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Kizuna 2020: Bondade e solidariedade nikkeis durante a pandemia da COVID-19

Laços que se fortalecem na comunidade nikkei em meio à pandemia — Parte 1

Laços que se fortalecem na comunidade nikkei em meio à pandemia — Parte 1
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A vida nova em Londrina

Um ano atrás exatamente, eu decidi sair de São Paulo, cidade onde nasci e cresci, e me mudar para Londrina, no Paraná. Aposentada há 19 anos e já com 73 anos, achei que foi uma decisão bem pensada.

A razão de minha mudança deve-se ao fato de Londrina ser o lugar onde estão as minhas raízes, pois foi aqui que o meu avô materno conseguiu com muito sacrifício o seu pedaço de terra, onde hoje se situa o bairro Jardim Honda. Também foi aqui que a minha mãe passou a juventude e onde meus pais se casaram e começaram a nova vida. Os parentes são em pequeno número e moram aqui a Hatsuko san, esposa do meu tio do lado materno e dois primos.    

Desde janeiro deste ano eu ouvia falar do novo coronavírus, mas achava que era um problema de surto acontecendo em países bem longe daqui e foi assim que me mudei em 26 de fevereiro, sem nenhuma preocupação para começar uma vida nova em Londrina.

Mas duas semanas depois, de repente, foi decretado o isolamento social por conta da propagação do novo coronavírus na região. A minha casa estava em reforma, na cozinha faltava a bancada da pia e nos aposentos a mobília estava incompleta. Diante disso, achei complicado viver nessa casa e resolvi passar uma temporada na casa de Hatsuko san.

Houve, no começo, situações embaraçosas, mas com o passar dos dias Hatsuko san e eu fomos nos entendendo, nos ajudando, sempre pensando no bem-estar uma da outra e assim o tempo foi passando. Também foi durante o isolamento que passei por uma experiência maravilhosa, que somente uma situação dessas poderia proporcionar. Quero compartilhar aqui alguns dos acontecimentos e descobertas que me emocionaram durante esse período.

Hatsuko san e o isolamento social

Ela é uma senhora de 81 anos, alegre e muito ágil, que toda semana frequenta a academia e as aulas de ginástica para a terceira idade e que faz suas compras sozinha. Mas depois que começou o isolamento domiciliar, ela passou a ter momentos de depressão, sua pressão arterial subiu e mostrava estar irritada com frequência. “Preciso ir ver como está lá fora” – dizia assim e saía para andar pela vizinhança e quando encontrava uma pessoa procurava puxar conversa.

Acho que ninguém é capaz de aceitar com facilidade uma situação como a que estamos vivendo, e Hatsuko san me preocupava.

Passados alguns dias do isolamento, uma antiga conhecida lhe telefonou: “Acabo de ganhar inhame novo, vou mandar minha filha entregar aí”. À noite, Hatsuko san se esmerou preparando para o jantar um delicioso Imo no nikkorogashi, prato japonês com inhame cozido no caldo de shoyu e açúcar.

À medida que passavam os dias, tornaram-se rotina as conversas de Hatsuko san ao telefone. Eram com as colegas da academia, os conhecidos do kenjin kai, os parentes, as vizinhas da mesma idade, e assim ela foi recuperando a alegria de antes.

Uma vizinha que mora na mesma rua adotou um costume assim: primeiro telefona “Tô indo”. Em seguida, corre até a frente do portão deixando ali uma sacola com limões e abacates e sai rapidamente. Duas irmãs e um irmão de Hatsuko san levam bolos e pães feitos em casa, mangas apanhadas no quintal, nikuman (bolinho chinês no vapor)e makizushi (sushi em rolo) que andaram ganhando e repartem com Hatsuko san e ela, por sua vez, retribui com a sua famosa conserva de acelga japonesa.

Em respeito ao distanciamento social, permanecem no portão, sequer tiram as máscaras e todos se despedem sem aquele abraço bem à moda brasileira - uma cena inédita até agora e que eu vi algumas vezes. Foi maravilhoso ver que Hatsuko san foi recuperando a alegria diante dessas manifestações de solidariedade, em que as pessoas cumprem o isolamento social, ajudam-se mutuamente, estreitando os laços que as unem.


Um convite inesperado da igreja  

Em São Paulo eu congregava na Igreja Evangélica Holiness do Bosque, assim, chegando aqui comecei a frequentar a Holiness de Londrina. A Igreja Evangélica Holiness foi fundada em São Paulo em 1925, com a chegada de um pastor do Japão com a missão de evangelizar os imigrantes japoneses. A igreja de Londrina foi construída em 1938 e conta atualmente com 204 membros, dos quais 181 são japoneses e descendentes.

Eu fui muito bem acolhida pelos irmãos e irmãs da igreja e tenho passado por momentos abençoados participando das aulas de estudo bíblico aos domingos de manhã, ouvindo as mensagens dos pastores com tradução em japonês, cantando hinos e louvores em japonês. Embora a minha língua nativa seja o português, gosto muito de ouvir sobre as coisas de Deus em japonês. Após o culto temos o almoço, onde podemos saborear pratos do agrado geral como karê e yakissoba, ao mesmo tempo que conversamos sobre vários assuntos, como uma grande família.

Acontece que menos de um mês depois da minha mudança, todas as igrejas de Londrina tiveram de cancelar as atividades presenciais por conta da epidemia. De repente, os encontros de que tanto gosto tiveram de ser suspensos! Desse modo, comecei a assistir às mensagens dos pastores e cultos on-line e oro para que possamos voltar a nos encontrar logo.

Uma semana e meia depois que começou o isolamento social, a pastora Dilma Yahiro entrou em contato comigo: “Sabe que a igreja começou a costurar máscaras? Como a quantidade é grande, precisamos da ajuda de costureiras. Você sabe costurar?”

A Igreja Evangélica Holiness de Londrina organizou a campanha “SOS Máscaras” com o propósito de confeccionar 10 mil máscaras para serem doadas a hospitais, profissionais de saúde e instituições que atendem idosos.

Desde jovem eu tenho costurado roupas como saia e blusa para mim, mas como essas máscaras são para uso de profissionais de saúde, a princípio pensei ser impossível, mas acabei aceitando com alegria porque eu estaria ajudando como voluntária na campanha da igreja.

Falei para Hatsuko san do projeto e como ela trabalhou durante muitos anos como costureira, de bom grado me emprestou a máquina de costura e cedeu as linhas. Em 2 semanas eu pude terminar 90 máscaras. A igreja contou com um grande número de colaboradores e voluntários, desde o corte do material até a confecção das máscaras, o que fez com que atingisse a meta de doar mais de 10 mil máscaras, para honra e glória do Senhor!

Logo depois, uma irmã de Hatsuko san soube que eu tinha costurado máscaras e me mandou o molde de uma máscara que foi publicado numa matéria do jornal local. Esse molde foi desenhado por um artista plástico nikkei de Londrina e se ajusta muito bem ao rosto. Imediatamente costurei algumas para mim.

Uma sobrinha de Hatsuko san que trabalha em hospital soube dessas máscaras e logo encomendou dez – para ela e suas colegas –, e as primas que precisam usar máscara no trabalho quiseram oito. Soube pela televisão que Londrina foi a primeira cidade do Brasil a tornar obrigatório o uso de máscaras.

Fico feliz de poder ser útil, mesmo que seja com essa pequena ajuda. Esta foi uma experiência memorável, que tornou o tempo de isolamento social muito proveitoso.

Laços de amizade que se estreitam

Já faz uns 4 anos que todas as manhãs costumo escrever para 11 amigas usando o aplicativo do smartphone. Na mensagem, além de “Bom dia! Que o seu dia seja abençoado por Deus!”, eu sempre acrescento um versículo da Bíblia e uma oração. Até então 4 das 11 amigas me respondiam imediatamente: “Muito obrigada! Isto é um incentivo para começar o dia”. Com o início da pandemia, continuei enviando no mesmo feitio, mas verifiquei que agora todas as 11 me retornam numa demonstração de grande empatia: “Muito obrigada! Hoje também vamos seguir com fé! Você também se cuide!”. Quanto mais se aprofundam os laços, mais aquecido fica o nosso coração. E justamente por estarmos nessa situação, isto faz muito bem!

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© 2020 Laura Honda-Hasegawa

Brazil covid-19 Igreja Evangélica Holiness do Bosque Kizuna 2020 Londorina SOS Máscaras

Sobre esta série

Em japonês, kizuna significa fortes laços emocionais. Em 2011, convidamos nossa comunidade nikkei global a contribuir para uma série especial sobre como as comunidades nikkeis reagiram e apoiaram o Japão após o terremoto e tsunami de Tohoku. Agora, gostaríamos de reunir histórias sobre como as famílias e comunidades nikkeis estão sendo impactadas, respondendo e se ajustando a essa crise mundial.

Se você deseja participar, consulte nossas diretrizes de envio. Receberemos envios em inglês, japonês, espanhol e/ou português e estamos buscando diversas histórias do mundo todo. Esperamos que essas histórias ajudem a nos conectar, criando uma cápsula do tempo de respostas e perspectivas de nossa comunidade Nima-kai global para o futuro.

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Embora muitos eventos em todo o mundo tenham sido cancelados devido à pandemia da COVID-19, percebemos que muitos novos eventos apenas online estão sendo organizados. Como são online, qualquer pessoa pode participar de qualquer lugar do mundo. Se a sua organização Nikkei está planejando um evento virtual, poste-o na Seção de Eventos do Descubra Nikkei! Também compartilharemos os eventos via Twitter @discovernikkei. Felizmente, isso ajudará a nos conectar de novas maneiras, mesmo quando estamos todos isolados em nossas casas.