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Reflexões de um Yonsei...

no 10º aniversário do Descubra Nikkei

no 10º aniversário do Descubra Nikkei
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Março 2015 marcou o 10º aniversário do lançamento do site Descubra Nikkei. Yoko Nishimura, a Gerente do Projeto Descubra Nikkei, me pediu para escrever um artigo para comemorar a ocasião. Passei mais de um ano procrastinando e relutando a escrever. Agora que estamos prestes a terminar as nossas comemorações do último ano, eu me vejo forçada a arregaçar as mangas.

Inicialmente, a minha intenção era escrever algo ligado diretamente à história e às realizações do projeto. Mas esse plano acabou não dando em nada. Enquanto eu debatia sobre como escrever sobre um projeto que tem sido como um filho para mim, finalmente me veio na cabeça que eu estava abordando o assunto da maneira errada. Apesar do Descubra Nikkei oferecer um montão de fatos e informações importantes para os seus leitores, o seu lado mais forte se encontra no compartilhamento de histórias pessoais e na formação de conexões entre pessoas de todo o mundo.

Comecei então a pensar nas minhas próprias conexões e histórias pessoais. Eu fiquei pensando no que eu mais gosto sobre o Descubra Nikkei, e me lembrei de algo da minha infância que talvez seja uma boa explicação do porquê me sinto tão ligada ao projeto.

Quando criança, eu era extremamente tímida e introvertida. Eu era uma leitora insaciável, um traço que peguei da minha avó materna nissei que estava sempre lendo alguma coisa. Não importava o quê. Ela lia jornais, o [tablóide vendido em supermercados] National Enquirer, romances, revistas de romance (minha família tem muitas histórias engraçadas sobre como era comprar estas revistas para ela), e até mesmo meus livros infantis.

A minha mãe também lê muito, apesar de que eu acho que na maioria das vezes em japonês, já que ela cresceu no Japão depois da guerra. Eu acho que peguei a minha sede de conhecimento da minha mãe. Ela usava cartões de desconto cartões de desconto para comprar um daqueles dicionários bem grandes e pesados que ela usava (e ainda usa) para ajudá-la a aprender inglês e para procurar palavras, especialmente quando está fazendo palavras cruzadas.

A minha mãe ficava em casa enquanto o meu pai trabalhava duro—às vezes nos sete dias da semana. Eu respeitava os meus pais e não ficava sempre pedindo algo, mas uma coisa que eles sempre compravam para a gente sem hesitação era livros. Eu não sei se ainda é assim, mas quando eu estava na escola primária, eles costumavam distribuir formulários de encomenda da Scholastic Books. Eu escolhia aqueles que eu queria e obtinha o dinheiro dos meus pais. Cada vez que isso acontecia, eu ficava aguardando o dia dos livros chegarem. Eu então enchia a minha mochila com o meu tesouro e caminhava uma quadra até a minha casa.

Uma vez, eu ingenuamente pensei que minha profissão ideal seria bibliotecária. Mas isso foi porque eu achava que teria acesso a livros os quais eu poderia ficar lendo o dia inteiro. A gente não frequentava muito a biblioteca, não sei por que; então eu tinha a minha própria coleção de livros e, eventualmente, acabei virando a minha própria bibliotecária. Eu lotei as minhas estantes com os livros que eu havia comprado ou que a minha família havia me dado, e uma vez cheguei a abrir a “Biblioteca da Vicky & June” (June é minha irmã, que eu incluí em muitos dos meus projetos ao longo dos anos). Eu não me lembro exatamente como foi, mas eu mantive a biblioteca por uns dois anos. No seu auge, eu tinha um carimbo de data, publicava boletins datilografados (que o meu pai levava para o trabalho e fazia cópias para mim), e ainda organizava concursos de desenhos de marcadores de livros, eventos e pequenas arrecadações de fundos para que eu pudesse comprar mais livros. Os membros da nossa biblioteca eram familiares e alguns amigos. Eu acho que fiquei esgotada depois de um ano ou por aí. Eu ainda tenho os boletins originais.

As cópias originais das Notícias da Biblioteca, escritas e criadas por mim em 1983, aos 12 anos de idade.

Agora, ao lembrar da minha biblioteca, vejo muitos paralelos com o meu trabalho no Museu Nacional Japonês Americano, e especialmente no Descubra Nikkei. Nós coletamos e compartilhamos histórias. Nós organizamos programas, enviamos boletins eletrônicos e apresentamos concursos. Felizmente, nós contamos com muitos outros que trabalham em grupo para construir, manter e fazer crescer este projeto. Pois então, mesmo sem eu poder trabalhar neste projeto tanto quanto antes, ele continua prosseguindo com toda a força. A minha irmã June tem sido uma voluntária inestimável no Descubra Nikkei.

Às vezes acho irônico que Yoko e eu somos responsáveis por manter e fazer crescer uma rede mundial quando nós duas nos sentimos mais à vontade longe do centro das atenções, apenas fazendo o nosso trabalho. Como alguém introvertida, eu me sinto muito mais à vontade conhecendo outras pessoas virtualmente, apesar de que foi agradável conhecer alguns de vocês pessoalmente. Apenas em pequenas doses...

De maneiras diferentes, trabalhar neste projeto me forçou a sair da minha zona de conforto. No decorrer dos anos, eu tive que fazer apresentações sobre o Descubra Nikkei e conhecer muitas pessoas novas. Antigamente eu ficava muito ansiosa, e duvido que algum dia eu vá me sentir completamente confortável com isso. Por outro lado, poder falar sobre um projeto do qual eu sinto um orgulho tão grande me traz confiança; por isso, agora não é mais aquela agonia de antes.

Já que confrontos geram uma ansiedade extrema dentro de mim, eu nunca vou virar uma ativista. Mas sinto que através do Descubra Nikkei, eu fiz a minha parte para ajudar a mudar o mundo de forma positiva ao apresentar as narrativas das lutas de indivíduos e suas histórias. Tenho orgulho da série Kizuna que reuniu histórias nikkeis de apoio ao povo japonês após o terremoto e tsunami em Tohoku. Tenho orgulho de uma história que publicamos recentemente, escrita por uma  por uma nikkei argentina sobre o sequestro do seu paisobre o sequestro do seu pai durante o último golpe militar na Argentina, a qual se destaca como um exemplo devastador do que pode acontecer quando permitimos que o ódio e a intolerância dos outros subam ao poder.

As outras realizações das quais eu tenho mais orgulho são a expansão da seção do Jornal (quando começamos a desenvolver esta seção, eu tive que pedir, implorar, e buscar histórias para compartilhar—e isso tudo para postar apenas um artigo por semana!), a criação da série Crônicas Nikkeis, e o estabelecimento de relações mais profundas com contribuidores, apoiadores e organizações. O banco de dados de taiko sempre vai ter um lugar no meu coração, porque entrar em contato com os grupos de taiko e inserir os dados iniciais estiveram entre as minhas primeiras tarefas quando comecei a trabalhar no projeto.

Nos últimos 10 meses, posamos perguntas diferentes à nossa comunidade Nima-kai. Achamos as respostas interessantes e mais do que gratificantes. Obrigado a todos que se deram ao trabalho de nos enviar suas respostas todos os meses. Sua participação, palavras de apoio e apreço, e ideias sobre como podemos continuar a fazer crescer o Descubra Nikkei tem maior importância para nós do que vocês poderiam imaginar.

Ficamos animados ao descobrir que muitos dos contribuidores do nosso site têm interagido não apenas conosco, mas também uns com os outros. Alguns expressaram interesse em maiores oportunidades para que os membros da nossa comunidade Nima-kai se encontrem em pessoa. Apesar do meu lado introvertido se rebelar contra essa ideia, o meu lado organizador e colecionador acha que é uma boa ideia. Então, quem sabe? Talvez eu consiga convencer a Yoko a bolar algo—para o nosso aniversário de 20 anos, se estivermos todos ainda por aqui.

Obrigada do fundo do coração a todos que ajudaram a fazer com que o Descubra Nikkei se tornasse algo muito especial no decorrer dos últimos 11 anos. Por favor, continue a compartilhar histórias vindas do seu coração, das suas famílias e das suas comunidades. Aguardo ansiosamente para descobrir o que mais vou ter a chance de aprender!

 

© 2016 Vicky Murakami-Tsuda

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Sobre esta série

Vicky Murakami-Tsuda é Gerente de Comunicações do Museu Nacional Japonês Americano. Ela é uma “auto-denominada” yonsei do Sul da Califórnia que vem de uma grande família estendida, que adora trabalhar no JANM (especialmente no Descubra Nikkei), curtir boa culinária, passar o tempo com a família, visitar o Facebook, ler, e numa época que ela tinha mais tempo e energia ainda era uma artista que explorava a cultura e a história nipo-americanas através dos seus trabalhos artísticos. Esta coluna inclui diversas reflexões sobre a sua vida e o mundo ao seu redor.