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Família Enokizono, exemplo de luta e determinação

Familía enokizono (da esquerda à direita): Michiyo, Yoshinori, Eiji

Diante da insidiosa crise que vem assolando o Brasil nos últimos anos, mais acentuadamente nos últimos 6 anos quando o índice de desemprego chegou a superar 13%, algo em torno de 14 milhões de inativos, a situação só não foi mais grave devido ao ótimo desempenho do setor agropecuário que, neste ano, crescerá acima de 10%. 

Loas ao setor pelo desempenho espetacular, mas não podemos esquecer que há uma dependência muito acentuada do “agronegócio”, envolvendo as grandes propriedades voltadas à monocultura (soja, trigo, café, arroz, algodão, milho), cuja produção é altamente mecanizada e muito focada ao mercado externo.

A realidade que enfrentamos, porém, é outra. Cerca de 70% de tudo aquilo que vem abastecer o mercado interno, ou seja, a mesa do cidadão brasileiro, é derivado das pequenas propriedades rurais, geralmente conduzidas por modestos agricultores e seus familiares, dispondo de poucos recursos tecnológicos e técnicos, mão de obra insuficiente e sem acesso a créditos oficiais. Ainda enfrentam outras barreiras para cultivar suas culturas, custos cada vez mais elevados dos insumos, preços insatisfatórios e, não bastasse tudo isso, as condições climáticas muitas vezes desfavoráveis e imprevisíveis , colaboram para desestimular esse abnegado contingente de trabalhadores.

Ainda assim, a agricultura familiar tem uma importância vital na produção agropecuária nacional. Diversos itens que compõem a cesta básica das famílias, praticamente são produzidos pelas pequenas propriedades e lavouras. São bons exemplos os “hortifrutigranjeiros”, instalados no chamado “cinturão-verde” em torno da Capital de São Paulo, que despejam toneladas de produtos como verduras, legumes, frutas, cereais, peixes, frangos nos supermercados, varejões e feiras-livres, suprindo às necessidades dos consumidores.

Por ser descendente de agricultores e ter nascido no interior, sempre tive muito respeito e admiração por essa categoria laboriosa de trabalhadores, os pequenos produtores rurais, quase sempre no anonimato e que com imensas dificuldades exercem a dura faina de extrair da terra nem sempre fértil as verduras, legumes, cereais e frutas que consumimos diariamente. 

E, dentre esses pequenos agricultores, lembro-me particularmente da figura daquele que hoje é meu amigo, Eiji Enokizono, jovem fruticultor, que toca uma propriedade de aproximadamente 15 hectares na região de Piedade, a 100 km da Capital, com a ajuda da dedicada família, constituída da esposa Alice, filhos, pais e cunhadas.

Sempre fui um contumaz apreciador de frutas e esse hábito permanece até hoje. Em função dessa mania, há uns 7 anos conheci o Eiji-San que, na ocasião, expunha seus caquis na Feira anual que ocorre nas dependências de um tradicional clube da colônia japonesa, o Coopercotia, do qual sou sócio.

Encantei-me pelo tamanho e qualidade dos caquis (Fuyu) lá vendidos e curioso que sou, puxei conversa com ele e fiquei sabendo que ele era um produtor de frutas, tinha um sítio em Piedade, onde cultivava caquis, pêssegos, morangos, lichias e nêsperas. Diante da resposta positiva à consulta que fiz, se poderíamos visitar o local para conhecer a produção e , eventualmente, adquirir as frutas , foi o “start” de uma amizade que perdura até hoje. Ao menos, duas ou três vezes ao ano, visitamos o sítio e passamos um dia agradável, em contato com a natureza, saboreando no pé as frutas da época e abarrotando o porta-malas do veículo com caixas de frutas da mais alta qualidade, além de hortaliças e conservas produzidas com capricho pelas mãos hábeis da D. Alice e de suas irmãs. Sempre que possível, nessas viagens eu costumo convidar irmãos e cunhados e, assim, vamos em caravana até o local, num programa diferente e saudável, fazendo a alegria de todo mundo. É uma forma também de ajudar o Eiji-san, já que essas visitas representam potenciais compradores, onde ele pode comercializar os produtos diretamente, sem intermediário e sem custo de distribuição, recebendo à vista e em dinheiro pelas vendas. Em suma, uma coisa boa para todo mundo; um embrião de uma ideia que mais à frente, será muito útil.

No decorrer dos últimos anos, entretanto, vinha percebendo no semblante do amigo Eiji-San um certo ar de preocupação que, mais tarde, fiquei sabendo ser em decorrência das condições adversas do mercado, em parte pela crise que o país vem enfrentando há alguns anos, refletindo em todos os segmentos e também, como não poderia deixar de ser, na área agrícola. Os custos dos insumos e mão de obra aumentando e, por outro lado, os preços de venda das frutas nem sempre satisfatórios e equânimes, além das intempéries provocadas pela natureza, levavam intranquilidade ao cabeça da Família Enokizono, a ponto dele pensar em deixar a atividade do campo, iniciada por seu pai há quase 50 anos. Uma decisão que seria cruel e dolorosa para alguém que é responsável em prover uma família, com esposa, 2 filhos adolescentes, pais e cunhadas.

Os frutos que saem do pomar são de excelente qualidade, quase sempre campeões nas Festas Anuais que ocorrem na cidade. Têm boa aceitação no mercado, mas os custos de transporte e intermediação sacrificam as margens de ganho. Sem contar que a sazonalidade das frutas (caqui, em Abril/Maio, pêssegos em Novembro/Dezembro, Lichia em Janeiro) provocam uma intercorrência na produção, deixando meses em branco, praticamente sem nenhuma receita, apenas gastos.

Desde o primeiro contato com a Família Enokizono, percebi nela gente da melhor índole, boa, honesta, simples e trabalhadora . Simpatizei-me com eles e uma forte empatia se formou entre nós. Foi então que, ao me sensibilizar pelo dilema que a Família enfrentava, uma luzinha acendeu na minha cabeça. Ocorreu-me a ideia de sugerir ao Eiji-San a adoção de uma iniciativa relativamente nova no Brasil, que vi implementada em algumas propriedades rurais com bastante sucesso: o turismo rural ou o agroturismoMesmo com os parcos conhecimentos que tinha sobre o assunto, passei algumas informações e ele, mesmo com certo receio, comprou a ideia e se dispôs a implantá-la ainda na safra do caqui daquele ano, que ocorre entre abril e junho. Comentei com ele que o projeto exigiria um pequeno investimento para a melhoria da infraestrutura do local que era bastante precária, como limpeza do galpão, nas acomodações, principalmente banheiros, etc., além de exigir o envolvimento e participação de toda a família no projeto.

De nossa parte, aproveitando o bom relacionamento que dispúnhamos, esforçamo-nos na divulgação da iniciativa junto aos amigos e, com isso, conseguimos levar um primeiro grupo de turistas (um ônibus lotado), cujos participantes, a maioria da “terceira idade”, tiveram a oportunidade de voltar às origens e passar um dia verdadeiramente inesquecível. Conheceram um pomar de caqui (fuyu e guiombo), aprenderam um pouco sobre o cultivo e produção e, mais do que isso, colheram o fruto diretamente do pé. Tudo isso, enriquecido pela amabilidade e atenção da Família, que se desdobrou em bem recepcionar os Visitantes, oferecendo um delicioso café da manhã logo na chegada ao local e, no almoço, um caprichado “obentô”, tudo feito pelos familiares. Além dos maravilhosos caquis que puderam apanhar e trazer, foram oferecidos aos visitantes produtos em conserva elaborados no local, como “lakyô”, tsukemono, fukujinzuke, shimeji, caqui seco, etc., além de verduras e legumes fresquíssimos que foram colocados à disposição. Praticamente não sobrou nada. Ou seja, o evento foi um sucesso e podemos dizer que a ideia surgiu das visitas que começamos a realizar ao sítio alguns anos atrás. 

(Da esquerda à direita): Mitiko, Eiji, Alice, Hiroko

As excursões ao local têm se sucedido cada vez mais, em maior número, com a divulgação que vem ocorrendo, boca-a-boca , fato que pudemos comprovar, com muita alegria quando lá estivemos recentemente e o Eiji-San nos informou que já receberam nesse período a visita de vários grupos, inclusive em dias de semana. E, algumas programadas para os próximos dias. Inclusive empresas de turismo se interessaram em institucionalizar o passeio dentro de suas programações normais. Fiquei muito feliz com a informação. 

Embora seja uma atividade ainda emergente no Brasil, pode-se afirmar que é uma alternativa de negócio muito promissora. Cada vez mais as pessoas buscam um programa diferente, que as façam afastar-se da metrópole, com sua agitação e poluição, em busca da proximidade com a natureza, com o verde. E, essa possibilidade das pessoas vivenciarem a rotina do campo, conhecendo um pouco sobre o cultivo e a produção de produtos agrícolas e frutas, podendo praticar o “colhe e pague”, muito adotado no segmento pesqueiro, vem conciliar os interesses e necessidades de ambos os lados – cidadão/consumidor e produtor rural.

Não se pode afirmar que a situação dos pequenos produtores, de maneira geral, é confortável e tranquila neste momento. As dificuldades continuam, mas já se vislumbra um cenário mais alentador e menos pessimista para aqueles que correm atrás de alternativas e não se contentam com a situação atual. Basta ver o amigo EIJI que, além do Turismo Rural, já vem pensando em parcerias com outros produtores, para suprir os períodos de entressafra e obter receitas extras no período. Isso, sem mencionar que nesse período, a esposa e suas cunhadas, dentro daquele espírito de guerreiro e responsabilidade que têm os descendentes de japoneses, paralelamente expandiram o negócio da alimentação, fornecendo “obentôs” diariamente para as lojas de conveniência no centro da cidade, além de intensificarem a produção de conservas, que são vendidas, junto com os “obentôs” nas diversas feiras, exposições e eventos que são realizados na região.

É o velho e sábio adágio levado ao pé da letra: família que trabalha unida, vence e permanece unida. 

 

© 2017 Katsuo Higuchi

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