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Descubra Nikkei no Brasil - Comemorando o Centenário da Imigração Japonesa

O ano de 2008 marca o centenário da imigração japonesa ao Brasil. No dia 18 de junho de 1908, 793 pessoas a bordo do Kasato-maru chegaram ao porto de Santos para começar uma nova vida numa nova terra. Para os atuais 1.5 milhão de brasileiros de descendência japonesa, o Kasato-maru é o seu Mayflower e um símbolo de sua história e identidade.

O centenário foi comemorado no Brasil e no Japão. No Brasil, a cultura japonesa foi literalmente desfilada pelas ruas como parte do carnaval. Os dançarinos vestidos em trajes de samurai e de geisha se moviam ao ritmo de samba na frente de um carro alegórico gigante representando o Kasato-maru. Mais tarde, no inverno [do hemisfério sul], as comemorações do centenário foram marcadas com uma série de eventos semanais que culminaram com a visita do príncipe da casa real japonesa.

No Japão, a rede de televisão NHK transmitiu uma mini-série dramática sobre imigrantes japoneses no Brasil, “Haru to Natsu”. Também naquele país foi lançada uma moeda comemorativa de 500 yens com – o que mais poderia ser – uma imagem do Kasato-maru em um lado.

Mas além de todos os festivais, programas de TV e intercâmbios internacionais, o centésimo aniversário deu boas razões para que fossem examinadas as realizações dos nipo-brasileiros e suas contribuições à sociedade brasileira, como também os obstáculos que tiveram que superar.

Descubra Nikkei participou do centenário, organizando um simpósio em São Paulo no dia 20 de setembro de 2008. O simpósio teve como título “100 anos da Imigração Japonesa: As Múltiplas Identidades da Comunidade Nikkei”. Para o evento, contamos com a colaboração de algumas de nossas organizações afiliadas no Brasil:

Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo) - Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil
Associação Brasileira de Estudos Japoneses

Nós planejamos discutir três perspectivas: as contribuições dos nikkeis aos agronegócios, à arte nipo-brasileira, e também os emigrantes brasileiros que trabalham no Japão, os quais são conhecidos como dekasseguis.

Dois membros da equipe Descubra Nikkei, Yoko Nishimura, a coordenadora do programa, e eu mesmo tomamos o vôo de 12 horas até o Brasil para o simpósio. Nós ficamos hospedados no bairro da Liberdade – o bairro japonês de São Paulo.

O bairro da Liberdade é uma área bem agitada. É uma vizinhança mais velha localizada perto do coração dessa metrópole de 10 milhões de habitantes – o lugar é uma mistura de empresas de pequeno porte e de residências urbanas, contando ainda com sua própria estação de metrô. Você sabe imediatamente que está no bairro da Liberdade por causa dos icônicos postes vermelhos com lanternas chinesas. Liberdade é também o local onde está sediado o museu da imigração japonesa e outras organizações comunitárias.

Naturalmente, todo bairro japonês oferece uma variedade de restaurantes japoneses. Uma noite, no jantar, eu descobri que no Brasil eles não colocam abacate no Califórnia roll. Ao invés disso, eles usam manga. Eu então perguntei aos nossos anfitriões: “Por que eles não chamam de Brasil roll?”

Nós chegamos um dia adiantado para finalizar o planejamento do simpósio com nossos parceiros em São Paulo. Mas, como parte da razão para nossa viagem era contatar outros indivíduos da comunidade nikkei, programamos um encontro com Yugo Mabe, filho de um famoso artista abstrato nipo-brasileiro, Manabu Mabe. O Mabe filho está supervisionando a construção de um novo museu de arte moderna chamado Museu de Arte Moderna Nipo-Brasileira Manabu Mabe. O museu ficará situado no Bairro da Liberdade.

A residência de Mabe era como um museu; cada parede em quase todos os aposentos era decorada com trabalhos artísticos. Eu saí de lá animado com a possibilidade de um intercâmbio artístico nipo-americano e nipo-brasileiro no futuro.

O simpósio foi realizado nos escritórios da Fundação Japão, que fica a uma rápida corrida de táxi do bairro da Liberdade. Para o primeiro painel sobre agronegócios, os palestrantes vieram de fora de São Paulo, onde vive a maioria dos nikkeis brasileiros. Nós decidimos cobrir este tópico porque estávamos interessados em ouvir as histórias das comunidades agriculturais de menor porte no Brasil. Como na Califórnia, os imigrantes japoneses ajudaram a desenvolver a agricultura comercial no Brasil.

O segundo painel, sobre arte, apresentou o trabalho de vários artistas nipo-brasileiros. Os panelistas também discutiram como a identidade nikkei é expressada através da arte.

O painel da tarde sobre os dekasseguis foi dividido em duas seções. Os dekasseguis têm migrado para o Japão desde o final dos anos 80 para suprir a falta de mão de obra em fábricas japonesas. Hoje há aproximadamente 300.000 deles vivendo no Japão.

A primeira parte teve como foco a vida dos trabalhadores brasileiros no Japão. O mais interessante foi a explicação que os nipo-brasileiros formaram suas próprias comunidades, as quais preservam sua cultura brasileira.

A segunda parte sobre os dekasseguis examinou a readaptação dos nipo-brasileiros que retornaram ao Brasil. Muitos dos migrantes são trabalhadores temporários que voltam ao Brasil após a expiração de seus contratos. Isso é especialmente difícil para as crianças dos trabalhadores, as quais devem se ajustar a uma nova língua e cultura.

Houve um debate interessante com respeito à palavra “dekassegui”. A palavra japonesa original significa “trabalhador temporário”. Alguns acham o termo ofensivo porque trabalhadores temporários são geralmente vistos como pessoas oriundas de situação socioeconômica baixa e por isso são desdenhados pela sociedade japonesa. Os participantes demonstraram preocupação que ao manter em uso a palavra “dekassegui”, os nipo-brasileiros continuariam a ser vistos como indivíduos das camadas inferiores da sociedade. No entanto, outros aceitaram o termo devido ao seu uso generalizado. É apropriado como um rótulo aplicado a um certo grupo de indivíduos, e é negativo apenas quando utilizado de modo pejorativo.

Para mim, a melhor parte do simpósio foi a chance de conhecer pessoas da comunidade. Como eu não sei nada de português, nos comunicamos na maior parte em inglês ou eu me virei com o meu fraco japonês. Eu conversei com líderes da comunidade, estudantes universitários e pessoas interessadas na identidade nikkei. Como eu tinha pouco conhecimento da sua história, quanto mais me era revelado sobre sua comunidade e a vida dos nipo-brasileiros, mais eu queria aprender.

Na verdade, nós temos muito em comum. Nós compartilhamos da mesma herança cultural. Nós somos descendentes de imigrantes que construíram uma nova vida numa nova terra. Nós queremos preservar nossas histórias e explorar nossas identidades. Mas nem tudo é o mesmo – no Brasil, eles têm nomes como Anacleto Hanashiro e Flávia Sakai. Eu realmente me diverti muito com os nomes deles. Eu não tive a oportunidade de conhecer todo mundo, mas no todo mais de 100 pessoas participaram do evento patrocinado pelo Descubra Nikkei.

Além do simpósio, nós tivemos a chance de nos sentar com seis nipo-brasileiros para gravar histórias orais em vídeo em português e japonês. Uma das entrevistas foi de improviso. Nelson Kajihara estava no simpósio e durante a sessão de perguntas e respostas ele demonstrou ter uma vida tão interessante que pedimos que nos deixasse entrevistá-lo. Ele cresceu na Amazônia e nos anos 90 viveu como dekassegui com sua esposa e filhos no Japão. Sua entrevista – e as outras também – serão postadas na seção Gente de Verdade do site Descubra Nikkei.

No nosso último dia completo no Brasil, visitamos a plantação de café de Tozan a pouco mais de uma hora de carro de São Paulo. A Fazenda Tozan havia sido utilizada como laboratório agricultural pela Corporação Mitsubishi antes da Segunda Guerra Mundial. Atualmente ela continua a produzir café, mas vem enfrentando a inevitável intrusão da urbanização. Nós fizemos esta viagem especial até Tozan porque foi utilizada como local de filmagem da mini-série “Haru to Natsu”, produzida pela NHK. Eu recomendo fortemente esta mini-série para aqueles interessados em ver como foi a vida dos pioneiros japoneses no Brasil.

Devo agradecer a muitas pessoas por terem feito do simpósio um sucesso, especialmente nossos parceiros no Brasil. Mas eu quero reconhecer pessoalmente o trabalho duro e a dedicação de Marcos Persici, que fez muitas das preparações, foi nosso guia no Brasil e foi nosso intérprete. Obrigado!

* * *

 

FOTOS:
1. Carro alegórico Kasato-Maru no Carnaval (crédito da imagem: Anna Toss)
2. Rua no bairro da Liberdade, São Paulo, Brasil
3. Marcos, Bobby, Yoko e Yugo Mabe
4. Platéia no simpósio Descubra Nikkei
5. Participantes do simpósio
6. Entrevista de história oral com Nelson Kajihara
7. A equipe do Descubra Nikkei em Tozan

© 2008 Bobby Okinaka