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Crônicas Nikkeis #4 — Família Nikkei: Memórias, Tradições e Valores

Minha vida, nossa vida: O presente, o passado e o futuro

Nesta vida somos protagonistas de várias histórias, mas em muitas situações os atores permanecem desconhecidos porque suas memórias não foram registradas.

Casamento de meus avós: Zenyemon e Tome Tanaka, Osaka 1923.

Meus avós maternos e paternos nasceram e viveram em Osaka e Tóquio até a década de trinta quando vieram para o Brasil trabalhar nas lavouras dos produtores de café.

Sizuyo, minha mãe, atualmente com 89 anos é a única memória viva da família dela e também do meu pai. Quando completou 70 anos manifestou o desejo de registrar as recordações da imigração para o Brasil e os tempos difíceis que viveram para que os seus descendentes tivessem conhecimento da sua história de vida. Coube a mim, sua filha, a tarefa de transcrevê-la na língua portuguesa.

Queremos que estes jovens tracem para si um caminho de sucesso baseado no estudo e no trabalho, que levem para as gerações futuras, a tenacidade, a perseverança e o otimismo dos pais, avós, e bisavós japoneses que são os atores desta história.


Porto de Kobe, julho de 1936

Massako (12 anos), Sizuyo (10 anos), Fumiko (6 anos), Emiko (4 anos); No Ja~pao em 1936
Estamos no navio Rio de Janeiro Maru que nos levará ao Brasil. Chegou a hora da despedida para o meu pai Zenyemon Tanaka, a minha mãe Tome e as quatro filhas, Massako, Sizuyo , Fumiko e Emiko.

Do convés do navio jogamos rolos de serpentinas para os tios, primos e amigos que vieram para as despedidas e nos acenam com as mãos. À medida que o navio se afasta do porto, as serpentinas vão se rompendo e a imagem dos parentes e amigos vai diminuindo cada vez mais até que desaparece no horizonte. Daí em diante, durante quarenta e cinco dias só enxergamos o mar, às vezes tranquilo, às vezes enfurecido, mas sempre azul.

Depois de muitos embarques e desembarques, navegando por vários oceanos e atravessando vários continentes, finalmente chegamos ao Brasil no dia 29 de agosto, no Porto de Santos em São Paulo. Eram mais de mil imigrantes entre adultos, jovens e crianças trazendo apenas o essencial para começar uma vida nova no Brasil. Depois de tanto tempo vendo o mar, eu e minhas irmãs não víamos a hora de sair do navio e continuar a viagem, desta vez por terra.

Depois do desembarque e pernoite na Hospedaria dos Imigrantes na capital do Estado de São Paulo, fomos levados para uma locomotiva movida à lenha que caminhava lentamente. Lembro-me que a paisagem que eu via da janela do trem era muito diferente das paisagens quando viajava no Japão.

De tempo em tempo, nas paradas do trem muitas famílias desembarcavam, deixando lágrimas rolarem silenciosamente no rosto no momento da despedida. Elas refletiam a dor da separação e o medo do futuro incerto para todos. As crianças permaneciam alheias a essas manifestações e ficavam observando as paisagens, as pessoas e os animais. Tudo era novidade para elas.

A alimentação servida no trem era muito estranha para mim. Mais tarde, fiquei sabendo que era sanduíche de mortadela. Tenho uma vaga lembrança de ver homens trancando os vagões com chaves e colocando cadeados. Hoje, passados muitos anos e relembrando estes fatos, fico em dúvida se estas medidas visavam maior segurança aos imigrantes ou se eram medidas para evitar a fuga deles.

Descemos do trem em Monte Azul Paulista, ponto final da estrada de ferro. Depois, a viagem foi feita em um caminhão até chegar ao nosso destino, à fazenda de café.

A casa, construída em madeira, era muito rústica e em nada parecida com a nossa casa em Osaka que tinha dois andares e era bastante confortável. A água para uso era tirada da “cisterna” e de uma nascente de água, a “mina de água”. Os hábitos alimentares dos brasileiros, os “gaijins”, eram muito estranhos para nós e consistia de arroz, feijão, carne seca com batatinha.

As famílias que haviam trazido sementes passaram a cultivar rabanetes, nabos, cenouras e acelgas para o consumo da família.

Devido à dificuldade para se comunicar em português e também porque o trabalho era pesado, começava com o nascer do sol e só terminava quando o sol se punha no final da tarde, quase não tínhamos contato com os vizinhos brasileiros. O objetivo era ficar rico e voltar para o Japão ou então ser dono do seu próprio pedaço de terra.

Casei-me quando tinha 17 anos; seguindo um costume entre os imigrantes, o casamento foi arranjado no sistema de “miai”, em que o noivo e futuro marido foi apresentado pelo padrinho “nakodo” ao meu pai e, com o seu consentimento, a cerimônia foi realizada ao fim das colheitas da lavoura. Minha sogra conta que só conheceu o noivo na hora da sua cerimônia de casamento.

No Japão era costume que o filho mais velho, o "tionan", morasse com os pais depois do casamento, respeitando o pai como a autoridade maior da família. As mulheres casadas deviam obediência ao marido e aos sogros. Seguindo esta tradição fui morar com minha sogra e meu cunhado, meu sogro já era falecido. Enquanto os homens trabalhavam na roça, minha sogra e eu, cuidávamos da horta e da criação de porcos e galinhas.

A casa onde moramos era de madeira rústica e sem nenhum conforto. A lenha para cozinhar e para aquecer o "ofurô" vinha das matas da vizinhança. O banho de "ofurô", um costume antigo do Japão foi adaptado pelos imigrantes com um tambor usado para aquecer a água. Além da higiene servia para relaxar o corpo após um dia de trabalho cansativo.

Não tínhamos energia elétrica na casa. Ela só chegou em 1952, quando compramos um rádio para ouvir na Rádio Cultura de São Paulo, a programação da colônia japonesa no Brasil.

Não somos colonos e nem empregados. Na condição de meeiros, a família plantava algodão, arroz e milho. Todo o trabalho era feito manualmente, desde arar a terra com tração animal, plantar as sementes, até carpir o mato que crescia no meio da plantação e era muito cansativo. Do total da colheita 30% ia para o dono da fazenda como pagamento pelo uso da terra.

Durante o ano compramos “fiado” no armazém da fazenda, o pagamento era feito depois da colheita; quando alguém da família adoecia era o médico dos empregados e colonos que fazia o atendimento; às vezes frequentávamos o clube da fazenda para assistir aos filmes da dupla Gordo & Magro. Viajamos de trem ou de caminhão quando precisamos ir à cidade.

Durante a 2ª Guerra Mundial não recebíamos notícias dos japoneses que lutavam com os alemães e italianos contra os demais países envolvidos. Nesta época muitos imigrantes japoneses foram discriminados e perseguidos como espiões pela polícia brasileira.

São quase 80 anos morando no Brasil, sendo os primeiros vinte anos na zona rural. Não tenho saudades daqueles tempos, foram anos muito difíceis, porém hoje relembrando o passado me considero uma pessoa feliz. Tenho todo o conforto necessário. Meus filhos, netos e bisnetos vivem outra realidade e nem de longe conseguem imaginar a vida que eu e minhas irmãs levamos como imigrantes.

Recentemente passei de carro no lugar onde morei há 70 anos. Nas minhas lembranças esperava ver a casa, a horta, os pés de laranja, as mangueiras, as bananeiras, a cerca que dividia o pomar da horta e a lagoa nos fundos do quintal; mas o que vi foi apenas uma represa em meio a uma plantação de laranjas e a cena durou apenas alguns segundos, pois a velocidade do carro logo a deixou para trás.

O que me chamou a atenção foram os pés de eucaliptos plantados naquela época. Vejo que eles continuam lá altos e frondosos, formando um grande corredor de sombras para os que entram na propriedade. Eles não foram destruídos, ao contrário, estão cada vez mais presentes, desafiando o tempo por mais de sete décadas.

Os "sanseis", os "yonseis" e os “gosseis” descendentes das famílias Nakanishi e Tanaka são jovens que sonham para si um futuro de sucesso e felicidade. Valorizam o estudo e o trabalho, pois sabem que é a base, imprescindível para a realização dos seus sonhos. Paralelamente aos estudos e atividades profissionais convivem com outros jovens nikkeis. Muitos dos seus amigos foram ou estão no Japão trabalhando como "dekasseguis".

O Brasil que me acolheu no passado é hoje a pátria dos meus descendentes. Esse espírito patriota, passado ao longo das gerações trouxe como resultado uma vontade muito grande destes jovens de se sentirem brasileiros. Só não queremos que esqueçam as suas raízes...

 

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O nosso Comitê Editorial escolheu este artigo como um dos seus relatos favoritos da série Família Nikkei. Aqui estão os comentários.

Comentário de Célia Sakurai:

Minha vida, nossa vida: O presente, o passado e o futuro de Kiyomi Nakanishi Yamada relata a trajetória da mãe Sizuyo que chegou ao Brasil aos 10 anos de idade, e hoje está com 89. A preocupação é de deixar registradas as suas memórias para os jovens: "não esqueçam suas raízes". Do mesmo modo como o lugar onde viveu sofreu modificações a ponto de hoje estar quase irreconhecível, permanecem as árvores de eucalipto plantadas pela família há décadas. As árvores, como a história de Sizuyo, são o elo que liga as gerações e dá sentido ao presente tanto para a protagonista da história, como para os seus descendentes. 

 

© 2015 Kiyomi Nakanishi Yamada

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Sobre esta série

Os papéis e tradições nas famílias nikkeis são únicos porque evoluíram ao longo de muitas gerações, tendo como base variadas experiências sociais, políticas e culturais nos países para onde migraram.

O Descubra Nikkei coletou histórias do mundo todo relacionadas com o tema Família Nikkei, incluindo histórias que contam como sua família influencia quem você é e que nos permitem compreender suas perspectivas sobre o que é família. Essa série apresenta essas histórias.

Para essa série, solicitamos que o nosso Nima-kai votasse e que nossa comissão editorial escolhesse suas favoritas.

Aqui estão as histórias favoritas selecionadas.

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