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Histórias de Decasséguis

História nº 7: As maravilhosas férias de Kenjinho no Japão

Kenjinho nasceu no Japão, mas depois que seus pais se separaram, foi com sua mãe para o Brasil.

Um ano e meio depois, seu pai Massao, que continuou no Japão, foi buscar o filho conforme havia prometido, mas uma situação inesperada o aguardava: a ex-esposa Núbia havia se casado novamente e estava morando no Rio e Kenjinho, em vez de ir junto, foi viver na casa da avó paterna – o que foi uma grande surpresa!

Ao ver o filho aguardando-o no aeroporto pôde respirar com certo alívio! Pois Kenjinho estava todo sorridente, não desgrudando da avó. “Mas por que você saiu da casa da vó Iracema?” – perguntou-lhe e o garoto respondeu com vivacidade: “A vó Iracema é boazinha, eu gosto dela. Mas gosto mais da “Batchan”, eu adoro ela, pois ela é japonesa!”. Dizendo isto, Kenjinho abraçou fortemente a avozinha e Massao sentiu pelo filho uma grande afeição.

O que mais Massao desejava era voltar a viver com seu filho no Japão, mas diante das circunstâncias achou que esta era a melhor solução. Na verdade, ele estava agradecido ao filho do fundo do coração. Quando decidiu que iria trabalhar no Japão, sua maior preocupação era ter de deixar sua velha mãe sozinha. Mas agora que tinha o Kenjinho todo prestativo junto dela, tudo estava bem. Com isso, Massao voltou mais tranquilo para o Japão.

Passaram-se dezoito anos e Kenjinho estava um moço feito. Logo que concluiu o ensino médio, trabalhou em banco e estudou Contabilidade à noite e, formado, passou a trabalhar no departamento financeiro de uma empresa. 

Sete meses antes a querida “Batchan” havia falecido e Kenjinho ficara sozinho. Seu pai não pôde chegar a tempo ao enterro, mas estivera durante três dias no Brasil, tempo em que pai e filho nem tiveram tempo de conversar. Então Kenjinho tirou férias de um mês e resolveu visitar seu pai. Estava retornando depois de 18 anos ao Japão.

Foi então que outra vez aconteceu algo imprevisto. Kenjinho, que se acostumara tão bem à vida no Brasil, havia se tornado um corintiano fanático. Logo que começou a estudar na escola fundamental, ele foi apresentado a esse “time fantástico”. Talvez alguém pense: como isso foi acontecer com um menino nascido no Japão?

O responsável por Kenjinho ter virado corintiano tinha sido o Lucas. Lucas, meio-irmão de Kenjinho, três anos mais velho, o filho que Núbia teve aos dezesseis anos e que fora criado por uma irmã dela. Lucas era alegre e brincalhão, o melhor amigo de Kenjinho. Era muito bom de bola e não perdia um jogo do Corinthians indo ao estádio para torcer. Kenjinho estava sempre junto e os dois eram torcedores fanáticos.

E quando estava se aproximando o dia do embarque de Kenjinho, aconteceu que o Corinthians conquistou o título intercontinental e foi escolhido para representar a América do Sul no Mundial de Clubes da Fifa 2012 a ser disputado no Japão! Quem vibrou de alegria foi o Lucas, que não pôde conter a emoção e declarou: “Vou de qualquer jeito”.  

Começaram os preparativos para a viagem. Lucas tinha esposa e uma filhinha de 1 ano, não tinha condições nem dinheiro para viajar tão de repente e para tão longe... A esposa pediu-lhe aos prantos que não fosse, mas Lucas não lhe deu ouvidos. Iria para o Japão nem que para isto precisasse vender a moto com que ia trabalhar. Desse modo, Kenjinho adiou o embarque para dali a duas semanas, esperando o irmão aprontar a papelada.

Os dois desembarcaram no Japão e por pouco teriam perdido o primeiro jogo do Corinthians, no estádio de Nagoya, não fosse Massao que estava aguardando-os e fez questão de ir junto. Massao não era muito chegado em futebol, mas foi junto até Yokohama para a partida decisiva. Dia 16 de dezembro, o estádio de Yokohama mais parecia o estádio do Pacaembu. Lucas e Kenjinho gritaram, berraram, choraram, torceram como nunca e, no final, o Corinthians sagrou-se bicampeão mundial! ! !

No dia seguinte, Lucas embarcou para o Brasil bastante satisfeito e Kenjinho decidiu ficar mais um pouco.

Era como se fosse um sonho para Massao. Ele planejava fazer mil coisas na companhia do filho. E para Kenjinho, que viveu longe do pai desde os 9 anos de idade, também era como se fosse um sonho. Embora Massao tivesse sido ausente, trabalhando longas horas na fábrica, arrumando bico nos dias de folga, passando poucos momentos junto com a família, Kenjinho tinha orgulho do pai. Já morando no Brasil, perguntavam-lhe com frequência: “E o seu pai?” e ele respondia: “O meu papai está dando duro no Japão. Sabe, ele é o melhor trabalhador do mundo!”.

Massao havia se casado novamente. Sua esposa, Emi Nakayama, recebeu Kenjinho com muito carinho e preparou um delicioso banquete para a ocasião. Kuromame (feijão preto cozido), datemaki (rocambole de ovo com peixe), salmon roll (salmão enrolado com cream cheese), kurikinton (purê de batata-doce com castanha), kobumaki (enrolado de alga), kazu-no-ko (ovas de arenque), namasu (cenoura, nabo e yuzu em molho de vinagre adocicado). Eram todas as iguarias que Kenjinho estava provando pela primeira vez na vida. Enquanto viveu no Japão, sempre estivera só no meio de decasséguis, então nas festas havia somente comida brasileira; além disso, a sua mãe que não era nikkei nem se dera ao trabalho de aprender uma comida japonesa por achá-la “estranha”. Por outro lado, a sua “avó japonesa” preparava comida japonesa sim, mas era diferente tanto no visual como no sabor, algo bem mais simples e frugal.

A iluminação das ruas era um show à parte! Ele que achava fantástica a Avenida Paulista em São Paulo todo final de ano, teve de admitir que o Japão, claro, era muito superior! Quanto ao grande número de pessoas nas lojas e o movimento incessante nos bares e restaurantes, ele achou que o Brasil estava ficando igual, mas com uma única diferença: as boas condições de segurança que eram notórias no Japão. Fazia pouco tempo, Kenjinho estava com seus colegas de trabalho numa pizzaria, quando um bando entrou para fazer um arrastão, levando carteira, celular, relógio de mais ou menos 30 pessoas. Também os idosos nikkeis estavam na mira de gangues especializadas, inclusive os avós de um amigo haviam passado por maus momentos nas mãos deles. Mas essas coisas ele não podia contar ao pai. 

Uma noite antes do embarque, Massao convidou o filho para um jantar especial em um restaurante típico situado num hotel de Quioto. Também foi pela primeira vez que Kenjinho entrava num lugar daqueles e por isso estava um pouco nervoso. Tudo o que via era novidade.

Em dado momento, as “maiko” e “gueiko”, que eram a atração principal com seus graciosos bailados, começaram a percorrer as mesas e os espectadores puderam tirar fotos com elas. Massao estava tão enlevado com a beleza da “gueiko” ao lado que ficou todo derretido... Kenjinho achou graça e pensou: “Papai está um coroa igualzinho aos demais” e posou ao seu lado.

Kenjinho deixou o Japão no dia 3 de janeiro do novo ano, levando somente boas recordações.

“A gente se vê na Copa do Mundo de 2014 no Brasil” - prometeram um ao outro.   

© 2013 Laura Honda-Hasegawa

Brazil dekasegi family fiction

Sobre esta série

Em 1988 li uma notícia sobre decasségui e logo pensei: “Isto pode dar uma boa história”. Mas nem imaginei que eu mesma pudesse ser a autora dessa história...

Em 1990 terminei meu primeiro livro e na cena final a personagem principal Kimiko parte para o Japão como decasségui. Onze anos depois me pediram para escrever um conto e acabei escolhendo o tema “Decasségui”. 

Em 2008 eu também passei pela experiência de ser decasségui, o que me fez indagar: O que é ser decasségui?Onde é o seu lugar?

Eu pude sentir na pele que o decasségui se situa num universo muito complicado.

Através desta série gostaria de, junto com você, refletir sobre estas questões.