, reforçou: “Usa o “waze”, que te facilita”! E, ainda completou: “Só que toma cuidado, Vô, pois o “waze” erra de vez em quando”! É possível, isso?

Gabriela e Carolina, minhas netas, minhas princesas

Acredito que hoje, e tomo como exemplo contundente as minhas próprias netinhas, as lembranças que permanecem da infância, as mais lembradas e as mais queridas, são aquelas que as remetem às datas comemorativas, sempre tão esperadas e festejadas como se fossem a passagem do tempo em suas vidas. Natal, Páscoa, Festas Juninas, Carnaval, Dia das Mães e dos Pais, e agora, até a importada Halloween são ocasiões especiais ansiosamente aguardadas pelas crianças.

Segundo as especialistas em Educação Infantil, essas datas estimulam as fantasias e é salutar para o desenvolvimento das crianças. As crianças buscam nas fantasias explicações para aquilo que ainda não têm maturidade para compreender. “Essa crença na magia e no uso do pensamento mágico pela criança é importante para ajudá-la a dominar a realidade e aprender a enfrentar a realidade do mundo”, diz a Psicóloga Cynthia Wood Passianoto.

A criança amadurece rápido. O início da fase de maturação mental acontece entre 7 e 8 anos, quando ela começa a enfrentar o mundo real. Mas, essa idade não é uma regra. Segundo os especialistas, é preciso deixar a criança iniciar essa processo de descoberta aos poucos, observando as situações em sua volta, dentro do ambiente familiar, da escola e entre os amigos. São evidências que vão surgindo, que ela vai reunindo durante o processo de crescimento e irá tirar alguma conclusão lógica quando tiver maturidade para isso, quando se achar preparada para essa etapa da descoberta.

A sugestão é sempre deixar que a criança apresente a questão. É importante os pais não se preocuparem demasiadamente com a questão. Enquanto o filho não questionar a verdade sobre o “ Papai Noel “, isso significa que a crença ainda é importante para ele, e basta então, esperar, pois as perguntas surgirão inevitavelmente, e mesmo que um pouco mais tarde, a criança irá entender que o “ bom velhinho “ é uma invenção, uma fantasia. Mas enquanto ele acreditou, aquilo foi importante e bom para ele.

Enquanto ela se preocupa com os Papai Noel e Fadas, os pais podem ficar relativamente tranquilos. Ela ainda está na fase da magia e encantamento.

Carolina, com 5 anos

Duro e até impactante é quando os pais recebem uma cartinha como a da Carolina Ayumi, que vem a ser a minha netinha mais velha, com 8 anos, cujo teor reproduzo aqui: 

“Querida mamãe, eu te amo. Descobri que já sou grande e não acredito mais em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e em Fada dos Dentes. Tomara que você não fique brava comigo. Se ficar, tenho um presente para você; é muito difícil falar de rosto para rosto. Então, escrevi uma carta . Com amor, Carol!”

O despertar da realidade

Não é preciso adivinhar que a mãe da Carolina quase teve o coração partido quando recebeu a cartinha à noite. Depois que as crianças dormiram, chorou copiosamente. Carol deixara de ser uma criança!

É a inocência se despedindo e a realidade se despertando. Que pena (será?)! Ao fundo, ouvem-se os acordes de Hotaru no Hikari.

 

© 2018 Katsuo Higuchi

Brazil Hotaru no hikari song