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JAPÃO E SUÍÇA: Semelhantes em suas diferenças

O poeta Mário Quintana já dizia: “ viajar é mudar a roupa da alma! “ Viajar é muito bom, faz muito bem à alma, ao coração! Quando viajamos, alargamos os horizontes, expandimos as fronteiras.  Retornamos de forma diferente, rejuvenescidos, com um novo estado de espírito e uma forma diferente de pensar e agir. Até uma pessoa melhor você se torna, atrevo a afirmar.

 Imagina pegar  um avião, atravessar o oceano e, depois de algumas horas, pousar em outro país e deparar com fuso horário, idiomas, pessoas, comidas e cheiros diferentes, é estranho e até assustador, mas fascinante ao mesmo tempo. Você começa a viver outra realidade, em outro tempo e espaço , tudo é encanto pelas descobertas de cada momento. Como é bom conhecer o desconhecido, descobrir um mundo novo, cruzar pontes, fronteiras, sentir-se estrangeiro.  

Da imaginação à realidade, tudo isso e muito mais foi possível sentir dias atrás, ao viajar para a Europa, mais precisamente à Suíça e Portugal, graças à magnanimidade de uma filha que lá reside ( Basel/Suíça), que nos possibilitou rever o país, com direito a esticar o passeio até Lisboa e Algarve.  Já estivéramos  no país helvético alguns anos atrás mas, desta vez, com a filha e o genro servindo de cicerone, tivemos, eu e a esposa, a oportunidade de aprofundar-nos pelos Cantões Suíços, conhecendo um pouco mais de algumas charmosas cidadezinhas aos pés da Cordilheira Alpina. Em meio à paisagem deslumbrante, de cartão postal, ttendo como fundo as montanhas, os campos verdejantes, caminhamos por ruas que nos pareciam transportar ao passado, na Idade Média, diante da beleza das construções históricas, misturado com o aroma que saía dos encantadores restaurantes e casas de chá. Nessa andança, ficou evidente por que esta pequena nação se tornou uma referência no cenário mundial como modelo de organização, qualidade de vida e desenvolvimento econômico-social. E, sem esquecer de seus famosos chocolates, canivetes, queijos e um poderoso sistema bancário.

Diante de tantas coisas boas e positivas que sentimos na Suíça,  foi natural que surgisse uma sinergia com o Japão, país que também  tivemos a satisfação de conhece recentemente, em 2017 e, de cuja visita,  retornamos  mais entusiastas e admiradores de sua cultura e desenvolvimento.

Japão e Suíça são dois países com muitas diferenças mas também com muitas semelhanças e pontos em comum, apesar da distância geográfica que os separam e das etnias muito diferentes. O país do Sol Nascente tem por volta de 370.000 km2 e 130 milhões de habitantes. Já a Suíça conta apenas com 41.000 km2, onde uma população de pouco mais  de 8 milhões de pessoas, menor que a cidade de São Paulo, vive de forma digna, com uma qualidade de vida invejável que permite ao país apresentar um dos melhores índices de IDH.

Têm em comum territórios compostos por extensas áreas montanhosas que, se de um lado, permitem cenários deslumbrantes, que estimulam o turismo, de outro, restringem sua utilização para a agricultura e outras atividades produtivas.  Igualmente,  a natureza não os contemplou com riquezas naturais, como minérios, petróleo e gás, tão valorizadas no mundo atual, que impulsionam a economia de qualquer nação que as detenham.

A riqueza do Japão e da Suíça está em seu povo. Educados, disciplinados e determinados, elevaram seus países a tamanho destaque no concerto das nações, fazendo-os admirados pela estabilidade econômica e social, alta tecnologia e qualidade de vida.

Algumas das similaridades que destacamos: A pontualidade nos compromissos, tal como a qualidade e eficiência de seus famosos relógios, os suíços a levam com muita seriedade, procurando chegar pontualmente nos encontros. Mas, diferentemente dos japoneses, que se preocupam em antecipar de 10 a 15 minutos, os helvéticos buscam chegar exatamente no horário marcado. Se alguém disse que vai te encontrar às 14h00, ele chega às 14h00 e não às 13h50 ou 14h10. “Eu valorizo o seu tempo e, por consequência, eu valorizo você “,  diz o suíço, com naturalidade.

A habilidade de viver pontualmente faz parte da rotina de japoneses e suíços e isso reflete em tudo, desde os compromissos diários e até nos transportes públicos. A exigência e a expectativa nesse sentido é tanta que os suíços ficaram estressados quando tomaram conhecimento de um levantamento mostrando que apenas 87,5% dos trens chegaram dentro do limite de 3 minutos de tolerância, não batendo a meta de 89%. No Japão, os trens-bala , os famosos “shinkansen” fazem as ferrovias suíças parecerem lentas, quando se sabe que o atraso médio anual nas ferrovias japonesas é de apenas 36 segundos.

O senso de responsabilidade e o espírito de coletividade são outras qualidades que fazem parte da maneira de ser dos cidadãos dos dois países. A limpeza está sempre presente em qualquer lugar, da calçada da sua casa às vias e espaços públicos . Nos supermercados, shopping centers , estádios, não se joga nada no chão; os banheiros são utilizados com cuidado, como se fosse em sua casa;  os jardins, as plantas e as flores nos parques são respeitados, apreciados com os olhos e não com as mãos. Presenciei, tanto na Suíça como no Japão, em finais de semana, grupos de pessoas se confraternizando alegremente, passando momentos de lazer às margens dos rios, sempre limpos, que cortam a cidade, em verdadeiros piqueniques democráticos, numa demonstração de uma sociedade livre e organizada. Viam-se crianças correndo, jovens cantando , mulheres tomando banho de sol, idosos cochilando e pessoas de múltiplas nacionalidades preparando seu churrasco, tomando sua cerveja ou vinho, tudo dentro da absoluta ordem, respeito e, principalmente, limpeza.

As normas de trânsito são rigorosamente observadas nos dois países, sempre com preferência aos pedestres e, mesmo em Tóquio, com seu trânsito infernal, há uma convivência respeitosa entre motoristas e pedestres. Na Suíça, esse senso de espírito público e honestidade pode ser percebido na utilização dos meios de transporte, como bonde e ônibus. Não há cobradores e nem catracas nos veículos. O cidadão compra o tíquete nos terminais eletrônicos existentes nos pontos de parada e fica com ele, que somente é exigido, eventualmente, por um fiscal itinerante. Nas bancas de jornais e revistas mais simples, localizadas nas periferias, os jornais ficam expostos ao lado da banca, no lado externo. O cidadão retira o jornal e deixa o pagamento correspondente na caixinha ao lado.  Como vimos acima, tudo dentro da absoluta  confiança!  A mesma postura se vê no Japão. Fato admirável para nós, brasileiros!

Outro exemplo marcante desse espírito de coletividade, constatamos nas cidadezinhas como Davos e Kloster. Existem lá, nos arredores, próximos aos conjuntos e condomínios residenciais, “caixas-biblioteca” , pequenas caixas de metal, mais ou menos 0,60x0,40, com tampa e à prova de chuva e umidade, suspensa a uma altura de 0,50, contendo livros e revistas, cedidos pela comunidade e à disposição da população, gratuitamente. Aqueles que quiserem, poderão também doar outros livros e colocá-los na caixa. Uma ideia louvável que retrata o alto grau de consciência cívica e de solidariedade desse povo.

No Japão, por sua vez, salta aos olhos de qualquer visitante a maneira pela qual você é recebido nos estabelecimentos comerciais, seja em hotel ou em uma loja comercial. Desde o sonoro “Irashaimasse (Seja bem-vindo)”, até a forma cortês  e gentil no atendimento, você está sendo tratado dentro do conceito de “omotenashi”, algo como “encantar o cliente”, presente em qualquer loja que vá visitar, do mais simples até os sofisticados shopping-centers . Até na hora de pagar e receber, tudo é feito de forma clara e transparente, com o funcionário exibindo e contando  cada cédula e moeda, de modo que não suscite qualquer dúvida ao cliente. Ao sair, o cliente é surpreendido com os funcionários inclinando o corpo, em sinal de agradecimento pela compra, um gesto de muita gentileza. Ou, quando o Atendente da Loja o acompanha até a porta do elevador e só aí lhe entregando a mercadoria, junto com a mesura citada acima, de agradecimento pela compra. Por certo, os estrangeiros que veem a cena pela primeira vez ficam surpreendidos e encantados. A arte de bem atender os clientes no Japão é levada muito à sério!

A integridade e honestidade é outra coisa que chama a atenção do visitante no Japão. Se o visitante tiver a infelicidade de perder ou esquecer um objeto em algum espaço público, mesmo que seja sua carteira, não precisará ficar desesperado, porque, quase com certeza, o encontrará no mesmo lugar onde foi deixado ou perdido e, na pior das hipóteses, localizará no posto policial mais próximo. Poderá parecer coisa de outro mundo, mas para os japoneses, esta é uma atitude normal, dentro dos princípios que fazem parte da cultura japonesa. Lembro-me que por ocasião da nossa visita ao Japão, em passeio que fazíamos por trem, uma das colegas perdeu seu passaporte em uma loja de conveniência e se deu conta da perda quando já estávamos prosseguindo a viagem, em outro trem. Na primeira parada, a nossa guia conseguiu falar, por telefone, com o gerente da loja na qual tínhamos estado e ficou sabendo que o passaporte havia sido encontrado e que eles encaminhariam o mesmo para a estação final à qual estávamos nos dirigindo, que era Tóquio. Ficamos maravilhados com tamanha eficiência e civilidade!

A invejável qualidade de vida de japoneses e suíços nos obriga, mesmo que involuntariamente, a pensar em nosso Brasil.  A minha intenção era concluir o texto procurando evitar a indefectível comparação com o nosso país querido, mas os contrastes tão intensos e contundentes e a realidade dramática pela qual passa o nosso país, me obriga levantar uma questão crucial:  por que um país tão grande, fértil e rico em recursos naturais como o Brasil, a salvo até dos cataclismas, não consegue se inserir no rol das grandes potências mundiais, como o Japão e a própria Suíça?

Tudo indica que o principal motivo  é a falta de attitude – atitude que deveria fazer parte intrínseca de cada cidadão, forjada ao longo do tempo pela educação, pela cultura, pela ética, pelo nível de consciência pública e  cívica do povo, princípios indispensáveis  para a existência de uma sociedade mais justa, rica e desenvolvida.  

 

© 2018 Katsuo Higuchi

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