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Brasil-Japão e psicologia

Da necessidade de um olhar interdisciplinar da cultura e língua japonesa para a prática clínica com japoneses e descendentes.

Mesmo antes de me formar como psicóloga, meu interesse por estudos acerca do estrangeiro, migrante e principalmente em relação à cultura e língua japonesa me chamaram atenção. Portanto, me aprofundei no estudo da língua a partir de cursos oferecidos por comunidades Nikkei no Rio de Janeiro e Niterói. Posteriormente, como psicóloga formada, surgiu na minha prática clínica a demanda de atendimento com estrangeiros, japoneses e descendentes de japoneses; pela qual pude chegar em algumas considerações relevantes a respeito da necessidade de um olhar interdisciplinar e aproximação da cultura e língua japonesas quando se trata da prática clínica com estrangeiros, especialmente o japonês e descendente.

Infelizmente ainda não é possível encontrar muitos estudos em Psicologia, principalmente da prática clínica, com japoneses e/ou descendentes no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro e os que estão disponíveis focam em questões como e/migração e estudos sobre decasséguis (TASHIMA & TORRES, 2016; CARIGNATO, 2004); bem como trabalhos em outras áreas, como: estudos sociais e identitários com famílias japonesas ou sobre aculturação (KOJIMA, 2005; SAITO, 1980; OKAMOTO, 2007; KUO, 2014 e dentre outros).

A partir de movimentos migratórios e históricos - sejam por motivos econômicos, políticos ou identitários – várias instituições, colônias, comunidades ou centros culturais foram se fixando no território brasileiro (IBGE, 2008) e as regiões de São Paulo e Rio de Janeiro se encontram hoje como grandes polos destes deslocamentos; grande número de imigrantes ou descendentes reside no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense. São estas regiões em que a demanda surgiu na minha prática clínica como psicóloga.

Muitas questões surgiram no encontro com japoneses e descendentes na clínica e a necessidade de uma aproximação e entendimento da cultura e língua foram se fazendo ferramentas no entendimento das implicações de cada sujeito ao relatar os impasses de suas vivências sejam familiares, identitárias ou profissionais. Temáticas como desencontros e diferenças culturais entre Brasil e Japão, temáticas como xenofobia/racismo (racismo amarelo), bem como questões relacionadas a formas que as emoções são vistas, como os conceitos de honne (quando a pessoa expressa suas verdadeiras opiniões) e tatemae (quando se esconde as próprias opiniões a fim de evitar o conflito) que são fenômenos pensados de forma particular quando se trata da cultura japonesa (NAITO & GIELEN, 1992).

Em relação, particularmente, à presença da temática da xenofobia/racismo que também aparece cotidianamente na cultura brasileira por meio de expressões como: “ô Japa” ou “olhos puxados”, muitos descendentes trazem questões quando ao serem questionados se são japoneses, estes ficam se explicando ou justificando a respeito da sua nacionalidade brasileira. É possível perceber tal questão na pesquisa realizada por Takaki e Bassani (2014) ao exporem os dilemas e processos de construção identitária de jovens Nikkei.

A perspectiva da família japonesa também foi algo a ser entendido e compreendido dentro na lógica da cultura, pois esta noção de família está atrelada a uma série de vínculos. A associação à palavra na língua japonesa Ie (“casa”) é representada por uma “instituição ou entidade familiar que ultrapassa a propriedade material e transcende presente, passado e futuro” (KEBBE, 2016, p. 2); para tal, esta complexidade das relações que se dão de formas distintas se comparadas à cultura brasileira não terá referência ou semelhança. Outros autores como Bhappu (2000) e Benedict (1946), também, trabalham as noções que tal conceito possui, bem como a noção de honra que está direcionado a cada membro familiar.

Os traços culturais dos diferentes povos e culturas de uma nação não configuram uma homogeneidade, nem em seus próprios territórios, sendo que muitas práticas e costumes são distintos em seus regionalismos. A diversidade da cultura é constituída como um conjunto de “complexas visões de mundo, que se alternam a partir da movimentação e consequente interação dos povos ao longo do tempo” (AMARO, 2005, p. 4). Portanto, tanto para o japonês que chega ao brasil, especificamente no Rio de Janeiro ou descendentes que nasceram no Brasil, tais diversidades e visões de mundo se farão presentes. Tais sujeitos se encontram, de certo modo, em processos que vão se fazendo e refazendo na medida dos encontros e desencontros, no campo da interdisciplinaridade.
 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todo o percurso de discussão até agora, foi uma tentativa de evidenciar algumas relações e perspectivas para se pensar, de outra forma, a prática clínica com japoneses ou descendentes de modo particular para ressaltar a necessidade de um olhar interdisciplinar que molda nossas práticas e atitudes com o estrangeiro, especificamente o japonês.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENNEDICT, R. The Chrysanthemum and the Sword: Patterns of Japanese Culture. Boston: Houghton Miffin, 1946.

BHAPPU, A. D. The Japanese Family: Na Institucional Logic for Japanese Corporate Networks and Japanese Management. In. Academic Management Review, Vol. 25, no. 2, p. 409-415, 2000.

CARIGNATO T. T. O Lugar do Sujeito nas migrações contemporâneas: A Experiência Dekassegui. DEBIAGGI, S. D.; PAIVA, G. J. (Orgs). Psicologia, E/Imigração e Cultura. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004, pp. 227-248.

IBGE INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Resistência e Integração: 100 anos de imigração japonesa no brasil. Rio de Janeiro: Centro de documentação e disseminação de informações, 2008.

KEBBE V. H. Parentesco Japonês, Família Nikkei: reflexões acerca da família japonesa, Fundação Japão em São Paulo, publicado em 17 de fevereiro de 2016. Disponível em: http://fjsp.org.br/site/wp-content/uploads/2016/02/victor_hugo_kebbe.pdf Acessado em: 21/07/2018.

KOJIMA, H. Japanese Brazilian Attitudes and Behaviors Relating to the Social Security System. Y. Chitose (Ed.), FY 2004 Report on the Linkage between International Migration Policy and Social Security Policy in Light of Population Decline, 2005.

KUO, B. C. H. Coping, acculturation, and psuchological adaptation among migrants: a theoretical and empirical review and synthesis of the literature. Healthy Psychology and Behavioral Medicine: Na Open Access Journal, vol. 2, no. 1, 2014.

NAITO T. & GIELEN U. P. Tatemae and Honne: A study of moral relativism in Japanese Culture. In Geilen U. P., Adler, LL. & N.A. Milgram (Eds.). Psychology in International Perspective. Amsterdam: Swets & Zeitlinger.

OKAMOTO M. Y. Dekassegui e Familía: encontros e desencontros. Tese de doutorado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2007.

SAITO J. K. Participação, mobilidade e identidade. In: SAITO, H. (ORG). A presença Japonesa no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz/Edusp, 1980.

TAKAKI N. & BASSANI J. J. O Lugar do Corpo nos Processos de Construção Identitária de Jovens Nikkei. Poiésis – Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade de Santa Catarina, Unisul, Tubarão, v.8, n.14, p.403-426, 2014.

TASHIMA J. N. & TORRES C. V. A Emigração Brasileira para o Japão: passado presente e futuro. Cadernos OBMigra V. 2, n. 1, 2016

 

© 2018 Andressa Maciel Corrêa

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