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Elementos formadores do imaginário sobre o japonês no Brasil - Parte 1

Imagens e discursos: matizes do “amarelo”

Este artigo, dividido em três capítulos, tem como objetivo demonstrar que além dos discursos sobre o imigrante de origem asiática no Brasil, produzidos nos gabinetes e tribunas desde meados do século XIX, existe um outro campo discursivo a ser explorado: os discursos formalizados e divulgados a partir da nascente imprensa ilustrada, principalmente, da cidade do Rio de Janeiro, autêntica capital cultural da Belle Époque tupiniquim.

Instigado pelos debates do Congresso Agrícola de 1878, procuramos investigar como a Revista Illustrada “representava” os trabalhadores chineses ou chins , primeiros imigrantes “amarelos” trazidos para o Brasil (em reduzido número) no início do século XIX. O viés irônico dos cartuns do jornalista Ângelo Agostini (1843-1910) contribuíram para consolidar estereótipos relativos a esse elemento, constatação que denominamos “equação amarela”, no qual o “outro” denominador seria o japonês.

Os estereótipos veiculados com relação ao chim materializaram uma imagem negativa desse elemento, que além de ter sua figura associada “às suas tranças”, foi sempre lembrado como “viciado em ópio”, “ladrão de galinhas”, “pouco higiênico”, “civilizadamente atrasado”, “supersticioso”, “racialmente inferior” etc. Em um primeiro momento a perpetuação desses estigmas no imaginário coletivo deve-se ao fato de que, segundo o historiador da arte, E. Gombrich, todos nós temos a faculdade de “fabricar” mitos, e é inserido nesse universo de mitologização do mundo 1 que o cartunista assume um importante e, talvez, “único” papel ao encaixar toda uma cadeia de idéias ou uma idéia mais complexa dentro de uma imagem inventiva, 2 de modo que o leitor possa captar tudo num simples olhar.

No caso do chim, , sua imagem também permaneceu associada a de um elemento “transitório”. O fato de não ter se efetivado a imigração de trabalhadores chineses em número significante para o Brasil, deu ensejo para que, a partir de meados da década de 1890, a palavra chim praticamente desaparecesse dos discursos imigratórios, sendo substituída pela palavra japonês . No entanto, veremos que, assim mesmo, elementos pertencentes ao imaginário relacionado ao trabalhador chinês ainda permaneceram. Associado ou fazendo contraponto ao “outro” elemento amarelo (japonês), o fato foi que os cartunistas que retrataram o chim – como Ângelo Agostini - ao se utilizar de maneira tão perfeita daquilo que E. Gombrich chama de “recursos do arsenal do cartunista”, ou seja, a capacidade/necessidade de condensar em um cartum o tópico e o permanente, a alusão de passagem e a caracterização duradoura, 3 acabaram dando sobrevida a imagem desse elemento ainda nos primórdios do século XX.

As imagens, em nosso caso os cartuns e as caricaturas, são de extrema importância, pois não só podemos estudar o “uso de símbolos num contexto circunscrito”, como também “temos o propósito de descobrir que papel a imagem pode representar nos escaninhos de nossa mente”.4 É a partir dessa proposição que colocamos lado a lado palavra e imagem, fato que pode ser constatado no discurso escrito relativo ao japonês e que se mostrou, desde o final da década de 1890, dissociado da figura do chim . Por outro lado, em alguns momentos a imagem do chim vinha associada à figura do japonês. Para melhor compreensão de que modo começava a se mitologizar a imagem do japonês, utilizamos-nos de imagens produzidas pelas revistas ilustradas O Malho e Revista da Semana , periódicos em circulação a partir de 1902. Ao pesquisar as primeiras edições dos periódicos encontramos na edição de março de 1903, a representação de uma gueixa, primeira imagem publicada sobre o Japão na revista O Malho 5 .

Qual o efeito dessas caricaturas no imaginário coletivo nacional? Podemos afirmar que a “chegada” dos japoneses no Brasil se deu por meio destas publicações? Com base nesses questionamentos gostaríamos de relacionar o discurso oral e escrito à imagem, enfocando a figura do Japão e dos japoneses aos olhos da pulverizada opinião pública nacional, defensora de uma imagem estereotipada do chinês, uma das matizes do “amarelo”. Para responder, em parte, e essas instigantes questões, nos utilizaremos de uma curiosa pesquisa de opinião realizada pela revista O Malho , junto aos seus leitores entre os meses de março e abril de 1904, logo após o início da Guerra Russo-Japonesa (1904-1905).

Veremos que entre 1903 e 1908 ocorreu a desconstrução/construção da imagem associada ao Japão e dos japoneses. A principal responsável por isso foi, não apenas no Brasil, o conflito russo-japonês, interpretado aqui como um elemento de ajuste nos discursos relacionados à idéia de “perigo amarelo”. Com a vitória japonesa, as dúvidas que pairavam sobre o real potencial do Japão confirmaram-se e o que para alguns era exótico , tornou-se perigoso . A nascente república brasileira insere-se entre os países que vivenciaram esta mudança conceitual. O imaginário nacional relacionado ao japonês, ainda na transição do século XIX para o XX, respirava os ares do japonismo , enquanto países como o Peru e, principalmente, os Estados Unidos viviam um momento de redefinição dos discursos relativos ao imigrante japonês que ali se radicava. Esse fato é de suma importância para compreendermos a diferença de sintonia entre o Brasil e os outros dois países imigrantistas. A operação de desconstrução do mito de “país das gueixas” e da estética naif associada ao japonismo começou a entrar em evidência a partir da publicação da obra No Japão , do diplomata Oliveira Lima (1903). Ao mesmo tempo, começava-se a construir o mito do “país dos samurais” ou de um Japão imbatível, de um povo bravo e heróico. Baseadas em metáforas ocidentais, nenhuma dessas imagens irá se diluir totalmente: a da gueixa , associada ao exótico e frágil, personificando os mistérios da mulher japonesa, a do samurai , associado ao guerreiro e ao militar, modelo de força e tenacidade. Esse processo de transformação das formas de representar o japonês no imaginário nacional pode ser constatado nos discursos veiculados posteriormente, a partir da chegada dos imigrantes japoneses ao Brasil (1908).

Mas como a nascente opinião pública nacional brasileira, alguns anos antes do desembarque em solo brasileiro dos súditos do país do sol-nascente, imaginava os japoneses e o Japão? Objetivando responder esta questão foi que nos utilizamos de uma pesquisa realizada pela revista O Malho no início de 1904, o Escrutínio Russo-Japonez . Tema da continuação de nosso próximo capítulo na próxima semana.

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Notas:

1. Gombrich, E. “O Arsenal do Cartunista”. In: Meditações sobre um cavalinho de pau e outros ensaios sobre teoria da arte . Trad. Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Edusp, 1999, p. 139.

2. Idem. p. 130.

3. Idem. p. 137.

4. Idem. p. 127.

5. O Malho , Rio de Janeiro, n. 26, ano II, 14 de março de 1903.

6. SALIBA, Elias T. Raízes do Riso. A representação humorística na história brasileira: da Belle Époque aos primeiros tempos da rádio . São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 80.

© 2007 Rogério Dezem