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Crônicas Nikkeis #2: Nikkei+ ~Histórias sobre Idiomas, Tradições, Gerações & Raças Miscigenadas~

Duas cenas, um muro?

Essa já foi demais, pensou d. K. Se nem o Bira avisou! Não respondeu, apenas disse:

- Vou ver.

Confundir o cheiro do daikon fervendo com vazamento de gás deu nela um aperto no coração, de vergonha, talvez. Já não bastaram as tantas vezes que da porta de sua cozinha, ela dizia:

- Que cheiro estranho!

Era às quartas feiras que d. K já deixava preparado um monte de tsukemono de daikon para a semana.

O muro ia desde o fundo do quintal até o portão da frente separando as casas com um corredor de cada lado. E azar, as duas cozinhas se abriam para o lado do muro. Bira parecia viver na mesma casa, afinal, o daikon se confundia com o alho e a cebola refogando todos os dias perto da hora do almoço. Do lado de cá, só nos dias em que a faxineira vinha. Pena. Gostoso mesmo era o perfume de água de colônia que ela usava todos os dias, até para ir à padaria. Elas se encontravam no caminho, cada uma trazendo duas bengalas para o café da manhã e para o lanche do recreio das crianças. Água de colônia e pão fresquinho. Bira preferia o pão, afinal, sabia que ganharia a pontinha para roer.

Ela era impertinente, cismada. Até com o Bira. Começou logo quando o Bira chegou. Resmungou porque ele chorou por várias noites. Coitado, os cheiros eram estranhos. E as risadas dos meninos dela quando o pai de d. K ainda estava vivo e morava com ela. Ele ganhou o filhotinho, filho da Sara da oficina, um ‘bira rata’. E tanto riram e pediam para repetir ‘bira rata, bira rata’ que no fim, o vira lata virou Bira. Depois foram as várias incursões do Bira pelo jardim dela.

- Ele comeu todos os meus amores perfeitos, pisou todo o canteiro das espadas de são Jorge e ainda espalhou terra pra todo lado!

Ninguém mandou deixar o portão só encostado, pensava d. K. Mas o cheiro da terra e das flores era irresistível.

- Bira, dame, dame!

Não pode. Depois só ficaram os cheiros do lado de cá: ela resolveu acabar com o jardim e cimentar tudo. Também porque compraram um carro e a frente virou uma garagem com toldo. O portão ganhou um cadeado reforçado. O marido dela até levou todos os meninos para o zoológico com o carro novo. Nesse dia d. K mandou um lanche com sanduíches de pepino, tomate e maionese, receita que tirou do livro da Sato sensei. O Bira ficou em casa muito triste.

O Bira era bonzinho. Ficava no portão esperando d. K todas as manhãs quando ela ia à padaria, quando ia à feira. Só faltava ajudar a empurrar o carrinho para dentro da cozinha de tão cheia que vinha. A metade da melancia até vinha separada. Eram tantos os cheiros naquele carrinho, das laranjas e bananas, o daikon com as suas folhas para o tsukudani e sempre, o maço de cebolinha que vinha por cima para não amassar.

Terça feira era um dia especial. Era o dia da feira e dia de festa para o Bira. Quantas vezes as sardinhas fresquinhas não foram fritas dos dois lados do muro. Às vezes d. K acrescentava um molho espesso com cheiros de shoyu e açúcar. Terça era o dia da faxineira também. Bira ficava esperando pela Rosa sem ninguém avisar que era terça feira. Bem antes das sete e meia o Bira já estava no portão. D. K esperava a Rosa para sair para a feira. Ela também saía cedinho:

- Fim de feira é coisa de pobre.

Só na terça também é que o cheiro do refogado de alho e cebola vinha dos dois lados do muro: de um lado, o aburagohan, as sardinhas, uma salada, o feijão e o tsukemono para combinar. Do outro, arroz, feijão, sardinhas fritas, couve refogada com bastante alho. Banquete para o Bira!!

Um dos filhos dela vivia pedindo para o filho mais novo da d. K ajudar a resolver equações de segundo grau. Os meninos dela estudavam na escola particular a oito quarteirões dali; os da d. K estudavam mais perto, na escola estadual. Ela vivia perguntando sobre as notas do boletim, até que desistiu quando viu que os filhos dela não eram tão bons como os da d. K. Mas eles eram bons de bola, primeiro as de gude, e mais tarde, com a de futebol. Imbatíveis.

- Só pode ser o Biotônico Fontoura que dá energia para bater os pernas de pau dos seus filhos. Podia deixar o Bira amarrado porque só atrapalha o jogo dos meninos?

- Mas é o Wakamoto que faz as crianças inteligentes...

Um dia, o mais velho correu para contar para a mãe que os meninos da d. K comiam arroz e feijão cozidos numa panela só.

- É baião-de-dois, filho.

Num outro dia subiu num banquinho para outra pergunta sobre feijões.

- O quê? A senhora faz feijão com açúcar?

- É que sobrou azuqui, estou fazendo zenzai. Quer experimentar?

- ???. Bom, se a gente faz arroz doce, por que não feijão doce? São irmãos até nisso.

Bira só inclinou a cabeça para o lado tentando entender a conversa.

Foi nessa mesma época, os meninos deviam estar com doze anos mais ou menos. D. K se lembra bem de um tormento que durou muitos meses. A sobrinha dela ia se casar e eles seriam padrinhos. Qual o tecido, o modelo para o vestido longo? A cor já tinha sido combinada para que a roupa das madrinhas não destoasse do conjunto.

- Eu não fico muito bem de verde água, mas tudo bem...

Foi um entra-sai para aprovar a compra do tecido, para ir até a costureira amiga da d. K, para ajudar a escolher o modelo. Transpassado na frente com um cinto.

- Igual a um quimono, disse d. K.

- Não é não, é da Burda!!’

Foi quando a d. K começou a entrar na casa dela. Nunca tinha passado pelo portão com cadeado. Que casa bonita! Arrumada! Chique! De fora dava para ver que eram duas cortinas: uma de pano fino, transparente e outra de pano grosso, que era puxada todas as noites. Mas de fora não dava para ver os puxadores com pompons na ponta. E os sofás, o lustre, os tapetes, a cristaleira cheia de copos, o quadro grande na parede. A cozinha dela era de fórmica colorida com uma mesa basculante. Justiça seja feita: a geladeira dela era menor. D. K ficou sem graça ao pensar na sua casa. Não tinha nada daquele luxo. Reconhecia que era meio bagunçada, casa de nihonjin. Mesmo a lavanderia dela era arrumada misturando o cheiro de sabão Rinso que o Bira adorava e de Cândida, horrível. No seu quintal d. K pendurava tiras de daikon cortadas finas embaixo do telhadinho que servia para secar as roupas nos dias de chuva. Sem chuva, secava o daikon, sempre o daikon.

Naqueles meses antes do casamento da sobrinha, d. K ia correndo para a casa dela toda vez que ela a chamava pelo muro. Bira se assustava porque geralmente era depois do almoço, hora da sua sesta. Ele ficava esperando do lado de fora da casa porque podia esbarrar em alguma coisa e pior, soltar pêlos no tapete. Sentia a mistura de água de colônia, cera, abacaxi e às vezes do cafezinho que ela servida numa bandeja prateada. Finalmente chegou o sábado do casamento. Ela saiu cedinho para a cabeleireira, dona Tizuko, amiga da d. K que tinha um salão na rua da feira. Voltou com as mãos esticadas para não borrar o esmalte vermelho. O cabelo estava cheio de laquê para segurar o coque que ajudava a realçar o rosto e o modelo do vestido. Mais uma vez d. K foi chamada para dar o veredito final. Ela estava linda com o rosto cheio de pó de arroz e o rouge nas bochechas. O sapato era dourado de salto fino, com a bolsinha dourada com o pó compacto e baton dentro, tudo combinando.

Eles demoraram muito para chegar. Só na manhã do domingo é que ela soube. Estranhou porque ela ia sempre à missa das oito, mas naquele dia ela não saiu. Devia estar cansada. Mas não. Estava com o braço direito todo engessado. Não estava acostumada com o salto fino e levou um tombo ao tropeçar no degrau do salão da igreja. Seria um mês com o gesso. E justo no braço direito. E agora? Foi trabalho dobrado para a d. K. Um muro não era obstáculo para mandar o pão fresquinho, fazer duas feiras, ajudar a moça a preparar o almoço até a hora da volta dos filhos. À noite faziam sanduíches, mais fácil.

Não foi nada, o mês passou rápido. Voltaram a se preocupar com os horários dos filhos, com os maridos, com a padaria, a feira. O Bira voltou a lamentar que só refogavam alho e cebola às terças feiras do seu lado do muro. Aquele mês foi tão bom!!

A outra vez foi mais tarde, quando os meninos já eram moços. Os mais velhos já estavam formados, o caçula da d. K estava na faculdade de engenharia estudando em Campinas, só o caçula dela estava fazendo cursinho pela terceira vez teimando que queria ser médico. Bira estranhou. O cheiro do seu lado do muro estava também do lado de lá...

- Nabo é muito saudável, tem muitas fibras, faz uma salada muito boa. E ainda com patê de queijo de soja fica uma delícia. O médico me disse que o queijo de soja tem poucas calorias, além de ótimo para a menopausa.

Nabo e daikon, queijo de soja e tofu, ‘Uhnn’, pensou d. K. Será que o médico falou do cheiro?

Meses depois, ela teve uma dor nas costas que nem a pomada de arnica deu conta. Então, veio com a novidade do mochabustão! Descreveu com detalhes a terapia milagrosa, até que d. K descobriu que era o okiyu que o pai fazia. Grande novidade!’ Ela disse que continuaria na clínica para fazer shiatsu para se prevenir das dores nas costas e até perguntou a d. K se deveria fazer banhos de ofurô com chocolate para ficar com a pele lisinha. Só é caro...

Corre - corre do outro lado do muro.

Por muito tempo d. K ficou remoendo. O pensamento ia e voltava. Não conseguia se afastar daquele tormento: será que foi por causa daquele umeboshi que ainda não estava bem curtido? Acho que ainda estava muito salgado. Mas ela pediu tanto, falava que era digestivo, que prolonga a vida, eu dei a ela. Não, não pode ser só isso. E agora, como vou saber? Também, ela era insistente, me chamava tanto que até irritava o Bira...

O carro saiu da garagem no meio da noite acordando o Bira. Quando o carro voltou, Bira não sentiu o cheiro da água de colônia. Nem voltou a sentir.

Agora o alho e a cebola só são refogados uma vez por semana. Às vezes sente o cheiro do daikon do tsukemono que vem junto com a bandejinha de sushis que o filho mais velho compra no supermercado para o pai jantar. O mais novo está finalmente fazendo residência.

E, nos últimos tempos, do lado do muro da d. K, Bira sente um cheiro forte saindo de uma fumacinha que o marido de d. K acende todas as manhãs. Não gosta, mas fica ao lado dele. O filho mais velho se casou, o engenheiro está estudando no Canadá. Bira faz companhia para o marido. Não sai. Desde aquela terça feira d. K não foi mais cedinho à feira. Nem abriu a porta para a Rosa. Nem sardinhas ou tsukemono. Não tem mais daikon secando embaixo do telhadinho. Vazio.

Faz tempo. O marido dela saía todas as manhãs vestindo terno, ia andando até o ponto de ônibus. Só voltava à tardezinha. O marido de d. K também saía todas as manhãs vestindo terno, mas esperava pelo colega que passava com o carro da firma. Também voltava à tardezinha. Cumprimentava, trocava algumas palavras com os que moravam na rua. Agora, o marido da d. K chama o marido dela para uma cervejinha toda vez que o filho mais velho leva as crianças para um churrasco no domingo. Carne, cerveja e o tsukemono de daikon comprado na lojinha de lá de perto combinam muito, concorda o marido dela.

Elas olham, d. K e ela. Estranho é que não tem mais o muro que ia do fundo do quintal até o portão. Daikon ou vazamento de gás? Água de colônia ou alho e cebola? Gozado, o muro sumiu... Só vêem o Bira se deitar de lado, encolher as patinhas para junto do corpo. Dame, dame, Bira, não pode, não pode...

 

© 2013 Celia Sakurai

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Sobre esta série

Ser nikkei é intrinsecamente uma identidade com base em tradições e culturas mistas. Em muitas comunidades e famílias nikkeis em todo o mundo, não é raro usar tanto pauzinhos quanto garfos; misturar palavras japonesas com espanhol; ou comemorar a contagem regressiva do Reveillon ao modo ocidental, com champanhe, e o Oshogatsu da forma tradicional japonesa, com oozoni.

Atualmente, o site Descubra Nikkei está aceitando histórias que exploram como os nikkeis de todo o mundo percebem e vivenciam sua realidade multirracial, multinacional, multilingue e multigeracional.

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