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A Sociedade Nikkei nas matas da Amazônia

Ir para Manaus, uma cidade tropical

“Achei! Consegui achar! Olha aqui!”

Em maio de 2010, eu estava no Museu dos Imigrantes da JICA, em Yokohama. Nesse ano ficou decidido que eu iria trabalhar no Brasil, na cidade de Manaus, como professor voluntário da JICA (Agência de Cooperação Internacional do Japão). Antes de ir para os países da América do Sul, os voluntários participam de um treinamento com duração de três meses. Eu e os demais voluntários que iriam para a Bolívia, Argentina, Paraguai, República Dominicana e Brasil também estivemos no centro de treinamento da JICA Yokohama para fazermos esse treinamento, durante o qual estudamos português por 4 ou 5 horas todos os dias. Além do idioma, estudamos a didática para ensinar a língua japonesa, a visão da educação japonesa de herança e história dos imigrantes japoneses. Fora os estudos, as sextas-feiras eram reservadas para tomarmos injeção: tivemos que tomar vacinas contra as doenças tropicais como a febre amarela e malária. Assim, nos preparamos para o dia de partir para a América do Sul.

No Museu dos Imigrantes que fica dentro do centro de treinamento, encontramos muitos dados sobre a imigração japonesa antes e depois da guerra.

Na verdade, o meu avô Kiyoshi Tsuruta nasceu na cidade de Fresno, no estado da Califórnia, Estados Unidos do América, no dia 23 de abril de 1902. É vergonhoso para mim, mas eu não sabia muita coisa sobre a vida do meu avô. A única coisa que eu sabia, é que ele nasceu nos Estados Unidos. Estudando a história dos imigrantes japoneses, percebi que eu tinha o sangue e a raiz dos imigrantes, pelo fato de meu avô ter nascido nos Estados Unidos na época Meiji. E, durante o treinamento, eu decidi pesquisar sobre as raízes do meu avô e do meu bisavô.

Descobri que, durante a guerra mundial, meu avô passou a sua difícil vida em Hamamatsu como pastor. Difícil porque, naquela época, ser cristão era seguir a religião dos inimigos, portanto soube que algumas vezes fora tratado severamente pelas autoridades policias. Nos seus últimos anos de vida, exerceu o trabalho missionário na igreja da cidade de Igaueno, na província de Mie, cidade essa que é conhecida como a cidade dos Ninjas. Ele faleceu no dia 30 de julho de 2001, aos 99 anos. Até o final da vida foi uma pessoa que gostava de estudar, entusiasmado com a vida cristã, transmitindo sempre o amor e a honestidade.

Pesquisando a história das igrejas da costa oeste dos Estados Unidos no Museu dos Imigrantes da JICA em Yokohama, localizei o nome do meu bisavô, Genshichi Tsuruta em dois livros, a saber: “85º Aniversário da Ação Missionária na América do Norte” (Publicado pelo Departamento da Federação da Igreja Cristã da Califórnia do Sul) e “50 Anos de História dos Cristãos Japoneses nos Estados Unidos da América”. Fiquei surpreso ao localizar o nome do meu bisavô nesses dois livros. Segundo consta, ele foi o primeiro pastor da Igreja Metodista Japonesa de Seattle em 1904.

Não fazia nenhuma ideia de quão importante ele tinha sido. Lembro que nesse dia fiquei tão alegre e impressionado que telefonei para os meus pais em Hamamatsu e para minha tia que mora em Tóquio, para transmitir-lhes esta notícia maravilhosa. Jamais esquecerei o dia em que encontrei a raiz da minha família na história dos imigrantes japoneses. Tenho a impressão de que ir ao Brasil, que fica no outro lado do mundo, para ajudar os descendentes dos imigrantes japoneses a preservar a língua japonesa é uma dádiva que os meus ancestrais me concederam.

A minha cidade, Hamamatsu, é conhecida como uma cidade industrial por ter indústrias de motos, carros e instrumentos musicais. Há diversas fábricas de marcas famosas no mundo inteiro. No início da década de1980, muitos latino-americanos vieram trabalhar nesta cidade. Eles são chamados de “Dekassegui”. No auge deste fenômeno, havia mais ou menos 30 mil trabalhadores estrangeiros da América Latina em Hamamatsu. Para nós japoneses, “Hama” significa Yokohama, porém para os brasileiros “Hama” significa a cidade de Hamamatsu. Assim, a cidade de Hamamatsu foi se transformando na cidade com o maior número de habitantes nikkeis, igualando à cidade de Oota, na província de Gunma e à cidade de Toyota, na província de Aichi.

Na época em que eu trabalhava como musicista, cantando e tocando violão em vários lugares, recebi muita ajuda de muitos estrangeiros que moravam na cidade. Uns ajudavam nos cedendo um local para tocar, outros ajudavam escrevendo letras e fazendo músicas junto comigo. Outros fizeram o filme da minha banda. Os meus amigos estrangeiros sempre me demonstraram respeito como musicista. Eu me sentia muito feliz e agradecido, e queria dar um retorno para eles. Por isso decidi ser professor de língua japonesa para ajudar os estrangeiros que moram no Japão. Fui estudar na Faculdade Hamamatsu Gakuin por um ano e meio.

Durante esse período, lidei com diversas situações que os estrangeiros enfrentavam tais como discriminação e prejuízo financeiro. Fazendo algumas atividades voluntárias para ajudar crianças e adultos estrangeiros, nascia dentro de mim uma vontade que aumentava cada dia mais. Sempre me perguntava “Como deve ser o país em que nasceram os brasileiros que vivem em Hamamatsu?”. Senti uma necessidade imensa de conhecer e sentir como é esse país e, com isso, poder ajudá-los de alguma maneira.

Assim, eu me candidatei para a vaga de voluntário da JICA. Infelizmente não fui aprovado na primeira tentativa. Porém não desisti, trabalhei como voluntário nas escolas para alunos estrangeiros e dei aulas particulares para crianças e para alunos estrangeiros que iam prestar exame de ensino médio. Na segunda tentativa, finalmente fui aprovado e definido que iria ao Brasil a partir de primeiro de julho de 2010.

Na carta de aceite da JICA, li o nome da cidade de MANAUS, AM. Lembrei-me de ter visto este nome na minha infância, na aula de geografia, quando ainda era chamada de MANAÓS. A partir daí, vivia me perguntando: O que deve estar me esperando? O meu coração se enchia de alegria, expectativa e apreensão.

 

© 2015 Toshimi Tsuruta

amazon Brazil JICA Manaus volunteers

Sobre esta série

O autor Toshimi Tsuruta foi como voluntário a Manaus, Amazonas, onde há o maior número de habitantes descendentes de japoneses. No outro lado do mundo, presenciou várias cenas de como os descendentes e imigrantes japoneses herdam ativamente o idioma e a cultura do Japão. Nesta coluna, ele transmitirá acontecimentos interessantes que presenciou no dia-a-dia, nos três anos que esteve lá.