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ITADAKIMASU, GOCHISOSAMA e outros valores

Matías, que vem a ser nosso genro argentino, na primeira vez que esteve em nossa casa foi recepcionado com um almoço caprichosamente preparado pela Cecília, minha esposa. À mesa, convidado para iniciar a refeição, fez um comentário que, de pronto, rendeu pontos positivos para ele junto à família. Disse ele: “Os japoneses fazem uma reverência - itadakimasu – antes das refeições, que considero uma atitude das mais significativas!” e complementou: “Viajei ao Japão algumas vezes a trabalho e, toda vez que ouvia essa expressão dita pelos japoneses nos restaurantes, ficava admirado. Qual seria o significado? pensava eu.”  

E, naquela ocasião, logo após o comentário que fez, com a desenvoltura de um nativo, juntou as mãos, inclinou a cabeça e disse firmemente: Itadakimasu!  Os demais convivas, a família toda, inclusive as minhas netinhas, diante do inusitado, mas elegante gesto do convidado, acompanharam-no para dizer em uníssono: “Itadakimasu !!!“.

Matías sabia que aquela atitude fazia parte dos costumes e da etiqueta gastronômica dos japoneses.

Mas, curioso que era e admirador da cultura nipônica, não se contentou apenas com a explicação que lhe fora dada na primeira oportunidade que conheceu o Japão.  Conversando com vários nativos e pesquisando por conta própria, ficou sabendo que esse simples gesto que tanto chamou sua atenção, tinha raízes nos princípios budistas e xintoístas que influenciaram intensamente a cultura e o modo de ser dos japoneses. Como ficou evidente no respeito que a população tem por todos os seres vivos e que representa, a rigor, uma forma de agradecimento aos animais e às plantas que se sacrificaram para que ele pudesse desfrutar da refeição. O agradecimento envolve também todos aqueles que contribuíram para que aquela comida chegasse à sua mesa, incluindo os agricultores, produtores, pescadores e os que prepararam a comida.  

Há um ditado japonês que enfatiza e sintetiza bem o agradecimento a todos os elementos que compõem a comida de cada dia:

Okomehitotsubu hitotsubu ni wa, nana-ri no kamisama unde iru.Que vem a ser: “7 Deuses vivem em um único grão de arroz. “

Ficou sabendo que Junto com a expressão Itadakimasu, que pode ser entendido como “gratidão por estar recebendo a comida”, uma outra é proferida depois das refeições. É o termo Gochisosama, que seria “agradecimento pela refeição”. As duas saudações são ditas individualmente, em voz baixa ou em silêncio, acompanhadas de mãos unidas como se fosse uma oração. Tais gestos podem ser comparados à tradição cristã de orar antes das refeições em agradecimento a Deus pelo alimento recebido.

Todo esse simbolismo calcado na filosofia budista, procura enaltecer o valor que os japoneses dão à comida e a necessidade de se evitar o desperdício. Nunca se deve deixar comida no prato. Toda vida é sagrada, até um grão de arroz!

Ainda em sua peregrinação, Matías se viu surpreendido diante da riqueza de matizes da cultura japonesa com valores profundamente enraizados e que são transmitidos em tudo o que fazem e encantam em cada momento e cantinho que se visita.

Uma delas é a DISCIPLINA. A imagem que se tem sobre os japoneses de ser um povo inteligente e organizado tem mais relação com atitudes do que com a genética. A disciplina parece que nasce junto com eles, mas também é ensinada desde cedo, dentro da casa, nas escolas e pela própria sociedade. Já faz parte do jeito de ser dos japoneses. Característica que pode ser vista com muita ênfase na educação. O ensino é muito valorizado. Os jovens se destacam pela dedicação aos estudos, que fazem sem o sentimento de obrigação, por entenderem que é importante para eles mesmos.

E essa DISCIPLINA se aplica em qualquer outra área da vida, não só na educação. Na vida profissional, familiar, esportes, projetos pessoais, relacionamentos, entre outras.

O respeito no trânsito, com os pedestres; as ruas e calçadas limpas, a estrita ordem nas filas, a pontualidade nos compromissos, são alguns exemplos da postura dos cidadãos nipônicos.

Outra característica que se destaca é a HIERARQUIA, ensinada aos jovens na escola, onde aprendem respeitar as pessoas com mais idade, os pais e professores. Valor que é replicado na vida em sociedade, na forma de relacionar-se, de falar com um amigo, com o chefe ou diretor. O respeito, ou seja, a hierarquia, é levada muito a sério no Japão.

ESPIRITO DE COLETIVIDADE. Diferentemente de países ocidentais, mais individualistas, o Japão vive de forma mais coletiva. Em função de ser um país sujeito a desastres naturais, como terremotos, tufões, tsunamis, as crianças já aprendem a se importar com os outros, a trabalhar de forma coletiva, a se ajudarem mutuamente.

Veja o exemplo das crianças sendo responsáveis pela limpeza das próprias salas de aula; ou a vizinhança se reunindo para limpar as ruas e parques.  Ou, na tragédia do tsunami em Fukushima, onde o espírito de coletividade e solidariedade se fez presente, ajudando a minorar a dor dos sobreviventes.

Um conceito que tem chamado a atenção aos olhos de ocidentais é o OMOTENASHI que, em síntese, é a hospitalidade ou a arte de bem receber.

Mas, é algo mais profundo, que vem de dentro das pessoas.  É uma atitude de transparência, em que não se espera nada em troca, apenas o prazer de bem servir para a plena satisfação de quem recebe o serviço.

Omotenashi é como se fosse uma coisa óbvia, natural para os nativos, como já fizesse parte de sua maneira de ser. Mas para os estrangeiros chega a encantar e causar espanto.

Pode ser representada de várias formas, como a pontualidade dos trens públicos, a limpeza do espaço comum, a gentileza dos atendentes de lojas, hotéis e aeroportos; a luva branca dos motoristas de táxi, a não cobrança de gorjeta.

Percebe-se sua aplicação até nas atividades empresariais, em setores como “atendimento a clientes, no pós-venda” na área comercial.

Com certeza, os privilegiados visitantes dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, perceberão in loco o que vem a ser Omotenashi. 

Como fecho deste texto é preciso citar um valor dos mais admirados que é IKIGAI, que vem a ser, grosso modo, o segredo japonês para uma vida longa e saudável.

Segundo o neurocientista Ken Mogi, “Ikigai é a razão do viver”. É o motivo que faz você acordar todos os dias alegre e disposto.

O conceito surgiu em Okinawa, no Sul do Japão, famosa por suas belezas naturais, pelo povo animado e hospitaleiro.  E pela longevidade de sua população que apresenta uma expectativa de vida acima da média, mesmo para os padrões japoneses.

Por sua vez, o escritor Miralles define ikigai como “a felicidade de sempre ter algo para fazer, de se sentir ocupado e que dá sentido à sua vida. Isso o faz seguir em frente e o manter motivado “.

A beleza do ikigai é que é algo muito pessoal, diz Mogi. “Não é algo dado a você, de forma passiva. Você precisa explorar sua mente e buscar o seu ikigai”,diz ele.  

Mas, para isso não há necessidade de se mudar para Okinawa. Você precisa apenas entender a essência do conceito e torná-la parte do seu cotidiano.

Com o beneplácito dos leitores, vou-me permitir acrescentar, de última hora, em função dessa pandemia terrível que assola o mundo, mais um aspecto da tradição japonesa, um pouco mais recente, mas que tem muito a ajudar, tão logo voltemos às nossas atividades normais. É a prática da SHINRIN YOKU.

Diante do estresse e da vida sedentária aos quais estamos impostos nos dias de hoje, a prática do Shinrin Yoku traz inúmeros benefícios à nossa saúde. A saúde é um fenômeno que envolve aspectos fisiológicos, psicológicos e sociais. Nesse sentido, uma tradição japonesa valoriza o contato com a natureza e mostra que ele possui propriedades terapêuticas e faz muito bem para a saúde.  Dá-se o nome de Shinrin Yoku a esse conceito, que significa literalmente “ato de fazer contato e estar na atmosfera da floresta”. Ou, simplesmente, “um banho de floresta”!

O efeito causado pelo ambiente florestal, essa ligação do homem com a natureza, através de uma  caminhada sem pressa pela floresta, pelo bosque ou até por um parque arborizado, onde a pessoa possa sentir o cheiro das árvores, da terra, das plantas e flores e ouvir sons de pássaros, de galhos estalando e do vento, envolvendo os 5 sentidos humanos, faz um bem muito grande.

Segundo os cientistas, proporciona uma melhora do sistema imunológico, diminuiu a pressão arterial, a ansiedade, depressão e estresse e, consequentemente, traz um bem-estar às pessoas. Muito necessário e importantíssimo neste momento que vivemos, da pandemia do coronavírus. 

Enfim, a cultura japonesa é multifacetada, com tradição milenar, cheia de fascínio e encantamento, que apresenta muitas outras características e valores, cada qual com o seu significado e importância.  Fica a sugestão ao querido Matías de aprofundar-se na pesquisa. Tenho a certeza que não se arrependerá!

P.S.: Camila e Matías, tempo depois, casaram-se em cerimônia budista.

Camilia e Matías casam em cerimônia budista

 

© 2020 Katsuo Higuchi

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