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Comemoração do Dia Internacional do Nikkei no Brasil

Comemoração do Dia Internacional do Nikkei no Brasil
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O Dia Internacional do Nikkei é comemorado no dia 20 de junho. Neste ano, conforme a situação mundial, as celebrações aconteceram em outros formatos.

Na cidade de São Paulo, a data foi incluída no calendário oficial de datas comemorativas e eventos por meio da Lei 17.169/2019. De acordo com o texto da lei, “com o objetivo de debater e incentivar a preservação da tradição e dos valores culturais da Sociedade Nikkei, para que seja possível transmitir o legado dos pioneiros da Imigração Japonesa no Brasil”.

A Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), por meio do Projeto Geração, organizou uma transmissão ao vivo pela internet, que contou com atrações culturais e depoimentos de representantes da comunidade nikkei.

“A comemoração do Dia Internacional do Nikkei no Brasil pode gerar algumas reflexões”, afirma Ricardo Nishimura, 43 anos, sansei, presidente da Comissão Kakehashi Japão-Brasil, divisão do Bunkyo responsável pelo Projeto Geração e pela organização do evento. “Conscientização sobre a palavra ‘nikkei’ e seu significado; entendimento de que o estereótipo ‘japonês’ no Brasil é o nikkei, que pode representar a soma de duas culturas: Japão e Brasil; reconexão ou fortalecimento da conexão dos nikkeis à cultura japonesa e a importância de sua manutenção; reavivar o orgulho de ser nikkei; e estimular os não nikkeis simpatizantes da cultura japonesa a comemorarem junto essa data”, completa.

O evento teve participação de pessoas de diversas regiões do país e também do Japão, Estados Unidos, Peru e Argentina. Eles apresentaram músicas, danças tradicionais, ilusionismo, comédia stand-up, enquanto muitos outros interagiam por meio do chat em tempo real.

Bastidores da transmissão ao vivo do evento.

“Minha percepção é de que a maioria dos nikkeis no Brasil, exceto aqueles que estão engajados nas atividades da comunidade, não têm conhecimento da comunidade nikkei em outros países. Portanto, essa integração acontece de forma pontual nos eventos internacionais, onde os participantes geralmente são pessoas que estão engajadas na comunidade. Então, ao apresentar artistas nikkeis de outros países no Dia Internacional do Nikkei, levamos ao público a existência da comunidade nikkei fora do Brasil”, explica Alexandre Kawase, 40, sansei, coordenador do evento.

Para a realização do evento, houve contato entre diversas entidades nikkeis no Brasil para debates e gravação de depoimentos e das apresentações culturais. “A pandemia e a situação de confinamento social levaram as pessoas a se adaptarem ao esquema de home office e a se comunicarem através de reuniões virtuais. Todos os membros da comissão organizadora já estavam bem adaptados a essa nova realidade. Isso nos deu mais agilidade e flexibilidade para marcar as reuniões de trabalho e coordenar as atividades da comissão organizadora”, explica Kawase.

“A modalidade virtual também nos permitiu fazer um evento, de fato, internacional. Conseguimos acessar artistas do Peru, Argentina, Havaí e Japão. Pelos relatórios do YouTube e Facebook, constatamos que tivemos audiência em diversos países. Tivemos o depoimento de personalidades, o que talvez não seria possível em um evento presencial. Além disso, mobilizamos um grupo de apoiadores de diversas cidades do Brasil, o que foi fundamental para obtermos tamanha audiência”, completa.

Oito valores

O evento foi em grande parte pautado pela apresentação de oito valores que caracterizam a comunidade nipo-brasileira. Os debates para se chegar ao resultado final começaram em 2018 e envolveram representantes da comunidade nikkei. “Foram realizados 17 encontros em 10 diferentes cidades: São Paulo, Londrina, Curitiba, Manaus, Campo Grande, Presidente Prudente, Promissão, Maringá, Porto Alegre e Salvador”, aponta Kawase.

“Para discussão dos oito valores, tivemos a participação fundamental e estratégica do professor André Saito, conselheiro da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento. Através de técnicas da Gestão de Conhecimento, aplicamos um workshop com a participação de mais de 500 pessoas pelo Brasil”, conta Nishimura.

Workshop do Projeto Geração.

Os workshops, basicamente, começavam a partir de histórias de vida em que houve influência da cultura japonesa. Delas, identificaram-se palavras-chave relacionadas a valores, princípios e tradições da cultura japonesa. Finalmente, as palavras mais marcantes e presentes no dia a dia foram escolhidas.

“Com o conjunto de palavras de valores, uma comissão formada por especialistas em língua japonesa e a Comissão Kakehashi Japão-Brasil iniciou o processo para separar os valores de maior relevância e seus significados, chegando assim aos oito valores nikkeis no Brasil”, completa Nishimura.

Os oito valores destacados são coletividade, integridade, perseverança, respeito, aprendizado,gentileza, responsabilidade e gratidão.

Elemento familiar

Os valores atribuídos à comunidade nikkei também foram a base de inspiração para a criação da identidade visual do evento.

Criação do logo foi inspirada no bambu.

“Sobre a criação da logomarca, me inspirei no sentimento que os primeiros imigrantes japoneses tiveram ao partir para um mundo totalmente desconhecido. E o bambu era o único ser familiar”, conta Gilmar Nashiro, 62, nisei, diretor da empresa NK2 Branding & Design. “Ao me aprofundar nas pesquisas sobre o bambu, notei que as suas virtudes tinham muito a ver com os valores praticados pela comunidade nikkei.”

A empresa frequentemente trabalha com a comunidade nikkei, desenvolvendo a comunicação visual para eventos e empresas.

“Como designer, tenho grande influência do design japonês. Por isso, procurei mostrar o bambu de forma sutil, mas com personalidade. Todos os elementos gráficos foram cuidadosamente pensados, como fazem os japoneses. Tudo que fazem consomem primeiramente com os olhos. Além da fidelidade das cores, a posição da folha simboliza equilíbrio, e a letra ‘A’ em branco é também uma seta apontada para cima, indicando o movimento para o grande objetivo de vida”, completa Nashiro.

Atenção

A comunidade nikkei, ocasionalmente, recebe críticas referentes a suposto sentimento de superioridade em relação a outros grupos sociais. O assunto foi abordado no evento.

“Ao exaltar esses valores, no fundo, estamos falando de virtudes praticadas pela comunidade nipo-brasileira. A olhos externos, talvez pudesse soar como um autoelogio, o que não era a nossa intenção. Por essa razão, convidamos para fazer os depoimentos personalidades não nikkeis que tiveram histórias marcantes relacionadas à cultura japonesa”, afirma Kawase.

“Durante a organização do evento, tomamos o cuidado de identificar questões importantes que deveriam ser esclarecidas ao longo da transmissão. Uma delas era justamente a de não transparecer a impressão de superioridade. Nossa visão é a de que os oito valores apresentados são universais, não exclusivos da comunidade nikkei. Ou seja, reconhecemos que outras etnias também praticam esses  valores. A diferença é que cada etnia pratica um conjunto diferentes de valores e também os manifesta de formas diferentes”, completa.

Outra crítica que, vez ou outra, é direcionada aos nikkeis é a de preterir o lado brasileiro. “Outra questão importante que foi debatida é o fato de dar a entender que temos mais orgulho do nosso ‘lado japonês’ do que do ‘lado brasileiro’. O professor Clóvis de Barros lembrou que ‘é imprescindível que saibamos que somos todos brasileiros’ e ‘que os nikkeis entendam sua responsabilidade e que, como brasileiros, não economizem esforços para a construção de um país mais justo, de um país mais digno, de um país melhor’. [A empresária] Chieko Aoki ressaltou que os nikkeis possuem um DNA duplo, o brasileiro e o japonês, e destacou as qualidades que herdamos de ambos os lados”, continua Kawase.

Brasil e Japão

O movimento dekasegi é um fator importante na formação da identidade do nikkei brasileiro. Embora nem todos tenham essa experiência, é seguro dizer que a grande maioria tem um parente ou amigo que foi ou está trabalhando no Japão.

“Cheguei ao Japão em 1988. Muitos queriam ficar temporariamente e retornar ao Brasil, porém, hoje muitos já são residentes e não retornam mais”, afirma o cantor Joe Hirata, 52, sansei.

A oportunidade de viver duas culturas é frequentemente atribuída aos nikkeis. Viver no Japão por algum tempo pode trazer uma nova perspectiva para tal aspecto. “Acredito que quem vai ao Japão acaba descobrindo que somos como qualquer outro brasileiro; fazemos parte dessa miscigenação de raças que é o Brasil, mas carregamos um aprendizado de nossos pais e avós, uma cultura japonesa bem tradicional e mais antiga, um pouco diferente da atual cultura no Japão. Quem morou no Japão tem mais profundidade para entender isso vivendo o dia a dia ao lado dos japoneses. Hoje, tenho mais segurança de dizer quem sou e o que posso aproveitar de melhor das duas culturas”, conta Joe.

“Cresci minha infância e adolescência sendo chamado de ‘japonês’ e sempre alimentei o sonho de ser cantor no Japão por achar que era meu país. Quando fui atrás desse sonho e cheguei no Japão, descobri minha verdadeira identidade. Sou um nikkei brasileiro com orgulho, mas, acima de tudo, um brasileiro”, conta Joe. “Não me enquadrava nos costumes e pensamentos dos japoneses. Eu respeitava, mas sempre procurava mesclar o jeito sistemático do japonês com a capacidade de adaptar do brasileiro.”

Em 1993, Joe Hirata obteve o primeiro lugar no NHK Nodojiman, tornando-se o primeiro estrangeiro a alcançar a vitória no conhecido concurso de calouros.

“Quando participei do NHK Nodojiman, sempre fui chamado de ‘nikkei burajirujin’. Era assim que eles me viam e é o que realmente sou: um nikkei brasileiro”, destaca.

Newkei

O termo “newkei” foi utilizado para designar pessoas não descendentes de japoneses que se interessam e, de alguma forma, vivem a cultura japonesa e nipo-brasileira.

“Em 2018, conversei com um diplomata do Consulado Geral do Japão em São Paulo a respeito das discussões sobre estender o termo ‘nikkei’ para não descendentes de japoneses adeptos da cultura japonesa, pelo entendimento de que se trata de um grupo importante para a manutenção da cultura japonesa. Concordei que, de fato, é um grupo importante, mas que, na minha visão, o termo nikkei, por definição, está ligado ao fato da pessoa ser descendente de japoneses e que talvez ficaria estranho estender a não descendentes. Sugeri que seria mais adequado pensar em um novo termo para representar esse grupo”, explica Kawase.

“Meses depois, ainda em 2018, participei de um concurso de monografia com o tema ‘Causas e consequências da imigração japonesa no Brasil’, promovido pelo jurista Kiyoshi Harada para estimular os jovens a pesquisar sobre a história da imigração japonesa no Brasil. Ao escrever a monografia, me lembrei dessa conversa com o diplomata e, então, criei o termo ‘newkei’”, completa.

De fato, a presença de não descendentes em cursos de idioma, atividades culturais e eventos relacionados à cultura japonesa é notável e progressivo. “A participação de não descendentes nas atividades e eventos da comunidade nikkei é muito importante. Visualizamos que o fenótipo japonês não se manterá por muitas gerações e, dessa forma, percebemos que os valores nikkeis podem ser elementos que possam ser passados de geração a geração, levando junto a conscientização da importância da manutenção da cultura japonesa”, afirma Nishimura. “Esse processo de vivência dos valores nikkeis do dia a dia pode ser algo aproveitado pelos não nikkeis simpatizantes da cultura japonesa, e, dessa forma, eles são inseridos cada vez mais nas entidades nikkeis.”

Cantando em japonês, português...

No encerramento do evento, o grupo Juntos em Um Só Coração cantou a música “Ue wo Muite Arukou”, lançada originalmente no Japão em 1961 pelo cantor Kyu Sakamoto. O grupo contou com a participação por 20 cantores, entre nikkeis e não nikkeis.

Grupo Juntos em Um Só Coração é formado por cantores de várias regiões do país.

“A ideia surgiu durante uma conversa com a Isa Toyota (de Campinas-SP) e com a Lika Kawano (Salvador-BA) na época em que essa pandemia começou. Na época conversávamos sobre as tristes consequências da Covid-19, percebendo muitas pessoas angustiadas, tristes, deprimidas, sofrendo muito com as perdas. Então surgiu a ideia de fazermos algo para levar positividade, amor, fé e esperança a todos”, conta Takeshi Nishimura, 36, nisei, coordenador do grupo para este evento.

Durante a transmissão, houve músicas cantadas em português, espanhol, japonês e inglês, tanto composições originais como versões. “Acredito que isso representa a universalidade da música. A música envolve sentimentos e sensações, ultrapassa fronteiras e culturas. Sinto essa integração do nikkei muito forte quando me deparo com amigos não descendentes cantando e dançando músicas japonesas ou então tocando taiko, aprendendo e ensinando japonês”, diz Takeshi.

“[Sobre os músicas cantadas em diversos idiomas] É a afirmação de que somos nascidos em nosso país de origem e, mesmo com nossos traços orientais, temos o direito de interpretar a música de nosso país tanto quanto qualquer outra pessoa. Preservamos a cultura de nossos ancestrais com muito orgulho, mas não podemos esquecer que devemos batalhar para conquistar nosso espaço em nosso país natal.

Se fizéssemos o contrário, se só cantássemos músicas japonesas, talvez estaríamos dizendo, aos olhos de outras etnias, que somos japoneses, estrangeiros”, avalia Joe.

Continuidade

A comissão organizadora da transmissão ao vivo para celebrar o Dia Internacional do Nikkei no Brasil planeja continuar suas atividades no futuro.

“O Projeto Geração continua com o objetivo de divulgar os valores nikkeis brasileiros e para pensarmos na forma como um conceito pode ser aplicado no comportamento das pessoas no dia a dia. Para isso, contaremos com educadores e outros profissionais para gerarmos essa ligação. Além disso, os encontros do Projeto Geração continuam, pois, ao longo de sua aplicação, percebemos que o workshop em si revelou-se um excelente exercício de reconexão das pessoas com suas histórias, valores e princípios, e para despertar um interesse maior ainda entre os não nikkeis simpatizantes da cultura japonesa”, finaliza Nishimura.

Saiba mais:

Link da transmissão (YouTube)

Projeto Geração

Sobre “Newkei”

 

© 2020 Henrique Minatogawa

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