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No Brasil. 109 anos.

No Brasil. 109 anos.
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O que você estudou ninguém tira” era ou ainda é uma frase repetida à exaustão às crianças por gerações de pais de origem japonesa nestes 109 anos no Brasil. Se esta é uma máxima válida para todos os tempos e para todas as crianças, para os imigrantes japoneses a ênfase na educação tem significados que foram mudando ao longo do tempo acompanhando a trajetória das famílias que se radicaram no Brasil.

O sonho de retornar rico ao Japão em poucos anos foi compartilhado pelos primeiros 781 japoneses que aportaram do navio Kasato Maru em 1908 e pelos 169.000 pais, filhos, agregados que vieram antes da Segunda Guerra Mundial. Para que isso ocorresse era preciso garantir que as crianças tivessem uma educação semelhante à das crianças japonesas a fim de que não sofressem na sua volta à terra natal. O esforço empreendido pelos pais foi o de sacrificar parte dos poucos ganhos no final do ano agrícola para que os filhos pudessem estudar. Nas colônias agrícolas onde viviam famílias proprietárias de pequenas porções de terra, muitas em regiões onde era preciso desmatar para iniciar o plantio, a construção de uma escola estava entre as prioridades traçadas. Deixar as crianças sem estudo era impensável. Diante das frequentes solicitações de professores e de material didático, o governo japonês através do Consulado em São Paulo criou um órgão – Fukeikai – especialmente voltado para o preenchimento desses pedidos. Chegaram professores que eram mantidos pelos pais dos alunos nas diversas localidades, vinham os mesmos livros dos estudantes japoneses junto com revistas e materiais suplementares para reforçar a leitura e o treino com a língua japonesa. O crescimento é visível: em 1932 eram 176 escolas e em 1938 já eram 476.

A condição de japonês em terras estrangeiras, no entanto, impôs problemas não calculados no início. A convivência com os brasileiros e com imigrantes de outras origens, sobretudo os italianos, adicionou novos ingredientes ao repertório das famílias: a necessidade de comunicação. Desde o início na vida no Brasil ficou evidente que o aprendizado da língua portuguesa era crucial. Neste momento, as crianças passam a ter o papel de intérpretes, de intermediários dos pais com os vizinhos e patrões. Tinham uma jornada diária de estudos entre a escola brasileira e o Nihon gakko.

O que você estudou ninguém tira”. Esta frase ficava cada vez mais verdadeira à medida que o sonho do retorno se tornava cada vez mais distante. Enriquecer e voltar? Difícil, muito difícil. O caminho tinha que ser outro. A única segurança era a de dar educação para que ninguém a tirasse das crianças. Caminhando e muitas vezes descalças, as crianças iam à escola brasileira. Caçoados porque falavam muito mal o português (a maioria delas só começou aos sete anos de idade quando ingressavam nas escolas brasileiras) não desistiam porque os pais insistiam. Os jun nisei e os nisseis foram os responsáveis por introduzir o Brasil levando para mais perto os hábitos, comportamentos, a língua para dentro dos lares japoneses.

O apelo da sociedade que agora viviam era mais alto que a preservação da cultura de origem dos pais. O português começou a ser a língua de comunicação entre os jovens e crianças à medida que avançavam nos estudos, embora dentro de casa ou nos kaikans o japonês fosse a língua predominante. A primeira geração nascida no Brasil viveu intensamente esta duplicidade.

Os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial marcaram a caminhada compulsória na direção da lenta integração na sociedade de adoção. A política de nacionalização iniciada em 1937 proibia o ensino de línguas estrangeiras, os Nihon gakko foram obrigados a fechar a partir daquele ano. Com a guerra, a comunicação em japonês em locais públicos ficou proibida, assim como a circulação de jornais; no auge da guerra, o simples fato de possuir escritos em japonês era motivo para prisão. Os livros, revistas, documentos escritos em japonês se perderam queimados ou enterrados.

A década após o final da Segunda Guerra marcou o inicio de importantes mudanças no seio da comunidade japonesa no Brasil: os chefes de mais da metade das famílias abandonam as atividades agrícolas para se dedicar a ocupações urbanas no setor de serviços que, por um lado exigiam pouco traquejo com a língua portuguesa, mas garantiam tanto o sustento como a educação mais aprimorada que as escolas rurais não podiam oferecer. São pais e mães que se dedicam ao pequeno comércio como quitandas, mercearias, barbearias, tinturarias. Seus filhos podem frequentar escolas nas cidades do interior ou, com muito sacrifício dos pais, escolas na capital.

Estudar, estudar continuou sendo a saída para garantir um futuro seguro na etapa depois da guerra. Os rapazes se dedicando a carreiras de preferência consideradas nobres como a advocacia, a medicina, engenharia, as moças se preparando para um mínimo de independência financeira voltando-se para cursos de corte e costura, de cabeleireiras. Muitas moças já na década de 1950 ingressavam em cursos superiores como profissionais especializadas. Isso ninguém iria tirar deles: nem guerras, nem a discriminação que tantas vezes os acompanhou. Um advogado de “olhos puxados” atuando em tribunais? Ou um deputado falando em português na Câmara dos Deputados do Brasil? Ou um professor universitário dando aulas a estudantes brasileiros?

Sim, são os filhos dos tintureiros, dos pequenos comerciantes esses personagens. São as crianças que iam descalças à escola rural, as crianças que ensinaram as primeiras palavras do português aos pais, que sofreram discriminação dos colegas. É a geração nissei bilíngue que por força das circunstâncias adotou o português como língua principal, que se casava com pessoas da mesma origem, trabalhando não só em profissões de nível superior, mas também em ocupações urbanas técnicas de nível médio. Curioso o número elevado de contadores de origem japonesa na cidade de São Paulo.

Precisa matar um japonês para entrar na faculdade” era uma frase comum nos anos 1960 e 70 entre estudantes brasileiros visando o ingresso em faculdades, especialmente aquelas mais concorridas como medicina e engenharia. Quem é esse “japonês”? São os filhos da terceira geração que herdaram dos pais a incumbência de estudar, estudar para ascender socialmente de forma definitiva. Desta vez era o diploma universitário o meio para alcançar a sonhada “riqueza” dos primeiros imigrantes, só que dentro do Brasil. Os descendentes desses imigrantes não são donos de fortunas, mas genericamente como membros da classe média que foram adquirindo seus imóveis, automóveis, por esforço próprio. Os empreendimentos dos pais foi trocado pelos escritórios, pelos canteiros de obras, pelos consultórios.

Familia Nikkei Brasileira na Atualidade

O caminho dos estudos é óbvio para os descendentes desta geração e das subsequentes. No século 21 os descendentes de japoneses não se distinguem na sociedade brasileira a não ser por seus sobrenomes que muitas vezes vêm mesclados a de outras origens. A partir do momento em que se processava a integração, mais e mais os casamentos ocorreram para fora da comunidade e os filhos são cada vez menos identificados como “japonês”. São japoneses quando são “especialistas” em temas ligados ao Japão como a culinária ou os animes. A língua japonesa é praticamente desconhecida para quase todos os da quarta e quinta geração. As gerações do século 21 já têm escritores e poetas reconhecidos como representantes da arte de escrever em português. Poucos são os que frequentam atividades organizadas pela comunidade como os kaikans que tiveram papel central para a sociabilidade no passado.

Academia Nipo-brasileira de Escritores

A insistência dos antepassados que aportaram no Brasil desde o Kasato Maru em 1908 não foi em vão: passados 109 anos os nikkeis brasileiros que são estimados em cerca de um milhão e meio ocupam espaços em todos os setores da vida nacional, espalhados por todo o território de mais de oito milhões de quilômetros quadrados, gigante país, heterogêneo do ponto de vista geográfico, social, étnico. O Brasil é um mosaico de paisagens físicas e humanas no qual os descendentes dos imigrantes japoneses são parte ativa no cenário das transformações que o país atravessou por todo o século 20. Destacaram-se, sobretudo, na introdução de práticas agrícolas inovadoras, nas artes plásticas, em comportamentos herdados do passado, dentre os quais o valor da educação como ferramenta para assegurar escolhas que o mundo contemporâneo abre nas mais diferentes direções. Isso “ninguém tira”.

 

© 2017 Célia Sakurai

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