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Oshogatsu e celebração de Ano-Novo na comunidade nikkei de Los Angeles

A rainha e as princesas do Nisei Week (festival japonês que faz parte do calendário oficial da cidade de Los Angeles) cumprimentam os visitantes

“10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, Feliz Ano-Novo!”

Começa o novo ano. Para os norte-americanos é o ultimo dia de feriado, mas para a comunidade nikkei do Sul da Califórnia significa que o tão aguardado Oshogatsu chegou! Desde o nascer do Sol no primeiro dia do ano, as várias comunidades celebram a chegada do Ano-Novo e também realizam a cerimônia de posse dos novos membros de suas associações e – acreditem! – por três meses seguidos. As comemorações de Ano-Novo prosseguirem durante três meses, é um fato que só pode acontecer na maior comunidade nikkei dos Estados Unidos continental, que fica no Sul da Califórnia!

Menina participa de mochitsuki


O primeiro nascer do Sol – um costume dos isseis

Levantar-se bem cedo para ir até a praia apreciar o primeiro nascer do Sol do novo ano é um costume dos isseis (nascidos no Japão) e que vivem no Sul da Califórnia, mas o mesmo não acontece com os nikkeis (descendentes nascidos nos Estados Unidos).

“Vamos ver o nascer do Sol indo até San Pedro?” – fiz o convite a uma amiga nikkei de quarta geração e ela perguntou: “Qual é a diferença entre ver o nascer do Sol no dia 31 de dezembro e no dia primeiro de janeiro? Para mim é o mesmo nascer do Sol” – estas palavras me deixaram um pouco triste. Quando converso com nikkeis americanos, há ocasiões em que observo claramente e, sob diversos aspectos, que temos as mesmas características físicas, mas por dentro os nikkeis são americanos e japoneses. O episódio do nascer do Sol, apesar de mostrar as nossas diferenças, me despertou bastante interesse. Se formos ver as postagens no Facebook, as fotos do primeiro nascer do Sol são de pessoas nascidas no Japão e que moram nos EUA já há algum tempo ou de japoneses.

Mas graças à singela pergunta de minha amiga, fiquei curiosa para saber o porquê da importância do primeiro nascer do Sol e de onde se originou este costume. Em meu país é um fato tão natural que nunca cheguei a questionar, mas agora pesquisei a fundo para encontrar a resposta. Isto se deve ao fato de eu estar morando no exterior numa sociedade multirracial, o que é muito bom.

Como sempre, recorri à Internet e achei esta informação: “No Japão, desde a antiguidade acredita-se que junto com o primeiro nascer do Sol surge o deus que irá reger esse ano, portanto, ver o primeiro nascer do Sol é um acontecimento auspicioso”. O costume de ver o primeiro nascer do Sol data da Era Meiji (1868-1912), quando, no primeiro dia do ano, ressurgiu um ritual chamado Shihohai¹ a cargo do Imperador e que depois se difundiu entre as pessoas comuns².

“Ah, então é isso?”. Eu não conhecia esses detalhes sobre o primeiro nascer do Sol, mas sentia que era algo divino e digno de celebração, o que acho extraordinário. Em ocasiões como esta, eu me dou conta de que sou japonesa e lembro minhas raízes.


Oshogatsu em Little Tokyo e a visita de Ano-Novo ao santuário

Concurso “Miss Kimono” e “Mister Kimono” patrocinado pelo Kimono Club de Los Angeles

O evento de Ano-Novo no Sul da Califórnia tem lugar em Pasadena, subúrbio de Los Angeles, com o Desfile do Torneio das Rosas (Rose Parede) e a partida de futebol entre universidades no Estádio Rose Bowl (Rose Bowl Game), que são bem conhecidos. E qual é o evento do Ano-Novo japonês?

Chama-se “Oshogatsu in Little Tokyo”, realizado todos os anos em Little Tokyo, no centro de Los Angeles e que conta com o patrocínio da Câmara Nikkei de Comércio e Indústria do Sul da Califórnia. É verdadeiramente surpreendente que este evento conta com um grande número de voluntários da comunidade. Todos dedicam o último dia de feriado para servir à comunidade, o que é muito louvável. Nesse dia podemos sentir o grande potencial que tem a comunidade nikkei local.

Líderes da comunidade e o mochimaki

Um palco especial é instalado no Weller Court e Japanese Village Plaza, onde os líderes da comunidade nikkei realizam o kagamiwari, que é quando a decoração de mochi é desfeita e os mochi são repartidos e usados em iguarias como o ozoni. Também há apresentações da tradicional cultura japonesa através de demonstração de caligrafia japonesa pela Associação Norte-Americana de Shodo, atuação de instrumentistas de taiko e koto, demonstração de artes marciais, desfile de quimono.

Menina fazendo dobradura na barraca de Origami

A atração maior, sem sombra de dúvida, é o Mochimaki. No palco instalado no Weller Court, a rainha e as princesas do festival Nisei Week e os líderes nikkeis lançam em direção aos visitantes pequenos mochi doados pela “Fugetsudo”, loja especializada em doces tradicionais japoneses. Os visitantes que lotam o local tentam pegar o maior número desses mochi. As pessoas que estão no segundo e terceiro andares do shopping pedem: “Para cá também!” e os bolinhos são lançados com força.

Há outras barracas onde se pode apreciar a cultura japonesa e as crianças se divertem com mochitsuki e origami, desfrutando plenamente o Oshogatsu.

Minissantuário Shusseinari e a sacerdotisa xintoísta Izumi Hasegawa

Mais um evento importante é o hatsumode, ou seja, a visita de Ano-Novo ao santuário. No templo Koyasan, situado na 1st Street, um ritual chamado Hatsugomaku³ é realizado desde cedo. Além da família que dá suporte ao templo, um grande número de pessoas vem fazer sua visita e o salão principal fica lotado. E o que todos procuram é um amuleto chamado hamaya que, antigamente, acreditava-se que espantava os maus espíritos. Havia inclusive o costume de presentear os bebês do sexo masculino no seu primeiro Oshogatsu com esse amuleto. Mas hoje em dia é um talismã que as pessoas procuram para obter sorte no novo ano.

Templo Koyasan em Little Tokyo, Los Angeles

No evento de Little Tokyo dos últimos anos, temos visto santuários em tamanho pequeno (mini). Quem os expõe é Izumi Hasegawa, filha do sacerdote do santuário Shusseinari na província japonesa de Shimane e que é sacerdotisa também. Izumi trabalha entrevistando artistas de Hollywood e divulgando os filmes mais recentes, mas nos eventos realizados em Los Angeles em prol da reconstrução do Japão após desastres naturais como terremotos, ela tem atuado como sacerdotisa.

Nos arredores de Little Tokyo existem sete templos budistas, mas não há nenhum santuário xintoísta. Para mim, a visita de Ano-Novo deve ser feita a um santuário, não templo. Nas regiões do interior do Japão é comum ver tanto templo como santuário em cada lugar. Assim, eu acho curioso não haver santuário algum em Los Angeles, onde a cultura japonesa está enraizada.

Antes da Segunda Guerra Mundial, na ilha chamada Terminal Island, próxima ao porto de Los Angeles, moravam cerca de 3.000 isseis (nacionalidade japonesa) e nisseis (segunda geração) e lá havia santuários, mas logo que Japão e Estados Unidos entraram em guerra, como a base naval americana ficava perto de Terminal Island, o governo expediu ordem de evacuação aos seus moradores. Feito isso, as construções de Terminal Island foram demolidas e os santuários não escaparam, restando apenas o terreno vazio.

Finda a guerra, em 1945 o comandante supremo das forças aliadas emitiu um memorando dirigido ao governo japonês – Shinto shirei - e existe uma versão de que isto pode ter relação com o fato de os santuários não terem sido reconstruídos nos Estados Unidos. As instruções contidas no Shinto shirei eram: abolição do xintoísmo de Estado, separação completa da política e religião, a continuação do xintoísmo como sendo o xintoísmo folclórico praticado somente em pequenas vilas4.

Nunca pensei que a partir de uma dúvida surgida ao acaso, eu pudesse pesquisar e conhecer um pouco mais de História e isto se deve à comunidade que conserva as tradições. Interessante!


A celebração de Ano-Novo e a posse da nova diretoria das associações

Cerimônia de posse da nova diretoria do conselho da Associação de Províncias do Sul da Califórnia e Confraternização de Ano-Novo

As diversas associações da comunidade nikkei começam a celebração de Ano-Novo, a realização de assembleia geral e a posse da nova diretoria no primeiro domingo de janeiro, significando que a cada domingo algum grupo nikkei está se reunindo. Quanto maior é o grupo, uma pessoa acumula diversas funções, é convidada para reuniões de outras associações, por isso, é feito um cronograma de atividades para não haver sobrecarga. Assim, a cada domingo um grupo diferente faz sua reunião, razão pela qual o cronograma se estende até março. Junichi Ihara, quando foi Cônsul Geral do Japão em Los Angeles, disse com admiração: “O fato de as celebrações de Ano-Novo terem prosseguimento até março significa que a comunidade nikkei do Sul da Califórnia tem muita história!”.

Algumas vezes, porém, as datas dos eventos coincidem. Se estiverem sendo realizados no mesmo local e em diferentes recintos, o profissional da mídia nikkei de Los Angeles incumbido de fazer a cobertura tem de comparar os dois programas e escolher a melhor hora para fotografar e filmar e, assim, conseguir um bom resultado. Esse ir e vir de um recinto a outro talvez seja algo que traduz bem o clima de Ano-Novo na comunidade nikkei de Los Angeles.

Confraternização dos membros do movimento que tem como lema “Vamos trabalhar com saúde até os cem anos de idade!”

As três maiores associações comunitárias de Los Angeles são: Nanka Teiengyo Renmei (Federação de Jardinagem e Paisagismo do Sul da Califórnia), Nanka Nikkei Shokokaigisho (Câmara Nikkei de Comércio e Indústria do Sul da Califórnia) e Nanka Kenjinkai Kyogikai (Conselho da Associação de Províncias do Sul da Califórnia). Como as maiores autoridades destas três associações reúnem-se no mesmo local para os festejos de Ano-Novo, é possível ter-se uma ideia da situação atual da comunidade nikkei do Sul da Califórnia.

Existem 42 associações de província no Sul da Califórnia e cada qual realiza o seu evento de Ano-Novo. A Associação da Província de Okinawa da América do Norte conta com um grande número de membros, tanto que em certa ocasião houve participação de mais de 400 pessoas. As associações com menor número têm em torno de 20 pessoas.

Saudação feita pelo representante da geração mais antiga da Associação da Província de Yamanashi de Los Angeles

Além destas, podemos citar ainda: Sakura Gardens de Los Angeles (casa de repouso para idosos nikkeis), Nikkei Pioneer Center (serviço social dirigido a idosos nikkeis), Little Tokyo Rekishi Kyokai (organização que preserva a história de Little Tokyo), Orange Nichibei Kyokai (associação nipo-americana constituída por nikkeis e japoneses residentes no município de Orange), Minami California Showa Kai. Trata-se de uma variedade de organizações que por meio dos festejos de Ano-Novo estreitam as relações de amizade entre os seus membros.

Cabe à comissão organizadora de cada associação preparar o seu programa. Como todos trabalham durante a semana, é somente no último domingo do mês de março que os eventos de Ano-Novo e posse da nova diretoria das associações chegam ao fim. Hora em que a comunidade nikkei faz uma pausa.

 

Notas

1. Shihohai ou Yohohai – cerimônia que até o término da Segunda Guerra era chamada de Yohosetsu. Antes do amanhecer do dia primeiro do ano, o Imperador entra numa construção especial, onde invoca os deuses e reza para que todo e qualquer mal que vá atingir a nação japonesa, primeiro chegue a ele, o Imperador. 
2. Hatsuhinode 
3. Hatsugomaku – ritual para pedir paz e segurança no Ano-Novo. O templo prepara uma série de amuletos para atender aos pedidos dos fieis: kotsu anzen (segurança no trânsito), kanai anzen (segurança no lar), hamaya (boa sorte), omikuji (papel para tirar a sorte), ema (placa de madeira com desenho).
4. Shinto shirei – (Kotobank)

Festa de Ano-novo em comemoração ao Centenário de Fundação da Associação da Província de Okinawa da América do Norte

© 2017 Tomomi Kanemaru

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