Escolha o seu idioma de preferência para tirar o máximo proveito das páginas do nosso Jornal:
English 日本語 Español Português

Fizemos muitas melhoras nas seções do nosso Jornal. Por favor, envie-nos a sua opinião ao escrever para editor@DiscoverNikkei.org!

As múltiplas Identidades da Comunidade Nikkei

Crianças retornadas ou vindas do Japão: desafios e propostas

No contexto das migrações internacionais e especificamente dentro do movimento dekassegui (trabalhadores brasileiros no Japão), podemos destacar as conseqüências dele no desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças, lembrando sempre que elas são participantes passivas dentro desse movimento, sendo que não cabe a elas a decisão de ir para o Japão, permanecer ali ou retornar para o Brasil, mas sofrem todas as conseqüências dessa migração.

Crianças que ficam no Brasil enquanto seus pais vão trabalhar no Japão ou crianças que vivem com os pais no Japão, todas elas, em maior ou menor grau, apresentam dificuldades decorrentes desse processo migratório. Depois de mais de 20 anos do início do movimento, o perfil das crianças vem se modificando, ocorrendo o mesmo com as crianças retornadas, o foco da palestra de hoje. Atualmente, o grande contingente dessa população é de crianças que nasceram no Japão, sendo o Brasil um país completamente novo e desconhecido para elas, podendo caracterizá-las como novos imigrantes. O fator complicador no estudo delas se deve à grande dificuldade de localizá-las: não se sabe ao certo quantas são, para que lugar do Brasil estão vindo, enfim, onde elas estão.

O estado geral com que estas crianças chegam ao Brasil e como o processo de (re)adaptação vai ocorrer depende de como foi a sua estada no Japão, incluindo uma série de fatores, a começar pela localidade em que esteve ou residiu no Japão pois a infra-estrutura de recepção de estrangeiros varia de cidade e de província, o acesso ou não às escolas brasileiras, não apenas o acesso econômico já que as mensalidades são onerosas, mas a existência ou não dessa opção pois elas existem em locais de maior concentração de brasileiros. O tipo de “acolhimento” da escola japonesa, o tempo e a qualidade de permanência no Japão, a faixa etária em que foi para o Japão ou retorna de lá, a nacionalidade da criança, o funcionamento da família, postura dos pais, redes sociais existentes, entre outros acabam influindo grandemente na qualidade de vida que teve no Japão.

Refletindo um pouco sobre as dificuldades que vivenciaram enquanto essas crianças e adolescentes estiveram morando no Japão, podem ser destacados: experiências de preconceito e discriminação, dificuldades com idioma e cultura, com relacionamentos, pouco preparo dos professores japoneses em relação ao ensino de crianças que vivem em ambientes bi ou multicultural, entre outros. Uma questão que tem sido bastante comentada atualmente é em relação às crianças chamadas de “double limited”. Esse termo tem sido preferido pelos especialistas que relutam no uso da palavra “semi-língue”, embora com o mesmo significado. A criança chamada double limited, não possui domínio em nenhum dos idiomas (japonês ou português) e tem sido observado um grande contingente de crianças e adolescentes brasileiros nessa condição, especialmente nesses últimos anos.

Para que a criança adquira, no seu desenvolvimento, a capacidade de pensar, especialmente o pensamento abstrato, ela necessita, obrigatoriamente, de um idioma num determinado estágio de aquisição, sendo que essa aquisição é lenta conforme estudiosos no assunto. As interrupções, mudanças e transferências escolares podem agravar o problema, além do que podemos destacar também que a língua traz consigo toda carga cultural, a conotação afetiva sendo que a apreensão e a aprendizagem exigem uma postura ativa da criança ou do adulto, para que ocorra.

Embora o preconceito étnico seja universal, o receio ou medo em relação a algo ou alguém diferente também seja uma tendência humana, algumas sociedades se mostram um pouco mais flexíveis, plásticas do que outras e disso depende o nível de “stress” a que é submetido o estrangeiro. A tendência de considerar os parâmetros da própria cultura como aplicável a todas as outras, ou o etnocentrismo, dificulta a aceitação de um grupo minoritário. Assim, numa sociedade homogênea como a japonesa, observa-se uma grande tendência de imposição do próprio idioma e sistema de valores desrespeitando os valores da cultura de origem das crianças além de atos discriminatórios, preconceituosos, mesmo em grupos de crianças pequenas.

Em relação à alta taxa de “evasão” escolar entre brasileiros no Japão, podemos questionar se é, de fato, evasão ou se elas não são excluídas na e da escola. Elas vão tendo várias dificuldades dentro da escola, vão se sentindo cada vez mais “fora” da dinâmica escolar e do convívio com colegas e acabam por serem excluídos da escola. Nessas condições, adaptados ou não, quando chegam ao Brasil, (re)começam todo o processo. Na dúvida se é melhor se estar aqui ou lá, entre idas e vindas, já não encontram o seu lugar. Sem encontrar nenhuma infra-estrutura de apoio em sua chegada, cada um “resolve” à sua maneira, buscando as prórpias estratégias de readaptação, funcionais ou não, dentro de suas possibilidades. Mesmo os aparentemente adaptados, carregam sinais de estratégias não muito saudáveis, seja mantendo distância com o meio, sem muito encolvimento afetivo, auto-estima baixa, muitas vezes negando um dos lados do conflito.

Um trabalho de intervenção está sendo implantado e conduzido pelo ISEC (Instituto de Solidariedade Educacional e Cultural) em parceria com a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. Esse projeto está sendo denominado “Projeto Kaeru” e tem como objetivo oferecer um trabalho de intervenção psicológica, social, psicopedagógica e de acompanhamento e reforço escolar, às crianças do ensino fundamental da rede pública do estado que, em decorrência do movimento de trabalhadores brasileiros ao Japão, no seu retorno, apresentam dificuldades na aprendizagem, pouco conhecimento da língua portuguesa, dificuldades nas relações interpessoais, de (re)adaptação à sociedade brasileira, dificuldades essas que acabam gerando como conseqüência problemas sérios ao seu desenvolvimento, aos seus familiares, às escolas e a todos aqueles que convivem com elas.

A situação acaba ficando mais complicada por não haver nenhum infra-estrutura de recepção obrigando as famílias e as próprias crianças a buscarem por elas mesmas, estratégias de “sobrevivência” em todos os sentidos.

Experiências em trabalhos de intervenção demonstram a importância de se criar uma interlocução entre o aluno, a escola e a família, criando-se assim, um “tripé” que servirá de base para propiciar um desenvolvimento integral à criança. Há jovens que trazem consigo a demanda de manter o conhecimento adquirido no Japão (observa-se que existe uma certa facilidade em se perder o que foi aprendido, especialmente a fluência do idioma japonês) e que poderá ser um recurso adicional importante para o seu desenvolvimento. Outros jovens demandam maior contato com os pais e projetos podem ser desenvolvidos para permitir essa situação. Há jovens que apresentam dificuldades por falta de estimulação e outras que sofrem de ansiedade de estresse pós-traumático, após experiências de discriminação e maus-tratos.

É necessário lembrar que os professores brasileiros precisam ser também preparados para não cairmos na mesma cilada do etnocentrismo, já que esses professores também não possuem experiências ou especialização no ensino da criança bilingue e acabam imponmdo o idioma, os valores culturais e formas de comportar com uma alegação questionável de que isso facilitaria a aprendizagem e adaptação mais rápida.

Esse trabalho vem sendo desenvolvido gratuitamente dentro das escolas, ducação com o apoio da Fundação Mitsui Brasileira. Nesse estágio estamos recebendo respostas dos apelos que lançamos a todas as diretorias de ensino do Estado de São Paulo, com um perfil das crianças retornadas em cada unidade escolar. As demandas que podem ser atendidas prontamente, estão sendo solucionadas, outras, de maior complexidade, estão sendo estudadas, já que nesse primeiro momento, não temos condições de atender a todas as crianças e a todas as demandas, mas estudando formas de inteervenção à distância e estratégias de formação de multiplicadores em diversas locailidades.

* Kyoko Yanagida Nakagawa foi palestrante na mesa intitulada "A vida dinâmica dos migrantes entre Brasil e Japão—Perspectivas no Brasil" no Simpósio – 100 anos de Imigração Japonesa: As múltiplas identidades da Comunidade Nikkei realizado pelo Discover Nikkei em São Paulo no dia 20 de Setembro de 2008.

© 2008 Kyoko Yanagida Nakagawa

Brazil children dekasegi education migration

Sobre esta série

Uma série de artigos de palestrantes do Simpósio Descubra Nikkei - "100 Anos de Imigração Japonesa: As Múltiplas Identidades da Comunidade Nikkei", em São Paulo, em 20 de setembro de 2008.