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Fui ao Japão com 6 anos, estudei e me formei. Hoje sou um cidadão japonês

A história de Clayyton, sansei, hoje com 28 anos, é mais um exemplo de jovens brasileiros que deixaram o Brasil nas décadas de 80 e 90, em direção ao arquipélago japonês atrás da expectativa de uma vida melhor.

Ao contrário dos avós que desembarcaram em  nosso país no início do século XX, como imigrantes ávidos à procura de novas oportunidades e “riquezas” como as autoridades japonesas apregoaram naquela época, os“dekasseguis” daqui tiveram que fazer uma viagem oposta, buscando o Japão como derradeira alternativa à falta de emprego no Brasil, imaginando uma permanência temporária de 3 a 5 anos, mas que para muitos acabou se tornando definitiva, sem passagem de volta.  

As artimanhas do destino fizeram com que os dois fenômenos migratórios viessem a acontecer quase um século depois entre um fato e outro, mas com objetivos semelhantes. No caso dos nossos avós, por uma questão de sobrevivência, eles tiveram que deixar o Japão, que desde a metade do século XIX passava por séria crise provocada pela superpovoação, escassez de terras e tensão social. O governo foi obrigado a adotar uma política de emigração, incentivando a população para buscar novas terras e “riquezas” em outros países. Foi assim que famílias inteiras, inclusive com crianças pequenas, começaram a aportar em terras brasileiras desde 1908.

Seguindo o caminho inverso dos imigrantes do Kasato Maru, nikkeis brasileiros, nos anos 80 e 90, começaram a procurar o Japão como refúgio e tábua de salvação, buscando alternativas ao forte desemprego que grassava no Brasil por força da grave crise econômica que atingira o país. Centenas de nikkeis brasileiros de diferentes idades, com formação escolar e cultural variada e com grau diverso de experiência profissional, fizeram as malas e com a família a tiracolo, desembarcaram no Japão em busca de trabalho. Essa migração foi facilitada pela Reforma da Lei de Imigrantes e Refugiados de 1990 adotada pelo Governo Japonês, pela qual os netos de imigrantes e seus cônjuges passaram a ter também, direito ao visto de longa permanência no Japão, fazendo crescer significativamente o número de nipo-brasileiros que buscaram a sombra segura no país do sol nascente.

Entre esses estava Akira Kogika, então com 30 anos, casado e com filhos pequenos. Em 1995, com o mercado de trabalho cada vez mais restritivo e exigente no Brasil e diante das informações alvissareiras de parentes e colegas que haviam migrado para o Japão, Akira sentiu-se animado a tentar a vida lá, levando consigo toda a família, junto com os sonhos e esperanças de uma vida melhor. Sua esposa Ivete e dois filhos pequenos, Clayyton, 6 anos e Miwa, 4 anos, foram junto, com fé e coragem.

Chegando no Japão, fixaram-se na cidade de Hamamatsu, província de Shizuoka, região que já concentrava um considerável contingente de “dekaseguis”, com a intenção de permanecerem alguns anos,  o tempo suficiente para juntar umas economias que pudessem alavancar algum negócio ou aquisição de imóvel, quando retornassem ao Brasil. Foi na época que não havia as facilidades que se encontram hoje, como lojas com intérpretes, produtos brasileiros em muitas cidades e melhores condições de trabalho.  Trabalhava-se muito naquela época, média de 15 a 16 horas por dia durante 6 dias da semana. A própria economia japonesa passava por uma fase melhor.

Os primeiros anos foram difíceis para a família, como o foram para quase todos os brasileiros que lá se encontravam. Costuma-se dizer que o Japão é um país maravilhoso, o melhor do mundo para se morar, onde tudo funciona impecavelmente, mas que é o pior para se acostumar, para se adaptar. Pensaram em desistir várias vezes, crises de convivência e de relacionamento ocorreram, geradas provavelmente pelo estresse e pelas condições adversas que enfrentaram, desde trabalho pesado e exaustivo a falta de conforto e lazer, sem contar a enorme saudade dos pais, parentes e amigos, até mesmo do Brasil que deixaram, com todas as suas crises e problemas. Que falta fazia uma caipirinha, um churrasco, uma feijoada, até aquela “pelada” no fim de semana!  Mas a garra e o espírito de samurai dos antepassados falaram mais alto nessa hora. Não iam desistir!

A educação dos filhos sempre foi uma das grandes preocupações dos “dekasseguis” ao decidirem viver no Japão. Não sabiam ao certo se matriculavam seus filhos em escolas públicas japonesas ou em escolas particulares brasileiras. Era uma decisão difícil de se tomar, que envolvia outras variáveis complicadas, mas que representava muito para o futuro da criança.

E para Akira e Ivete não foi diferente. As crianças estavam naquela fase importante da alfabetização. Mesmo não tendo certeza se a permanência no Japão seria temporária ou definitiva, prudentemente decidiram matriculá-las em escola pública japonesa, conscientes de que as crianças inevitavelmente encontrariam dificuldades de adaptação. Mas, por outro lado, achavam que elas poderiam interagir com os coleguinhas japoneses desde cedo, absorvendo os usos e costumes e, principalmente, a língua e o sistema de ensino japonês, possibilitando mais chances de prosseguir nos estudos e concorrer em melhores condições no mercado de trabalho. Cresceriam como japoneses; essa sempre foi a intenção de Akira e Ivete.

É sabido que nas escolas públicas o problema de assimilação e aceitação do sistema de ensino japonês sempre foi muito sério. As escolas japonesas costumam exigir muito das crianças e dos responsáveis. São reuniões, afazeres, festas, passeios, visitas do professor em casa, dos pais à escola, até a preparação da marmita, obento. Não se escolhe a escola por vontade própria, simplesmente você é obrigado a matricular a criança na escola mais próxima de casa. E as  crianças já iniciavam o ano letivo com muitos problemas:  falavam em português ou em japonês muito precário, que dificultava sua adaptação e, por consequência, seu interesse pelos estudos. Para piorar, a comunicação entre pais e professores, indispensável em qualquer sistema educacional, era complicada e quase inexistente, porque os pais geralmente não falavam japonês.

Neste caso que ora abordamos, a preferência dos pais pela escola pública deixou claro que o intuito era de que as crianças crescessem dentro da cultura nipônica, com todas as dificuldades que elas pudessem enfrentar.  

Assim, com o apoio dos pais e de professores comprometidos , pode-se afirmar que Clayyton e Miwa se adaptaram bem e tiveram um desenvolvimento escolar elogiável, com a vantagem de não ter perdido o contato com a língua portuguesa, que a convivência com os pais, utilizando só o português em casa, pode proporcionar. Mesmo já na fase mais avançada do sistema, no kotogakko ou ensino médio, onde os filhos já dominavam com fluência o idioma japonês, os pais insistiram no uso do português como idioma doméstico, para que não esquecessem o idioma pátrio. 

Entretanto, é preciso destacar que tanto Clayyton como Miwa não tiveram uma adaptação tranquila no início da fase escolar, no shogakko. A falta de conhecimento mínimo do idioma japonês, o ambiente cultural diverso, a constatação de ijime em certo grau por parte de colegas de classe, entre outros fatores, provocaram um estado de quase pânico nas crianças, a ponto de Clayyton não conter o choro de desespero muitas vezes, na sala de aula ou em casa. Porém, teve a sorte naquela fase complicada, de contar com o apoio e carinho de seu professor que, percebendo sua dedicação e interesse particular pela cultura japonesa, tratou-o com uma atenção especial, dando-lhe apoio e ensinamentos extraclasse, até fora do horário normal.  De tal maneira que Clayyton, com vontade e inteligência, entusiasmou-se pelos estudos, a ponto de apresentar um desempenho elogiável, formando-se com distinção no chugakko e kotogakko, habilitando-o a participar dos concorridos exames seletivos para a Universidade.

Infelizmente, a maioria dos jovens filhos de “dekasseguis” acaba desistindo nesta fase, ao concluir o kotogakko, diante da alta exigência de conhecimento do idioma japonês que o candidato deve possuir para submeter-se às provas de seleção. Clayyton, então com 18 anos, candidatou-se a uma vaga no curso de engenharia mecânica, na Hamamatsu Gakuin University. Foi aprovado e pela boa colocação que alcançou nos exames vestibulares, ganhou uma bolsa de estudo oferecida pela própria Municipalidade. Um grande feito.Após os 4 anos de curso, formou-se com brilhantismo, a ponto de ser  escolhido pelos colegas como Orador da Turma, na cerimônia de formatura.

Naquela oportunidade, ao receber o vídeo da cerimônia de formatura, os avós, tios e primos aqui no Brasil  se emocionaram, orgulhosos, daquele menino que deixou o Brasil com apenas 6 anos, mal dominava o português e quase nada sabia do japonês,  mas graças à sua dedicação e competência e o apoio dos pais, tornou-se um VENCEDOR no país de seus antepassados. Era agora um engenheiro mecânico formado em uma prestigiosa universidade japonesa!

Presentemente, Clayyton é funcionário efetivo de uma conceituada indústria de autopeças, parceira da grande empresa de automóveis Honda. Casou-se há 3 anos com sua colega de escola Kasumi que se formou em Enfermagem e trabalha em um grande hospital de Hamamatsu. Formam um belo e promissor casal, com todos os méritos! E, apesar de tão jovens, já moram em casa própria, outro feito expressivo no Japão, onde qualquer imóvel custa uma pequena fortuna.

A irmã Miwa cursou até o Kotogakko, praticou Kendô na época de estudante, atuou como intérprete (tsuyaku) para os “dekasseguis” e trabalha atualmente na área administrativa de uma empresa metalúrgica. Tem um filho, Ryuma, que acabou de completar 9 anos.  

Poucos dias atrás, pela primeira vez após a arriscada decisão de morar no Japão, exatos 22 anos depois, a família toda voltou ao Brasil para rever os avós, irmã, tios, primos e demais parentes. Uma grande festa foi oferecida a eles, como se fosse uma apresentação formal da nova família aos parentes do Brasil. Foi uma comemoração inesquecível. E, como um final digno do evento, Clayyton fez questão de proferir um discurso de agradecimento em um japonês impecável, levando os convidados à emoção e orgulho por aquele “garoto” que deixara o Brasil  tão novinho, sem nada falar de “nihongô” e sem a  mínima noção do que a vida lhe reservara.

Casado com uma japonesa e diante da posição de seus pais de optarem definitivamente pela permanência no Japão, Clayyton decidiu-se pela nacionalidade japonesa, com a certeza de um cidadão plenamente convicto com a sua identidade e perfeitamente integrado à sociedade nipônica, como a sua própria feição não deixa desmentir. Está com a cara e jeito de um issei!

Esta é a história de um jovem que correu atrás de seu sonho e conseguiu torná-lo uma realidade.

 

© 2017 Katsuo Higuchi

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