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Kizuna: Histórias dos Nikkeis sobre o Terremoto e Tsunami no Japão

Lembrando: O Grande Terremoto e Tsunami do Leste do Japão 10 Anos Depois

Lembrando: O Grande Terremoto e Tsunami do Leste do Japão 10 Anos Depois
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Nesse último dia 13 de fevereiro, um terremoto de magnitude 7,1 ocorreu em Fukushima. Eu fiquei paralisado. O suor frio e uma sensação familiar de pânico voltaram com toda a força.

Flashback: 11 de março de 2011. 

Eu me lembro claramente de acordar para ir para a escola e receber um telefonema esquisito e alvoroçado da rádio CBC pedindo um comentário sobre o terremoto e tsunami no Japão. “O que diabos estava acontecendo?” eu me perguntei, irritado com a interrupção de manhã cedo. Eu passei a manhã inteira na escola preocupado em achar alguns momentos livres para checar as notícias do Japão, especificamente de Tohoku. Vi então imagens aterrorizadoras de ondas negras e rodamoinhos horripilantes levando casas inteiras num emaranhado de artigos domésticos e carros; imagens surreais do aeroporto internacional de Sendai submerso, como também de centenas de quilômetros da costa do Pacífico na qual eu havia viajado tantas vezes sendo tragados pela água em poucos minutos. As linhas telefônicas e as conexões da internet haviam caído ... estava faltando eletricidade ... lembrei que o terremoto de Hyogo-ken/Nanbu de magnitude 7,2 que destruiu grande parte de Kobe havia ocorrido em 17 de janeiro de 1995, matando 6.000 pessoas ... Como estavam os meus amigos e a minha família em Tohoku?

Pois então, quando a editora do [Descubra Nikkei], Yoko Nishimura, me pediu recentemente para escrever alguma coisa sobre o 10º aniversário do ocorrido em 11 de março, eu inicialmente fiquei surpreso com o fato de tanto tempo já ter passado. Como estamos todos lidando com o estresse e os medos causados pela pandemia do COVID-19 e a lenta implementação das vacinas, é importante lembrar que a esperança existe.

Em 2011, os meus contatos principais eram a cineasta/artista Linda Ohama (Vancouver), Lorne Spry (Sendai), Tsutomu Nambu (Sendai) e Shogo Horiuchi (Minamisoma), que mora na sinistra sombra da Usina Nuclear Daiichi em Fukushima. A narrativa que se desenrolou – bom, pelo menos no começo –  teve como foco a morte, a destruição e o pavor de outro total colapso nuclear e uma catástrofe como a de Chernobyl. Algumas subtramas mais positivas (por exemplo, os esforços de voluntários) viriam à tona mais tarde, mas no começo era só morte, morte, e mais morte, destruição, e uma enxurrada de vídeos do Youtube mostrando o furioso e indiscriminado poder da natureza.

Ah, 10 anos depois ... Nós precisamos realmente lembrar dos sobreviventes de 11 de março, aqueles que continuam lutando para se manter nos vilarejos costeiros. Como no caso da pandemia do COVID-19, é difícil achar um raio de luz quando lidamos com algo incontestavelmente catastrófico e que destrói a vida dos “mais vulneráveis”, como sempre dizemos. Como em qualquer tragédia, a força moral que desponta em algumas pessoas é o que acho mais encorajador.

Linda Ohama de Vancouver arregaçou as mangas e criou uma campanha de arrecadação de fundos na sua cidade para ajudar as vítimas. Ela organizou um “projeto colcha de retalhos” para ajudar as crianças [no Japão], e chegou até a escrever e dirigir o documentário Tohoku no Sengetsu sobre os sobreviventes do terremoto e do tsunami. A granja da família de Shogo Horiuchi em Minamisoma, [na Prefeitura de] Fukushima, foi danificada pela enchente provocada pelo tsunami. Lorne Spry e Tsutomu Nambu em Sendai [na Prefeitura de Miyagi] também passaram pelos seus próprios suplícios.

O número final de mortes causadas pelo terremoto e tsunami de magnitude 9-9,1 foi de 15.897, além de 2.527 pessoas que continuam desaparecidas.

* * * * *

O canadense Lorne Spry (Sendai, Miyagi-ken)

Cortesia de Lorne Spry.

Como Estão as Coisas 10 Anos Depois?

Receber um pedido para escrever em apenas umas poucas palavras como você se sente dez anos depois do “Grande Terremoto do Leste” não é uma coisa trivial. Aqueles de nós que se mantiveram a salvo depois do mais forte terremoto já registrado tiveram que passar apenas por noites de insônia e inconveniências desagradáveis. Mas sabíamos que 20.000 pessoas haviam sido tragadas pelo mar ou soterradas debaixo de lama e escombros. Aquele horror foi tão gritante que atingiu a fundo cada residente de Tohoku. Todos que estavam vivos naquele dia permanecerão afetados para sempre. Milhões de nós continuam cientes que uma instalação nuclear arruinada e cercada de escândalos quase fez com que o Japão se tornasse um estado falido.

Dez anos depois, a evidência continua flagrantemente óbvia. Paisagens inteiras foram modificadas. Centenas de quilômetros da linha costeira foram alterados, não só pela natureza, que afundou 1,2 metro da costa, mas também pela engenharia humana. A costa de Tohoku é uma muralha de defesa contínua, parcialmente nova e parcialmente reconstruída. As ilhas locais, onde no passado se encontravam escolas e famílias, estão agora rodeadas de muralhas, deixando as belas praias e tambo [arrozais] nas sombras. Apenas os idosos permaneceram lá. O trabalho despendido na reforma de todo um litoral é surpreendente. Periodicamente, a população costeira vasculha as rochas e a areia, e às vezes encontram restos mortais de algum dos desaparecidos.

Muitas centenas de milhas do litoral, do interior e das ilhas foram reconstruídas depois que o solo do oceano afundou 1,2 metros.  Cortesia de Lorne Spry.

Eu não sou uma pessoa nervosa, mas durante anos cada tremorzinho era como se fosse uma injeção de adrenalina involuntária. Isso acabou só recentemente. Aí então, às 23h07 de 13 de fevereiro de 2021, a casa começou a sacudir estrondosamente. As coisas estavam caindo por todo lado e as mesmas perguntas me vieram à cabeça como em 2011. Será que vai piorar? Quando é que vai parar? E o que é que está acontecendo na usina nuclear?

Quando acabou, eu estava me tremendo todo—mais do que em 2011. No Japão, a terra está sempre sacudindo em algum lugar. Às vezes, ela se mexe mais do que em outras—muito mais. E todo mundo sabe disso.

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Shogo Horiuchi (Minamisoma, Fukushima-ken)

Cortesia de Shogo Horiuchi

O seu irmão ainda cultiva arroz na sua plantação?

Não, o meu irmão não. Mas membros da minha família estão cultivando arroz lá agora.

Como é que as coisas mudaram para você e a sua família depois de 11 de março?

A vida diária da minha família ficou muito mais ligada a desastres do que era antes do desastre [de 11 de março]. Mesmo agora, terremotos acontecem frequentemente; então passamos a [entrar em contato com todos para] assegurar prontamente que a nossa família, parentes e amigos estão são e salvos.

Em 2021, o que você quer que os canadenses e americanos saibam sobre o dia 11 de março?

Primeiro de tudo, eu quero que vocês se conscientizem da importância de agir rapidamente para proteger a sua vida no caso de um desastre. Em segundo lugar, eu gostaria que vocês pensassem mais sobre a questão da energia nuclear.

(esquerda) Instrumento de medição de radiação. (Direita) Geradores de energia eólica instalados há cerca de dois anos. A praia fica a cerca de 1 km da casa dos pais de Shogo. Foto tirada em 13 de fevereiro de 2021. Cortesia de Shogo Horiuchi

Quais as suas esperanças para o futuro de Fukushima?

Uma solução em breve para os problemas da energia nuclear. Eu gostaria de ter uma vida tranquila no futuro; o nome Fukushima seria então esquecido pelo resto do mundo.

Obrigado pelo seu apoio desde a época do terremoto. Graças a todos, vamos nos recuperando aos poucos. Muito obrigado. ARIGATO!

Arrozais e painéis solares. Os painéis solares foram instalados três ou quatro anos após o terremoto. Cortesia de Shogo Horiuchi

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Tsutomu Nambu (Sendai, Miyagi-ken)

Cortesia de Tsutomu Nambu

Lembrando 10 Anos Depois do Grande Terremoto do Leste do Japão

O apoio que nós, as pessoas que vivem nas áreas afetadas, recebemos do país e do exterior, tanto material quanto emocional, é algo que eu nunca vou esquecer, especialmente agora quando paro para pensar nos 10 anos do Grande Terremoto do Leste do Japão.

Fiquei muito comovido com as atividades de arrecadação de fundos que tiveram início um dia depois do terremoto e que foram organizadas principalmente por grupos nipo-canadenses por todo o Canadá. A [publicação canadense] Nikkei Voice me deixou informado sobre o que estava acontecendo no Canadá com respeito ao Japão. Além disso, Norm Ibuki, que é meu amigo desde 1997, quando ele estava no Japão, me enviou um e-mail escrevendo sobre o concerto beneficente “Ganbare Japan” em Vancouver e um “projeto colcha de retalhos” com mensagens, ambos organizados por Linda Ohama.

Um dia, eu recebi outro e-mail de Norm dizendo que tinha uma pessoa querendo que alunos canadenses do ensino fundamental criassem mensagens de apoio em colchas de retalho que seriam então enviadas às crianças nas áreas devastadas. Ele disse que Linda iria para Natori, [na Prefeitura de] Miyagi, em junho e perguntou se tinha alguém que poderia ajudá-la. Eu tive que sair buscando por alguém porque eu estava morando em Fukushima naquela época, mas foi em vão. No final, eu mesmo acabei indo. Foi um interessante acaso do destino.

Linda estava levando ela mesma as colchas com as mensagens. Ela visitou as áreas afetadas pelo desastre e desenvolveu um relacionamento com as vítimas. E além disso, ela confortou, encorajou e deu esperança para eles. Eles tinham perdido as suas propriedades e famílias, e não tinham mais energia para continuar vivendo. Ela deve ter parecido uma Madre Teresa para eles.

Para terminar, em nome das pessoas que moram nas áreas afetadas, eu gostaria de agradecer a Linda, aos nipo-canadenses e a todos os canadenses que ainda pensam nos sobreviventes.

Monumento de homenagem erguido em Natori, na Prefeitura de Miyagi. O monumento tem 8,4 metros de altura—a mesma altura do tsunami que atingiu a área. Em frente, há dois murais nos quais estão gravados os nomes das 944 pessoas que perderam a vida como consequência do tsunami em Natori. Cortesia de Tsutomu Nambu.

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Linda Ohama (Vancouver, Columbia Britânica)

Linda Ohama com o seu neto. Cortesia de Linda Ohama.

Quando: 10 anos atrás. O menino Jushi de 8 anos do nosso filme e que havia sido afetado pela radiação está agora com 18 anos. A estudante universitária que perdeu a sua cidade natal em Iwate-ken agora é professora de inglês do jardim de infância e está prestes a se casar. Minhas próprias reflexões sobre as minhas experiências com o povo de Tohoku são melhor expressas nas recentes mensagens vindas deles mesmos. Escutar as suas próprias palavras é o que precisamos fazer. Ao longo de todas as suas dificuldades e perdas e determinação, eles sempre compartilham tanto amor, bondade e consideração, o que para mim define tão bem o caráter do povo de Tohoku. Eu me sinto eternamente grata por ter tantos obaachansojiichans, netos e amigos em Tohoku depois do tempo que passamos juntos, e no futuro vou voltar a vê-los com frequência.

Uma carta de um jovem da linhagem samurai Soma:

Esta semana, eu finalmente consegui me libertar da minha vida de evacuado. Nove anos e seis meses se passaram desde a evacuação causada pelo Grande Terremoto do Leste do Japão e pelo acidente na Usina Nuclear Daiichi de Fukushima. A reconstrução da minha casa acabou de ser completada, e eu retomei a minha vida na minha velha casa em Odaka-ku, [na cidade de] Minamisoma ([Prefeitura de] Fukushima).

Recebemos muito encorajamento e ajuda de todos, desde logo depois da vida como evacuado começar até hoje. Muito obrigado. Muitíssimo obrigado. Quando eu fui evacuado, achei que ou poderia retornar imediatamente ou nunca mais.

Com o apoio do governo, de países ao redor do mundo, da Prefeitura de Fukushima, da cidade de Minamisoma, de famílias, parentes, amigos, gente da cidade, evacuados, trabalhadores de reconstrução vindos de todo o país, carpinteiros nas casas novas, etc. Estou aqui.

“A população atual é cerca de 30 por cento daquela antes do terremoto, e eu passo por certas inconveniências por estar morando em Odaka durante a reconstrução, onde muitos caminhões basculantes ainda vão e vêm todos os dias, mas espero fazer um novo começo e contribuir para a reconstrução do cidade de alguma maneira. Eu vou, sim. Na nova casa, eu criei um espaço específico onde você pode facilmente ficar hospedada. Você pode ficar no segundo andar do jeito que está; pois então, sinta-se à vontade de aparecer por aqui”.

Linda continua: Depois do recente terremoto em 13 de fevereiro, recebi mensagens como esta:

“Estamos todos a salvo, obrigado. Algumas áreas perderam o seu sistema de abastecimento, incluindo eletricidade e água devido ao terremoto da noite passada. Os bipes de alerta da TV avisaram que o terremoto estava vindo e os iPhones continuaram tocando por um minuto. Os livros caíram da estante, uma tremedeira de deixar tonto, e o som estrondoso vindo da terra me lembram mais uma vez daquele dia em 2011. Estamos prestes a ter passado uma década desde aquele dia. Isso pode ter sido uma mensagem para nós das pessoas levadas pelo desastre de 2011, para nos dizer que não podemos ser preguiçosos, para nos manter atentos, para que sejamos gratos e tomemos uma atitude para garantir a segurança de todos e, acima de tudo, para que continuemos a lembrar”.

*O filme de Linda sobre o dia 11 de março, Tohoku no Shingetsu, feito com a cooperação do povo de Tohoku, será exibido online pela Embaixada do Canadá em Tóquio durante a semana anterior a 11 de março de 2021.

 

© 2021 Norm Ibuki

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Sobre esta série

Em Japonês, kizuna significa fortes laços emocionais.

Esta série de artigos tem como propósito compartilhar as reações e perspectivas de indivíduos ou comunidades nikkeis sobre o terremoto em Tohoku Kanto em 11 de março de 2011, o qual gerou um tsunami e trouxe sérias consequências. As reações/perspectivas podem ser relacionadas aos trabalhos de assistência às vítimas, ou podem discutir como aquele acontecimento os afetou pessoalmente, incluindo seus sentimentos de conexão com o Japão.

Se você gostaria de compartilhar suas reações, leia a página "Submita um Artigo" para obter informações sobre como fazê-lo. Aceitamos artigos em inglês, japonês, espanhol e/ou português, e estamos buscando histórias diversas de todas as partes do mundo.

É nosso desejo que estas narrativas tragam algum conforto àqueles afetados no Japão e no resto do mundo, e que esta série de artigos sirva como uma “cápsula do tempo” contendo reações e perspectivas da nossa comunidade Nima-kai para o futuro.

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