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A origem

Desde a infância, fiz amigos tanto de diferentes ascendências como orientais – não só nipônicos, mas também descendentes de chineses e de coreanos. Hoje penso se o que nos aproximou foi o fato de nossas culturas de origem ser parecidas ou se nosso inconsciente nos fazia sentir mais confortáveis com nossos semelhantes, por termos um “rosto familiar”.

Comecei a reparar, já durante a adolescência, nos anos 1990, nos grupos de amigos “japas” que se concentravam em maior número em determinadas escolas. Notei que eles tinham um comportamento padronizado: o jeito característico de se vestir, a linguagem corporal, os interesses e os lugares onde se encontravam. Eu enxergava como falta de personalidade e de individualidade, mas, no fundo, eu tinha curiosidade de saber qual seria o sentimento de conviver apenas com iguais, sem nenhum tipo de julgamento.

Porque os outros quase sempre imaginavam que eu era quieta, tímida, nerd, séria.

Dessa forma, até a época de faculdade, apesar de ser vista como a maioria dos filhos e netos de japoneses parecia ser – um verdadeiro estereótipo, não tive grande interesse de conhecer em detalhes a cultura de minhas raízes.

Nas mais variadas situações, em diferentes momentos e entre diferentes grupos de brasileiros e de nikkeis, me senti uma estranha, como um extraterrestre, um ser que não pertence a este mundo, à realidade vivida aqui, à comunidade, por não ser uma descendente “autêntica”. Na verdade, eu acabava ainda mais excluída por meus próprios semelhantes deste ou daquele grupo. A impressão que eu tinha era de ser a única que não havia criado laços com minhas origens e, por isso, não me encaixava em lugar algum.


Quem sou eu
?

Motivada pela curiosidade e talvez por respostas, comecei a jornada de descoberta da história da minha família, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. Fui além da província natal, do ano de chegada ao Brasil e dos locais de destino – considerei importante buscar também a memória viva, meus próprios avós. Apesar da lucidez, eles me contaram poucas coisas de que se lembravam. Segui, então, minha pesquisa por meios oficiais e consultando outros familiares. Observei que, infelizmente, se as informações não são transmitidas de geração para geração e/ou registradas de algum modo, vão se espalhando e se perdendo.

Logo soube que meu bisavô, pai de minha avó paterna, por motivo pessoal incerto, deixou a terra natal e o passado no esquecimento, enquanto minha bisavó, mãe de minha avó materna, perdeu a vida quando a filha ainda era menina. Indubitavelmente, ambas as famílias foram fadadas ao afastamento de suas raízes.

[...] a “colônia” atual [1997] é uma comunidade organizada, regionalmente, por pessoas que se dedicam à agricultura e ao comércio, autônomos. E a maneira de pensar e de ser da “colônia” é o reflexo da consciência dessas pessoas. São essas pessoas que fazem os seus filhos estudarem a língua japonesa e fazem questão de que o ensino da língua japonesa seja direcionado no sentido da formação de moral japonesa, que deve ser incutida nas crianças.

Não quer dizer que aos nikkeis de alta escolaridade, assimilados, perfeitamente, à sociedade brasileira falte a consciência de sua origem. Só que, entre a consciência dessas pessoas e a consciência daquelas que presentemente sustentam a “colônia”, há uma grande divergência, há uma grande distância.


O processo do amadurecimento

De fato, amadurecemos com o tempo. Cada experiência conta, assim como cada grãozinho de areia contribui para estruturar o chão e cada tijolo, para sustentar uma casa. Seria como um quebra-cabeça, cujas peças coletamos, guardamos e depois juntamos uma a uma de acordo com o formato de encaixe até que passamos a enxergar uma boa parte do todo. Uma peça analisada individualmente pode parecer significar algo incompreensível, mas num conjunto ajuda a construir sentido.

É a partir daí que fatos e dados se conectam, possíveis explicações surgem e o coração se aquieta. Percebi que cada história é única e que eu não precisava compartilhar das mesmas características, dos mesmos interesses, das mesmas atividades com grupos de pessoas que pareciam ter muitas afinidades. Percebi também que esses círculos sociais funcionavam, em determinado ponto, como uma garantia de ser alguma coisa, de se ter com que e com quem se identificar. Percebi que vários descendentes têm, sim, os mesmos questionamentos que eu. A semelhança e a particularidade existem em sincronia.

Atrevo-me a encerrar esta reflexão sem um final. O que quero dizer é que não existem respostas prontas e certeiras. O “Não sei!” que responderia à pergunta “Você é sansei ou yonsei?” deve ser bem mais frequente do que se imagina. Mas calma, antes que minha audácia seja entendida como mera petulância. Após uma série de estalos, lampejos, insights, aponto o precioso atalho do árduo percurso – as razões, as causas. Portanto, os “porquês” nos fazem dar voltas, enquanto o essencial é buscar saber “o que”, o começo, o ponto de partida, a origem.

Nota:

1. MIYAO, Susumu. Nipo-Brasileiros: Processo de Assimilação (in Jornal Paulista – 31/05/1997). São Paulo: Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, 2002.

 

© 2021 Tatiana Maebuchi

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