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Estereótipo, o erro de pensar que todos os nikkeis são iguais

Japoneses e seus descendentes podem parecer iguais entre si, mas são muito diferentes (foto: Jason Goh/Pixabay)

Quando o assunto é sociedade, automaticamente se fala em história. As relações humanas são analisadas e discutidas por estudiosos desde a Antiguidade até os tempos atuais. O sociólogo britânico Stuart Hall, por exemplo, lembra que “as nações são sempre compostas de diferentes classes sociais e diferentes grupos étnicos e de gênero”.

O Brasil não seria diferente. Inclusive, o país é marcado pelo multiculturalismo, resultado da antiga sociedade escravocrata e de políticas de imigração, principalmente em relação à vinda de japoneses. Como fruto do trabalho árduo, os nipônicos conseguiram prosperar e proporcionar estudos aos filhos. Assim, os nikkeis brasileiros ganharam destaque nos cursos tradicionais de graduação e, logo, nas respectivas áreas de atuação.

Valores como disciplina, dedicação à educação e ao trabalho, e cooperatividade foram transmitidos para as gerações seguintes. Tornaram-se características “obrigatórias” na personalidade do nipo-brasileiro.

Memória [...] não é uma propriedade da inteligência, mas a base, seja ela qual for, sobre a qual se inscrevem as concatenações de atos. Podemos a este título falar de [...] uma memória "étnica" que assegura a reprodução dos comportamentos nas sociedades humanas [...].¹


Todos os descendentes de japoneses são iguais?

Ao refletirmos, perceberemos que a resposta é não. Esse pensamento vale para outras ascendências e para as diferentes nacionalidades. Mas é natural que os nikkeis tenham características e comportamentos comuns. O problema é pensar que existe uma espécie de padrão e cair na armadilha do estereótipo. Traduzindo: clichê; lugar-comum (fórmula, argumento ou ideia já muito conhecida e repisada; coisa trivial), segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 

Pois cada um, ainda que semelhante a outras pessoas de um mesmo grupo, cria a própria identidade a partir de experiências únicas.


Convívio escolar: descobertas

Frequentei uma escola de bairro, de origem alemã, durante todo o período de Educação Infantil até o Ensino Médio e, assim, aprendi alemão. Descobri facilidade e gosto por estudar o idioma, além de interesse em conhecer sobre a cultura local. Eu era chamada de nerd, porque estava entre os melhores alunos. Não raro, estranhavam o fato de uma japonesa saber uma língua germânica e ter dificuldade em matérias que supostamente são dominadas pelos orientais.

No último ano do colegial, fiz o curso pré-vestibular na turma de Exatas para reforçar Matemática e Física (em Química eu tirava boas notas, talvez por me despertar curiosidade).


Embate na escolha da carreira profissional

Cheguei a pensar em estudar Medicina, Direito, Engenharia Ambiental… Mas desisti. Amo escrever. Não sou de números, cálculos e afins. Apesar de tudo, meus pais queriam que eu seguisse os passos deles na área de TI (Tecnologia da Informação). Eu tinha muitas dúvidas, mas tinha certeza que com isso não gostaria de trabalhar.

Minhas duas irmãs também passaram pela mesma situação e, assim como eu, buscaram a realização profissional (e pessoal) em outras atividades. Logicamente, bem diferentes de análise de sistemas e programação.


Interesse (tardio) na cultura e idioma japoneses

Confesso que não tinha interesse na cultura dos meus ancestrais e só surgiu quando, de fato, me inseri na comunidade nipo-brasileira. Tive vontade de aprender japonês por conta própria, mas logo desanimei, porque pessoas mais velhas recomendaram fazer curso do idioma.

Levou um tempo – alguns anos – para amadurecer a ideia. Até que cansei de perder tempo e me matriculei, enfim. Estudei por dois anos. Na minha turma, eu era a única nikkei que não tinha aprendido japonês na infância. Por conta desse histórico, na maior parte do tempo, meus colegas absorviam o conteúdo das aulas mais rápido que eu.


Costumes típicos em família

Engraçado que desde criança e até hoje me atrapalho um pouco com hashi. Antes, me sentia incomodada com isso, porque os outros se dispunham a tentar me ensinar e diziam ser fácil. Já aos meus 20 e tantos anos, decidi que preferia talher para comer. Muitas vezes quando ia a um restaurante self-service oriental, eu era praticamente a única pessoa (dentre descendentes e não descendentes) que usava garfo e não os palitinhos japoneses.

Existiu uma fase em que minha irmã mais nova passou a usar só hashi – tanto para comer quanto para cozinhar. Aí o restante da família aderiu. Nesse período me acostumei pelo hábito, porque, na verdade, é apenas uma questão de prática.

Um costume que minha família tinha, provavelmente por causa do contato mais frequente com meus avós por parte de pai, era de falar palavras e expressões em japonês. Ao acordar, ohayou; antes de comer, itadakimasu; oishii para saboroso; depois de comer, gochisousama; hirune para cochilar; ao dormir, oyasumi; urusai para irritante; kusai para fedido; onegai para pedir um favor; omedetou para parabéns.


No fim, aonde chegaremos?

Depois de teorizar, argumentar e exemplificar, minha conclusão é que nossa identidade muda. Não só conforme o momento histórico como também de acordo com o momento que a pessoa vive. Fica, então, o desafio de resolver incógnitas que cercam o ser humano com o objetivo de compreendê-lo melhor, tanto em sua individualidade quanto em suas relações sociais.

Nota:
1. Le Goff, Jacques. História e Memória. Campinas: SP Editora da UNICAMP, 1990.


Referências:

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

 

© 2019 Tatiana Maebuchi

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