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Co-Housing, o sonho realizado por um grupo de nikkeis brasileiros

Nikkeis de São Paulo conseguem colocar em prática um sonho acalentado por muitos hoje em dia, principalmente aqueles que estão próximos da tão esperada aposentadoria. 

Vivendo em uma grande metrópole, quem já não pensou morar em um local aprazível, longe da agitação, quem sabe num condomínio tranquilo ou algum recanto onde o verdadeiro sentido de comunidade fosse prioridade? 

E, essa aspiração se fortalece mais claramente ao constatar que, no futuro, os filhos vão ter que cuidar de suas vidas, não disporão de tempo para outras coisas, de tal forma que imprudente seria pensar que os pais poderão depender deles quando forem idosos. Cada um tem que pensar no seu futuro desde agora, para que a velhice possa ser uma fase prazerosa e tranquila de sua vida. É questão de planejamento. A qualidade de vida que queremos dependerá de nossas atitudes desde agora.

Compartilhar um grande espaço verdejante, morar com conforto, segurança  e não muito longe das grandes cidades na companhia de amigos e novos vizinhos que almejam os mesmos sonhos e expectativas,  agregando  com isso,  novos valores como amizade e solidariedade, é o que muitos buscam para uma vida de pós aposentadoria.

Desejos prosaicos mas cada vez mais raros hoje em dia, como deparar com a vizinha regando o jardim; cruzar com outros amigos caminhando pelo bosque; uma outra, com uma cesta colhendo verduras fresquinhas na horta ao lado; um outro animado grupo, indo pescar com a tralha toda no belíssimo lago que circunda toda a frente do condomínio. Curtir o pomar, piscina, quadra de tênis, enfim, tudo à disposição a qualquer hora, sem rodeios e formalismos. São desejos de muitas pessoas, hoje em dia.

Tudo isso já é uma realidade em vários países, como na Europa, Estados Unidos, Canadá, entre outros. No Brasil, também já existem iniciativas nesse sentido, um pouco mais recentes.

Denominada de “Cohousing”, tipo de moradia compartilhada, o conceito surgiu na Dinamarca há uns 40 anos, quando as famílias foram percebendo a necessidade de adaptar suas casas para os mais idosos. Mais tarde, tornou-se popular nos EUA, depois no Canadá, ao se constatar que a amizade  é algo muito precioso e valorizado nessa fase. Como os laços afetivos estão normalmente ligados ao ambiente de trabalho e à família, com a chegada da aposentadoria esses amigos tendem a rarear e mesmo a família nuclear também se distancia nessa fase. Daí, surgiu a ideia dos condomínios compartilhados ou “cohousing”.

Para os adeptos desse estilo de viver, a Cohousing oferece solução para dois dos maiores problemas que afligem as pessoas idosas: a solidão e o desejo de permanecer morando em sua casa, com a privacidade respeitada. Tudo que o idoso não quer é viver em lar ou retiro para idosos.

Começa com a formação de um grupo que esteja ligado por afinidades, quer de natureza social, intelectual, profissional, até econômica e que queira morar em um mesmo local, de forma comunitária e compartilhada.

Em seguida, define-se o escopo da “cohousing”, o contrato formal e legal que regerá o empreendimento, onde e como será  o espaço, e todo o planejamento até que seja construído e habitado. Pode ser uma vila, um sítio, um condomínio de casas ou em prédio de apartamentos. A arquitetura deve contemplar a acessibilidade e funcionalidade antes de tudo, com portas largas e prevendo acidentes domésticos, com cuidado na escolha de tipo de piso e instalação de barras de apoio, entre outras medidas.

É indispensável, ainda, uma boa área comum, para lazer e outras atividades. Se o espaço permitir, devem ser projetadas áreas para cozinha e sala de refeição comunitária, lavanderia, ambulatório médico, enfim, serviços de apoio e facilidades conforme o perfil e a necessidade do grupo.

A convivência não incluiu só eventos. Os participantes são incentivados a ajudar uns aos outros, partilhar de bens materiais, como ferramentas e alimentos, a participar de mutirões para desenvolver a horta, o pomar, o jardim, assim como cuidar da limpeza e manutenção do espaço. É o espírito de comunidade que deve prevalecer. Individualismo e acomodação não são benvindos nesses espaços.

O que se busca é a qualidade de vida priorizando  valores como a amizade e solidariedade.

Um grupo de amigos meus, aqui em São Paulo, nikkeis em sua maioria, também tiveram esse “insight” algum tempo atrás e após muito estudo, pesquisa e reuniões, conseguiram transformar o sonho em realidade.

Constituído por empresários, profissionais liberais, executivos, funcionários públicos, senhores e senhoras aposentados em sua maioria – um grupo heterogêneo de 40 pessoas ligadas entre si por laços de forte amizade que, há pouco mais de 1 ano, deu início a um projeto de Condomínio Compartilhado – CoHousing,  com a aquisição de uma grande e valiosa gleba rural de aproximadamente 10 alqueires, a 100 km. da Capital de São Paulo, encravada em uma região valorizada, de grande potencial de desenvolvimento.

Com aproximadamente 240.000 m2, 30% de área verde nativa e o restante com total condição de aproveitamento , inclusive para pequena agricultura, a propriedade tem um lindo lago que circunda toda a parte frontal da gleba, que pode ser visto da parte superior do terreno, em aclive,  possibilitando  uma visão linda e privilegiada. Já dispõe de 2 casas-sede, um pomar diversificado com vários pés de frutas, uma parte perfeitamente agriculturável, com mais de 7.000 pés de uvas e uma outra, com plantação de feno, milho e legumes.  

O plano diretor do projeto é ambicioso e prevê um condomínio com todas as comodidades possíveis aos associados, desde residência individual, área comunitária com cozinha coletiva, lavanderia, sala de refeições, enfermaria, sala de lazer para TV, jogos e biblioteca, além de salão para eventos. Externamente, horta, pomar, quadra de esportes (quadra de tênis, gateball), piscina, trilha para caminhadas, jardim com paisagismo, lago para pesca, além de uma área para cultivo com fins comerciais. Até um pequeno hotel está previsto para acomodar visitantes. O planejamento estratégico é decidido de forma consensual, com a participação e envolvimento de todos os de associados, dentro das recomendações de uma boa e correta administração, mesmo porque os investimentos serão feitos gradualmente e de forma inteiramente consensual.

Um importante componente também faz do escopo do projeto: a preocupação com os custos que envolvem a sustentabilidade do condomínio. Essa preocupação, aliás, deve ser uma característica marcante das cohousings e deverá estar presente tanto nas soluções arquitetônicas, onde as residências deverão ser funcionais,  muitos possuindo telhados verdes e sistemas de aquecimento solar e uso de água da chuva, assim como a exploração comercial da área agriculturável da gleba, gerando receita para a comunidade. A preocupação com o meio ambiente será objetivo permanente dos membros da comunidade.

Embora ainda na fase embrionária do projeto, assim mesmo é visível a satisfação dos participantes que, quase todo final de semana, se reúnem no local com alegria e disposição para, cada qual dar a sua parcela de colaboração segundo um plano de trabalho, uns cuidando da horta, outros do pomar; um terceiro do paisagismo, um grupo coordenando as obras civis e de infraestrutura. E como ninguém é de ferro e todos são filhos de Deus, a hora do almoço é uma verdadeira confraternização. No sistema motiyori, cada um ou melhor, cada uma leva um prato, nunca faltando o indispensável oniguiri. Não deixa de ser um exercício do espírito de comunidade que deve prevalecer no grupo. É um verdadeiro trabalho de mutirão, com a diferença que todos os envolvidos são “proprietários”!  Aí está o segredo do “negócio” e, por que não dizer, da alegria estampada no rosto de cada um, apesar do suor que escorre pela face, abundantemente... Trata-se, com certeza, do primeiro projeto de “Cohousing”  dentro da comunidade nipo-brasileira, que irá servir de paradigma para outras iniciativas, em vista da grande potencialidade do setor.

© 2017 Katsuo Higuchi

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