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Yuba, uma escola de vida nikkei

Crianças escutam contos de fadas durante aula de arte na Comunidade Yuba (foto: arquivo pessoal/Silvia Sasaoka)

Peculiar e interessante é a Comunidade Yuba, na cidade de Mirandópolis, em São Paulo. Existem muitas histórias de quem já viveu lá para se contar. Uma delas é de uma família que surgiu na comunidade.

“A melhor escola de minha vida”

Silvia Sasaoka, 57 anos, de São Paulo, conta como descobriu Yuba e os motivos pelos quais decidiu viver lá. “Eu fazia faculdade de Artes Plásticas na FAAP em finais da década de 1970 e início de 1980 quando conheci a Comunidade Yuba. Nessa época, por intermédio de amigos de faculdade e professores, descobri a profundidade e riqueza da filosofia zen e da arte japonesa. E isso fortaleceu a vontade de conhecer mais profundamente a cultura japonesa ‘antes da cultura da imigração’”.

Como sempre esteve distante da cultura japonesa tradicional e estudou em escolas brasileiras, sendo a única nipo-descendente ou uma das poucas nikkeis nas turmas, a artista conta que sentia falta de uma identidade em que pudesse encontrar âncora nos conhecimentos ancestrais e ter referências culturais para compreender quem ela era.

Depois de conhecer a comunidade Yuba, passou a ir sempre lá. “Me encantei, porque via a arte fazendo parte do cotidiano de uma vida na agricultura”, conta. Silvia diz ainda que na casa de seus pais não tinha o hábito de cuidar de afazeres domésticos e, meio que de repente, quando tinha 22 anos, estava acordando às 6h, arando a terra, plantando, lavando roupa, limpando a casa, etc.

E sua rotina passou a dividir-se entre trabalho e cultura. De dia, trabalhava na horta e, à noite, praticava balé e participava do coral. Depois de três anos tentando se adaptar à vida na comunidade e ao trabalho rural, ela conta que sentiu falta de aplicar o que tinha estudado na escola de arte e iniciou uma atividade que era um atelier para crianças de todas as idades.

Segundo Silvia, o tempo livre que tinha – assim como todos que trabalhavam na roça – era aos domingos. A artista plástica gostava de ir à biblioteca e ler como se pudesse entrar em outros universos.

A artista formou sua família dentro da comunidade. Lá, conheceu Paulo Yusaku Yuba, já falecido, que exerceu o cargo de vice-presidente do Conselho Deliberativo do Centro Brasileiro de Língua Japonesa, foi professor de Língua Japonesa na Associação da Província de Tottori e da Escola de Língua Japonesa Seikôkai. Casou-se com ele e tiveram dois filhos, Pablo Kadji Yuba que nasceu em 1982 e Thomas Len Yuba, de 1985. Em 1992, Silvia e seus filhos saíram de Yuba.

A relação familiar era algo que Silvia admirava. “Gostava da relação com as obachans de diferentes famílias, elas foram minhas grandes mestras. Aprendi a trabalhar na roça, a cuidar e educar meus filhos, a compreender as crianças e todas as idiossincrasias que existiam numa vida comunitária de mais de 70 anos.” Outro ponto que achava interessante na comunidade era a obrigação de ser igual a todos.

Além desta valorização do coletivo, a artista define Yuba como uma “comunidade de japoneses que gostavam de arte e cultura antes de qualquer outra atividade com modo de vida simples e rural como um valor”.

Silvia revela ainda que a experiência da vida comunitária foi a melhor escola de sua vida. “Devo ao que sou hoje a tudo que aprendi com a vida comunitária de Yuba”, completa.

Identidade e cultura “nipo-caipira”

Pablo Kadji Yuba, de 34 anos, é o filho mais velho de Silvia. Nascido em Yuba, viveu lá até os 10 anos. Seu dia a dia era feito de estudos, esportes e coisas de criança. “Minha rotina era acordar, tomar café, pegar o ônibus escolar, estudar (escola estadual do bairro Aliança), voltar para a comunidade, brincar até o final da tarde”. Além disso, tinha treino de beisebol e judô uma vez por semana. Kadji revela que às vezes se escondia “até ser arrastado por algum adulto pra aula de balé”.

Entre suas memórias de infância estão as brincadeiras que fazia. “Gostava de jogar beisebol. Subir com os primos na carreta do trator e andar por 2 km até chegar ao campo. Era divertido. No tempo livre, ficava na biblioteca lendo mangá”.

Kadji considera que sua própria identidade é brasileira, apesar de ter convivido intensamente com a cultura japonesa. Bem humorado, diz: “nipo-caipira pra ser mais exato”. Sua identidade tem muito em comum com a cultura da Comunidade Yuba. O yubense justifica: “arroz e feijão no prato, missoshiru de acompanhamento”. É verdade que esta é uma típica refeição de nikkeis, misturando pratos brasileiros e japoneses.

Um grande aprendizado que tirou de Yuba e deve levar para o resto da vida é “ser bom no que gosta abre portas e te leva longe. A comunidade tem amigos e parentes espalhados pelo mundo que mostram isso”.

Graças a isto, teve uma experiência “ótima” no Japão. “Fui contratado por uma editora brasileira para ser redator/tradutor na unidade de Tóquio”, conta. Trabalhou durante dois anos e depois se tornou bolsista e fez Mestrado em Comunicação na Meiji University, porém, sem concluir.

“O grande motivador foi a minha insegurança com a língua japonesa. Concluí que, para elevar o nível, precisava viver lá”. Kadji explica que estava disposto a ir como dekassegui, assim como seu pai, para juntar dinheiro e depois estudar, mas acabou optando pela oportunidade na editora.

Assim, com certeza, a Comunidade Yuba e sua riqueza cultural têm muito a ensinar a todos nós, nipo-descendentes ou não. É preciso apenas nos deixar ser inspirados.

 

© 2016 Tatiana Maebuchi

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