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Lamen no Brasil

Quando alguém me diz que não gosta de comida japonesa, pergunto se não gosta daquele macarrão, o instantâneo, sabe aquele? o miojo? E na grande maioria das vezes o que ouço como resposta é: “Hummm, miooojo... Adoro miojo!” 

Para quem não sabe, lámen – ou, como é mais conhecido por aqui, miojo –, a refeição preferida de 95% dos estudantes do mundo todo, é um típico prato japonês. 

Claro, não poderia deixar de dizer: ele foi inspirado em um prato chinês, mas foi desenvolvido e popularizado no Japão.

E olha só que curioso: segundo pesquisa, os japoneses elegeram o lámen como sendo a sua maior invenção. Superando coisas do tipo – pasmem: o microchip, o videocassete e o coitado do tamagotchi.

O lámen original, não o instantâneo, é feito à base de macarrão ao caldo de frango ou de porco – leva-se horas e horas para prepará-lo da forma correta. Alguns destes ingredientes vem misturado ao caldo: verduras, legumes, ovo cozido, alga, broto de bambu e pedaços de carne de porco. Por fim, ele é temperado com sal, shoyu ou missô.

(Tem um restaurante que fica na rua da Glória, aqui na Liberdade, na altura da praça central, que faz um lámen delicioso. O local é fácil de ser encontrado porque faz fundo a uma loja lotérica. Mas não se engane pela posição secundária que ele ocupa no terreno, pois seu tempero é divino!) 

Ou seja: o miojo é mais uma comida típica do Japão, mas que tem como matriz algo bem diferente do que estamos acostumados – a sua versão instantânea seria uma super-simplificação.

Refletindo sobre o assunto descobri que os motivos que levam a tal desconhecimento são vários. E o mais curioso deles é a ideia de que o macarrão seja uma criação italiana, e não chinesa, como de fato é.

Seguindo essa linha, um conhecido meu – descendente de italianos, claro – chegou ao ponto de fazer seus pacotes de miojo coando a água do macarrão e, olha só, o polvilhando com o pó do saquinho como se esse fosse queijo ralado. 

Um segundo motivo que o levou a essa confusão são os tipos de miojo que temos disponíveis na praça, como, por exemplo: o sabor pizza, o sabor quatro queijos e, olha só, o sabor molho à bolonhesa.

Para convencer esse meu amigo a preparar seus miojos da forma correta, disse a ele que esses tipos que acabei de citar é tão estranho para a cultura japonesa quanto é para a brasileira, por exemplo, feijoada com peixe cru ou pirão com alga marinha. 

Mas, certamente, o principal motivo que tanto o confunde é o fato de que as raízes da cultura japonesa sejam fincadas a meio mundo de distância do Brasil; o que torna difícil, ou quase impossível, identificarmos todos os detalhes do que faz e do que não faz parte de sua tradição.

Aliás, essa distância é tão grande – mas tão grande – que deixa atrapalhado até os nikkeis que vivem por aqui. Olha só a vergonha que passei num restaurante japonês:

Nesse dia, estávamos eu e alguns amigos – todos nikkeis – esperando por nossos pratos, quando o garçom nos trouxe tigelas de missoshirutofu com cebolinha. 

Bom, seguindo o costume de minha casa, coloquei em minha tigela de missoshiru um punhado de arroz branco. Fiz isso apenas para, segundo minha mãe, dar mais sustância ao prato.

Mas, enquanto misturava o arroz ao caldo, percebi que alguns de meus amigos, alguns clientes e alguns garçons olhavam curiosos para a minha direção. 

Desconfortável com o meu desconforto, meu colega do lado, educadamente, me disse: “Mmm... ééé... sabe... ééé... Mmm... Meu, no Japão, nunca se coloca arroz, assim... ééé... sabe? No missoshiru”. 

Me senti como se estivesse colocando arroz em uma xícara de chá.

 

© 2018 Hudson Okada

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