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A MEIA DISTÂNCIA: Modelos Nipo-brasileiras e o Status “Haafu” Adquirido

Nikkeis brasileiros e suas famílias começaram a desembarcar massivamente no Japão no início dos anos 90 atraídos pelo sonho de guardar dinheiro trabalhando no país por alguns anos e, por outro lado, “empurrados” para fora do Brasil por causa da situação econômica brasileira então.

Com os anos, estes trabalhadores temporários no Japão, conhecidos como dekassegui ou nikkei burajirujin (brasileiros nikkeis) tornaram-se cidadãos de segunda classe, empregados para preencher as vagas na força de trabalho da indústria japonesa e vivendo em enclaves étnicos brasileiros nessas áreas industriais.

Entre tantos outros exemplos, este movimento está implicitamente ligado com o que chamamos de globalização, o que é, de certa forma, um sistema que transfere riquezas de uma parte do planeta para outra, levando populações empobrecidas dos campos para as cidades, e daí para países distantes.

No Japão, essa combinação de manobras econômicas criadas para manter o estilo de vida de sua sociedade e a situação econômica pelo globo tem cobrado o seu preço. Até agora foram duas décadas de imigração de brasileiros, com mudanças repentinas e desafiadoras impostas à sociedade japonesa e ao próprio imigrante nikkei.

Das questões resultantes destes movimentos de populações pelo mundo temos agora a questão da multi-etnia no Japão.

Um dos principais motivos para este fenômeno aconteceu a pelo menos cem anos atrás quando os japoneses começaram a migrar para as Américas, contribuindo na formação multi-étnica nas regiões onde se estabeleceram.

Desta vez, porém, são os filhos e netos desses imigrantes pioneiros que estão gradualmente trazendo sua multi-etnia de volta para o Japão, um país onde a grande maioria da população apresenta uma aparência física que, pelo menos em um primeiro momento, aparenta ser etnicamente homogênea.

Essa ideia de homogeneidade étnica ou aparência homogênea no Japão, reconhecida também por seu ex-primeiro ministro Taro Aso ao dizer que o Japão é “um país de uma só raça”, enfatiza os que são diferentes, mesmo quando esta diferença é sutil, como é o caso dos indivíduos conhecidos no país como “haafu” (corruptela do inglês half), um termo com conotação geralmente positiva e valorizada relacionado àqueles cuja aparência é uma mistura de japonês com ocidental, ou asiático com branco. Nesta categoria encaixa-se o mestiço nikkei do Brasil.

Para falar sobre diferenças na aparência física e os conceitos relacionados a elas, enfoquei um grupo que, acredito, exemplifica muito bem alguns destes conceitos: os nipo-brasileiros que trabalham como modelos no Japão.  

Para mim estas jovens moças representam um caso interessante dentro deste tópico porque elas são “haafu” cuja imagem alcança o main stream da sociedade através do mass media em um contexto próximo e realista, e cujo passado pessoal, na maioria dos casos, é de dekasseguis e imigrantes que viveram ou que continuam, em parte, vivendo à margem desta mesma sociedade.

Assim como a gerente de uma agência de modelos em Tóquio especializada em “haafu” descreveu, “No mundo da propaganda a imagem do modelo 'haafu' representa uma versão superior e internacional do próprio japonês.” Se esta é a ideia que está sendo vendida, aparentemente as pessoas estão aceitando-a, especialmente a população mais jovem do país.

De acordo com o gerente de outra agência, até a um ano atrás os modelos nipo-brasileiros “haafu” ocupavam cerca de 5% do segmento no país, uma proporção que tende a crescer levando-se em conta a abundância de nipo-brasileiros no Japão e o fato de eles estarem mais ou menos familiarizados com os costumes locais, facilitando e agilizando às agências  todo o processo de casting, treinamento e acomodação. E isso se reflete na sociedade - em Tóquio podemos vê-los em todos os lugares a qualquer dia, impressos ou transmitidos, com sua imagem relacionada ao belo, o moderno e o cool.

Na TV e nas páginas das revistas eles são produtos empregados para materializar ideias que promovem e vendem, porém enquanto performam este trabalho, acabam também promovendo uma imagem positiva e sedutora do “haafu” diante dos olhos dos consumidores, ou seja, diante dos olhos da sociedade.

É interessante também observar que especialmente no mundo da indústria e da mídia, mais do que uma condição étnica, ser “haafu” é uma ideia que inclui também indivíduos que não são biologicamente “haafu” mas que podem ser vendidos como tal.   

O exemplo dos modelos nipo-brasileiros também mostra que o ideal “haffu” no Japão está também associado à condições não somente sociais mas também geográficas. Na maioria dos casos, os modelos nipo-brasileiros são ex-trabalhadores de fábrica ou têm suas famílias trabalhando em fábricas no Japão. E quando uma dessas garotas deixa a grande capital Tóquio para visitar parentes e amigos em enclaves étnicos brasileiros como a cidade de Hamamatsu e as províncias de Aichi, Gunma e Gifu ou em qualquer outra área altamente industrializada, ela deixa de ser considerada um indivíduo “haafu”. Ao invés disso, ela “torna-se” dekassegui ou nikkei burajirujin porque para o cidadão comum nessas áreas esta é a categoria na qual sua aparência física se encaixa em primeiro lugar.

Porém, quando esta nikkei burajirujin está de volta à metrópole, andando por bairros de alta classe como Azabu ou Aoyama, ninguém a confundirá com um imigrante que trabalha em fábrica  porque em Tóquio ela estaria de volta às condições sociais e geográficas as quais a fazem ser reconhecida pela sociedade à sua volta como “haafu”.

Assim, este trabalho pretende chamar atenção ao fato de que nos conceitos étnicos em formação no Japão, uma mesma aparência física pode ser considerada de formas diferentes em grande parte por influência do contexto em que esta aparência física é apresentada pelo mass media ao cidadão comum.

O escritor americano George Trow mencionou uma vez que em uma sociedade há várias teias que mantém sua cultura, com a teia individual de um lado e a teia do mass media do outro. E quando o conceito de meia distância desaparece, o indivíduo passa a relacionar-se e a comparar-se diretamente ao mass media e ao mundo apresentado por ele.

Então, enquanto os modelos nipo-brasileiros “haafu” representam um bom exemplo das várias pontes étnicas que podem levar a uma consciência transnacional na sociedade japonesa contemporânea, sua imagem também coloca em questão o tipo de transnacionalidade que está sendo construída. O quanto dela é real? E o quanto dela é imaginária?

© 2010 Ricardo Yamamoto

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