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Crônicas Nikkeis #10—Gerações Nikkeis: Conectando Famílias e Comunidades

Minha estimada família

Desde que nasci a minha Obachan dizia que teríamos que falar o nihongo por termos a cara de japonês, apesar de termos nascido no Brasil. Seríamos japoneses a vida inteira. Mas, não entendia isso do porquê teríamos que falar nihongo em casa sendo que morávamos no Brasil.

Somos 4 irmãos e todos nós entramos na escola primária sem falar nada de português e lembro-me claramente de que sofri muito, mas hoje, agradeço muito a educação que nos deram. Na parte da manhã, burajiru gakkou e à tarde, nihongo. Passávamos o dia inteiro na escola e o meu Otochan sempre dizia que teríamos que estudar, porque ele não pôde. O sonho dele era de cursar uma faculdade, mas isso não pôde ser realizado por causa da guerra.

Foto da minha mãe e meus irmãos

Antes da guerra, o meu Otochan tinha uma vida bastante confortável. Meu Hiojichan (bisavô) trabalhava como policial em Shinagawa. Porém, tudo mudou após a guerra. Com o Japão devastado pela guerra e por causa do noochi kaikaku (reforma agrária da época), tiveram que mudar para Namie, em Fukushima, para não perderem o terreno que possuíam lá. E como meu Hiojichan nunca tinha trabalhado na lavoura, foi uma fase difícil até para comer. Por causa da situação econômica da família, minha Obaachan decidiu que imigraria ao Brasil quando viu um kairanban (aviso dos moradores do bairro), dizendo que teria uma vida melhor no Brasil, "a terra dos sonhos".

Chegando ao Brasil, tiveram que ir trabalhar duramente nos cafezais do interior de São Paulo. Meu Otochan sempre nos contava sobre a vida dura naquele tempo e a discriminação que sofríamos. E na minha infância, lembro-me de que todos nos chamavam de “japa”. Para uma criança era difícil entender. Hoje, acontece o contrário, pois moro no Japão e aqui sou considerada gaijin.

Foto da familia em Tijuco Preto

Desde pequena tive muito interesse pelo Japão e quando dava, sempre participávamos do Fukushima Kenjinkai, que fica na Liberdade. O meu interesse em conhecer o Japão era muito grande e o primeiro passo foi tentar o kempi ryugakusei. Na época todos da minha idade falavam muito bem o nihongo e a concorrência era muito grande, umas 20 pessoas para 3 vagas.

Com o governador de Fukushima

Felizmente, consegui passar na Faculdade de Fukushima. Chegando ao Japão, fiquei chocada que o meu nihongo não era suficiente ou melhor era um nihongo antigo. Aqui, em meio da ocidentalização do Japão, muitas palavras em inglês adaptadas ao nihongo eram bastante comuns no dia a dia. Foi um choque cultural, já que o nihongo praticado no Brasil não acompanhou a evolução do nihongo moderno. Apesar de tudo, a base de nihongo que tinha foi muito importante para a minha adaptação. Quando se tem a base de uma língua o resto é só uma questão de ajustes.

Na época, tive uma experiência incrível em um dos encontros com outros bolsistas do Brasil em Tokyo, quando o Tennoheika veio nos dar as boas-vindas! Ver de perto a figura mais importante do Japão, que para a maioria das pessoas só era possível ver pela televisão, minha adrenalina estava a mil.

Para entender melhor a cultura japonesa ou qualquer outra cultura, é somente convivendo com o povo local. Descobri também que não adianta somente falar o nihongo, mas precisa entender a essência da língua e toda a história de cada construção de frase. Para ter um envolvimento melhor, faz mais de 20 anos que dou aulas de português para os japoneses.

Existem empresas que solicitam o aprendizado do português em 3 meses. Uma missão difícil, mas não impossível, porque hoje existe a Internet, além de a maioria dos funcionários de empresas falar o inglês.

Nas primeiras aulas de português para os japoneses, eu sempre tento iniciar pela parte cultural do Brasil, entrando um pouco em História para que eles possam entender melhor a língua portuguesa do Brasil. Tenho alunos japoneses que amam o Brasil e isso me deixa muito satisfeita e orgulhosa.

Aqui no Japão há muitos neologismos que os nikkeis criaram dentro da comunidade brasileira. Por exemplo, a palavra “gambateando”, que é uma das mais comuns utilizadas por aqui. A língua é viva e está sempre em mutação, acompanhando as mudanças de costumes, moda e outras tendências da época e, muitas vezes, as palavras novas não se encontram em dicionários.

Um fato importante que queria destacar é que a maioria dos japoneses não sabe o que é um nikkei. Depois do movimento da imigração pós-guerra, percebe-se que são temas que não são tocados por entidades públicas e nas escolas. Até para a minha filha entender foi difícil, pois a história da imigração japonesa para o exterior, parece ser um tabu, uma coisa vergonhosa que o Japão prefere esconder a querer mostrar que os imigrantes fizeram uma contribuição enorme para as várias sociedades em que foram inseridos ao longo dos anos. Ela me perguntava se sou japonesa ou brasileira. Hoje, penso que não é um ponto de relevância, pois o que realmente importa é o caráter.

Vivendo tantos anos aqui no Japão, uma história interessante que vivi foi quando a minha filha estava no shougakkou e tinha uma amiguinha que, de repente, parou de falar com ela. E a minha filha não entendia o porquê. Logo imaginei que seria porque não nos comportávamos conforme os costumes japoneses. Foi quando decidi que participaria de todas as reuniões da escola e faria amizade com as mães, para mostrar que somos gente decente. E assim, me dediquei à educação de corpo e alma para que a minha filha não tivesse vergonha de ser filha de pais brasileiros.

Aprendi muito com a minha filha, quando ela praticava o Kendo, que tem todo um ritual, e isso foi muito importante para a vida dela: aprender a perder e a ganhar, ter relação sempai (que nasce primeiro) e de kouhai (que nasce depois).

Eu me lembro de que no Kendo, as mães chamavam umas pelo nome e outras pelo sobrenome e eu não entendia o motivo. Descobri depois que isso depende do grau de amizade. Quando é uma amiga, chama-se pelo nome e não pelo sobrenome. No meu caso, com bastante dedicação elas começaram a me chamar pelo nome depois de 2 anos.

Quanto à prática do Kendo, descobri que a criança tem que conciliar os estudos com algum tipo de esporte, para fazer com que tenha perseverança e interação com as pessoas, aprendendo coisas que só com o estudo não seria suficiente.

Dediquei-me muito à educação de minha filha. Sempre falei que, quando decidir começar algo, tem que ir até o fim. Nunca desistir. Mas, caso chegue ao seu limite, que acredito que cada um tenha esse momento, seria a hora de pensar.

Quando houve o terremoto em 2011, a província de Fukushima foi a mais afetada devido a uma das usinas nucleares ter explodido, soltando um nível de radiação muito alta. A cidade de Namie, onde meu Otochan morava, foi tão afetada, que acabou sendo fechada e ninguém mais pode entrar lá. Os parentes que moravam por lá perderam as casas e tenho uma tia que sofre de depressão até hoje. O povo de Fukushima sofreu muita discriminação devido à radiação e ela disse que riscaram o carro dela somente porque tinha a chapa de Fukushima.

Três anos atrás os meus pais vieram para o Japão passear e um primo nos levou até a cidade de Iwaki, onde o tsunami engoliu a cidade. Foi muito chocante! Pela primeira vez o meu Otochan disse que a melhor coisa que ele fez foi ter ido para o Brasil e que adora lá.

Foto da minha filha Leina na frenta de Universidade Rikkyo.

Um dos meus maiores orgulhos foi a minha filha ter entrado numa das melhores faculdade do Japão, a Universidade Rikkyo, este ano. Quando contei a novidade para o meu Otochan ele ficou bastante contente, dizendo que essa escola é muito famosa e renomada. De certa forma, a minha filha realizou o sonho do meu Otochan, que não conseguira completar os estudos por aqui.

Como nikkeis, temos a responsabilidade de manter a cultura que os nossos ancestrais nos deixaram. Mas a meu ver, isso está cada vez mais difícil. Muitos já não têm interesse, correm para estudar inglês cujo aprendizado é mais fácil comparando com o nihongo. Temos que ir mudando isso aos poucos. Devido à facilidade que temos hoje com a Internet, o interesse que muitos jovens têm pelos animes e mangas está aumentando cada vez mais. Mas, ainda deixa um pouco a desejar.

Sendo nissei, creio que para mim é mais fácil sentir a proximidade das histórias que o meu Otochan contava e conta até hoje. E sempre tento incentivar os meus sobrinhos a estudarem o nihongo, já que eles têm cara de japonês. Assim, acredito que cada um participando ou fazendo um pouco para a comunidade, já seria um grande passo para não perdermos a nossa herança cultural, que é muito valiosa. Quanto mais me aprofundo nessa cultura milenar, mais me APAIXONO.

 

© 2021 Amélia Hisami Karuka Shoji

20 Estrelas

Os Favoritos da Comunidade Nima-kai

Each article submitted to this series was eligible for selection as favorites of our readers and the Editorial Committees. Thank you to everyone who voted!

Brazil identity Japan language

Sobre esta série

O tema da 10ª edição das Crônicas NikkeisGerações Nikkeis: Conectando Famílias e Comunidades—abrange as relações intergeracionais nas comunidades nikkeis em todo o mundo, tendo como foco especial as emergentes gerações mais jovens de nikkeis e o tipo de conexão que eles têm (ou não têm) com as suas raízes e as gerações mais velhas. 

O Descubra Nikkei aceitou histórias relacionadas ao Gerações Nikkeis de maio a setembro de 2021; a votação foi encerrada em 8 de novembro. Recebemos 31 histórias (21 em inglês, 2 em japonês, 3 em espanhol e 7 em português) da Austrália, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Japão, Nova Zelândia e Peru. Algumas foram enviadas em múltiplos idiomas.

Solicitamos ao nosso Comitê Editorial para escolher as suas histórias favoritas. Nossa comunidade Nima-kai também votou nas que gostaram. Aqui estão as favoritas selecionadas pelo comitê editorial e pela Nima-kai! (*Estamos em processo de tradução das histórias selecionadas.)

A Favorita do Comitê Editorial

Escolha do Nima-kai:

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