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Um bairro japonês no Brasil

Capítulo 1 Rua Conde e arredores: o primeiro bairro japonês do Brasil - parte I

A cidade de São Paulo foi toda construída sobre ladeiras. Quem anda pelo Centro surpreende-se com a quantidade de aclives pelo caminho. Às vezes, fico com vontade de perguntar —mesmo que num sussurro inconsciente — por que alguém teria escolhido um lugar tão acidentado como esse para construir uma cidade.

No dia 25 de janeiro de 1554, o padre José de Anchieta e outros 13 membros da Companhia de Jesus fundaram, na colina de Piratininga, um aldeamento que tinha São Paulo por seu santo protetor (FAUSTO, 1994, p. 94). O aldeamento havia sido construído sobre um aclive por medo dos ataques de índios hostis.

Desde então, São Paulo cresceu espraiando-se por sobre declives e aclives, ora descendo, ora subindo, sempre em torno do Pátio do Colégio (assim era chamado o aldeamento, que é hoje o monumento mais antigo da cidade). Ao lado do Pátio do Colégio fica a Catedral, que, por sua vez, é rodeada pela Praça da Sé. Não muito longe da Praça da Sé fica a Praça João Mendes (na frente do tribunal). Saindo da Sé e cruzando a João Mendes chega-se à rua Conselheiro Furtado. Do lado esquerdo avista-se uma colina abrupta: é a rua Conde de Sarzedas (ilustrações 1 e 2). Foi nessa ladeira íngreme que nasceu o primeiro bairro japonês do Brasil1 .

Ilustrações 1: Liberdade (Clique para aumentar)

Ilustrações 2: Rua Conde e arredores (Clique para aumentar)

Logo no começo da rua fica a antiga mansão do conde de Sarzedas. Conta-se que, do alto da ladeira, era possível ver a chácara do conde estendendo-se ao longe. A mansão, símbolo da rua, era conhecida entre os primeiros imigrantes japoneses como “o castelo do Conde”. Quando os primeiros japoneses chegaram à região, no decênio de 1910, já não havia mais conde, mas a imagem da mansão era constante para quem subia e descia a rua debaixo de sol forte (ilustração 3).

Ilustrações 3 (Clique para aumentar)

Hoje sabemos que, antes mesmo da chegada do Kasato-maru, alguns japoneses já viviam em São Paulo. Além do que, apesar da maior parte dos imigrantes da primeira leva serem agricultores, alguns poucos indivíduos que tinham outras ocupações acabaram vindo residir na cidade. Desses, 3 rapazes solteiros e 1 casal eram imigrantes espontâneos. Os demais eram carpinteiros, ferreiros, alfaiates etc. Ainda vieram: um jovem que vinha auxiliar outro imigrante que já plantava verduras na periferia de São Paulo (espontâneo), outro que foi contratado pela agência da companhia de emigração e dois irmãos de Kumamoto que foram trabalhar como empregados domésticos numa casa em São Paulo. Conta-se que, além destes casos já mencionados, um construtor de navios e um gaiato também se instalaram em São Paulo (KŌYAMA, 1949, p. 37). O próprio diretor do escritório da companhia que trouxe os imigrantes para o Brasil, Shūhei Uetsuka, vivia em São Paulo (HANDA, 1970, pp. 168-9).

Nos dias atuais, já é um bocado difícil obter informações sobre como esses primeiros imigrantes viviam em São Paulo. Mas há um elemento comum a todos os povos que acalenta a vida fora de casa: são os restaurantes onde se serve a comida da terra natal. Para os japoneses, que vêm de uma longa tradição de plantio do arroz, não há refeição completa sem o grão, além do molho e da pasta de soja. Ora, a primeira fábrica de molho de soja em escala comercial data dos anos 20 (MORI, 1995, p. 380). Mesmo que esses imigrantes tivessem se adaptado aos hábitos alimentares e indumentários do local onde haviam se instalado, e por mais que eles demonstrassem levar uma vida sofrida, muito provavelmente a rotina deles não incluía esses elementos, como arroz japonês, molho de soja e pasta de soja.

Rua Conde de Sarzedas em 1937 (TAKESHITA, 1938)

Com relação à comida, sabe-se ainda que os funcionários das Casas Fujisaki haviam se instalado num imóvel alugado na rua São Paulo, onde um casal japonês servia refeições preparadas à moda japonesa (HANDA, 1970, p. 171). O autor não especifica do que essas refeições eram feitas, mas, como as Casas Fujisaki importavam seus produtos do Japão — o que incluía os alimentos e as peças de vestuário destinadas aos funcionários —, é bem provável que as refeições fossem autenticamente japonesas. Apesar de a maioria dos imigrantes entrados no país virem como imigrantes agricultores, por diversas razões o número de imigrantes que abandonavam as fazendas era grande. Conta-se que muitos deles, depois de deixarem as fazendas, vinham para São Paulo e se surpreendiam ao encontrar os sabores da terra que lhes era tão cara.

A atual rua Conde de Sarzedas (foto tirada pelo autor em 2007).

Mesmo depois que as Casas Fujisaki se mudaram, esse casal permaneceu no mesmo lugar oferecendo guarida aos imigrantes que continuavam vindo das fazendas. Naquela época não eram poucos os casos de imigrantes que fugiam das fazendas por causa de armadilhas nos contratos, de conflitos com os donos das fazendas ou mesmo por conta de discriminação racial. Refúgios como esse começaram a surgir nas imediações da rua Conde, da rua São Paulo e da rua dos Estudantes, dando a nítida impressão de que eram um ponto de encontro de aventureiros. Da aglomeração desses imigrantes que fugiam das fazendas, a rua Conde e seus arredores (como o ponto ficou conhecido) se tornaram o primeiro bairro japonês do Brasil.

As feições da rua Conde da época foram vividamente reproduzidas por Tomoo Handa na descrição abaixo:

“Construída ao longo de uma ladeira, a rua Conde de Sarzedas (ou, simplesmente, a rua Conde) não tinha mais do que duas ou três casas à sua direita, tendo somente o lado esquerdo repleto de habitações. Essa configuração dava a impressão de que a rua Conde era uma espécie de muralha que guarnecia o morro de Piratininga. No sopé do morro havia um brejão cercado de mata, por onde corria um riacho.” (pp. 173-4)

“Japonês trabalhador levanta cedo. Os carpinteiros já cruzam a soleira dos porões, trazendo nas mãos suas caixas de ferramentas para logo começarem a subida da ladeira. Subi-la trazendo coisas consigo é uma tarefa extenuante. (...) Nas fachadas dos porões, já assomam as donas de casa japonesas, tamancos nos pés, prontas para ir às compras em algum açougue qualquer (...).

“Do alto da colina, a antiga residência do Conde de Sarzedas, edifício vermelho com jeito de castelo, parece refletir a luz matinal.” (pp. 185-7)

Já nessa época a rua Conde exibia todas as feições de um bairro oriental, exceto pelo fato de que muitos japoneses ainda viviam em porões, não diferindo muito das outras minorias que habitavam na cidade (étnicas ou não).

Este autor visitou a rua Conde pela segunda vez durante o feriado de Carnaval de 2007. Fevereiro é um mês de chuvas na cidade de São Paulo. Enquanto eu fitava no céu as nuvens imensas, que pareciam invadir o caminho, despejando sua água sobre a rua Conde — já quase submersa —, meu pensamento se voltava para aqueles que, há pouco menos de cem anos, também fitaram as nuvens lá de baixo da colina.

“O castelo da rua Conde”, como era conhecida a antiga mansão do Conde de Sarzedas (foto tirada pelo autor em 2006).

Nota:
1. Observando o Mappa topographico do municipio de São Paulo , publicado nos anos 30, vê-se que o Largo Sete de Setembro, próximo ao topo da colina da Conde de Sarzedas, está a 762 metros do nível do mar, enquanto que o sopé da colina está a “somente” 725,3 metros.

Referências

FAUSTO, Boris (1994), História do Brasil. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo.

HANDA, Tomoo (1970), Imin no seikatsu no rekishi — Burajiru nikkeijin no ayunda michi [O imigrante japonês — história de sua vida no Brasil]. São Paulo, Centro de Estudos Nipo-Brasileiros.

KŌYAMA, Rokurō (ed.) (1949), Imin yonjūnen-shi [História dos quarenta anos da imigração]. São Paulo, ed. particular.

MORI, Kōichi (1995), “Shoku bunka wo tōshite mita nippaku kōryū-shi joron” [Pequena história das relações nipo-brasileiras vistas pela ótica da cultura gastronômica]. In: Hajime Mizuno (dir.), Nihon-Burajiru kōryū-shi — nippaku kankei 100-nen no kaiko to tembō [História das relações nipo-brasileiras — cem anos de prospectos e reminiscências]. Tōkyō, Nihon-Burajiru Shūkō 100-shūnen Kinen Jigyō Soshiki Iinkai, pp. 377-418.

TAKESHITA, Masajirō (1938), Zaihaku dōhō katsudō jikkyō shashin-jō [Retratos fidedignos das atividades dos nossos compatriotas no Brasil — álbum fotográfico]. São Paulo/Suzaki, Takeshita Shashinkan.

Ilustrações.
PREFEITURA Municipal de São Paulo (1938), “Mappa topographico do municipio de São Paulo n.º 51”. São Paulo, Prefeitura Municipal de São Paulo.

© 2007 Sachio Negawa

Brazil Conde japantown

Sobre esta série

O bairro japonês de São Paulo — sempre que eu me vejo imerso nele, cercado de caos por todos os lados, invariavelmente eu sinto a minha mente como que vazia por um instante e me pergunto: “por que teriam esses japoneses atravessado os mares e construído, do outro lado do mundo, um bairro só deles?”.

Nesta coluna, eu gostaria de dividir com os leitores a história e a imagem contemporânea dos bairros japoneses que eu visitei, procurando não me afastar da pergunta que abre este artigo.