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Crônicas Nikkeis #1 — ITADAKIMASU! Um Gostinho da Cultura Nikkei

Okaki e umeboshi feitos no Brasil

Há mais de 30 anos, meu marido foi transferido para trabalhar no Brasil acompanhado da família, o que foi uma grande surpresa para nós. Naquele tempo, além de o futebol não estar na moda como agora, no Japão quase não havia informações sobre o Brasil. Eu mesma não sabia nada, apenas que o Brasil era o país do café e do carnaval e imaginava que o carnaval fosse realizado todos os dias. Antes de embarcar, estava muito apreensiva com a nova vida no Brasil, lembrando agora sinto saudades daquela época. 

Foto da autora tirada em 2012. A colheita de goya neste ano não foi boa.

Como naquele tempo era proibida a importação no Brasil, era difícil comprar produtos alimentícios feitos no Japão. Assim, o sembei japonês que tínhamos levado na mala era como se fosse um tesouro precioso.

Logo que chegamos, eu fui levar meus cumprimentos para uma vizinha de apartamento - uma japonesa que morava no Brasil havia mais de 4 ou 5 anos. Ela me ofereceu chá acompanhado de okaki feito no Brasil, dizendo: “Como você acabou de chegar do Japão, este okaki pode não parecer gostoso, mas morando aqui uns 4 ou 5 anos como eu, até que você vai gostar deste sabor”.

De fato, como tinha acabado de chegar, não achei o “okaki brasileiro” tão gostoso, mas quando o estoque de sembei japonês acabou, fiquei com vontade de comer sembei e fui procurar na Liberdade (Bairro Oriental). Eu queria o sembei redondo com sabor de shoyu, mas só deu para encontrar o “okakibrasileiro”. Para falar a verdade, o “okaki brasileiro” não tinha o mesmo sabor do similar japonês, era duro e quanto ao sabor faltava um algo mais... Mas ele sempre estava crocante, mesmo quando esquecia de guardá-lo, acho que por causa do clima de São Paulo ser menos úmido.

Passados mais de 5 anos, quando estávamos nos preparando para voltar ao Japão, eu me surpreendi saboreando o “okaki brasileiro” e achando-o gostoso, pois já estava acostumada com o sabor brasileiro, não sei dizer se isso é um fato surpreendente ou lógico. 

Okaki brasileiro (foto tirada por uma amiga brasileira)

Mais uma coisa que me lembro bem até agora é do “umeboshi brasileiro”. Quanto ao formato não era nada parecido com o umeboshi feito do fruto da ameixeira que eu conhecia, mas era igualmente muito ácido e substituía muito bem o umeboshi que se come no Japão. Era caseiro e vendido na feira e uma vez eu o comprei. Quanto ao formato eu lembro bem, mas sempre estava com dúvida sobre como é feito aquele “umeboshi brasileiro” e, outro dia, uma senhora nikkei brasileira veio ao Japão e eu aproveitei para perguntar-lhe sobre isso e foi então que fiquei sabendo que aquele umeboshi é conhecido como “umeboshi brasileiro” mesmo e é vendido na feira livre em maio ou junho, quer dizer, não dá para comprar em qualquer época do ano. Mas o que me surpreendeu foi a informação de que esse umeboshi é feito do cálice de uma flor! 

Os imigrantes devem ter quebrado a cabeça para substituir o tão apreciado umeboshi e só de pensar que eles comiam o umeboshi inventado dessa forma para matar as saudades do Japão, com a intenção de um dia poderem voltar à terra natal, é possível compreender bem o esforço para encontrar algo que substituísse o ume.

Atualmente com a livre importação é possível encontrar nas prateleiras das lojas de produtos japoneses o umeboshi do Japão, mas também o umeboshi feito no Brasil usando o fruto da ameixeira, então apenas uma parte das pessoas conhece o “umeboshi brasileiro” daquele tempo.

Umeboshi brasileiro (foto tirada por uma amiga brasileira)

Consegui encontrar na Internet algumas informações sobre o “umeboshi brasileiro” e fiquei muito impressionada ao saber que ele é feito do cálice de uma flor conhecida no Japão como “roselle”, que pertence à mesma família da malva, assim como o hibisco. Até a receita de como preparar o “umeboshi brasileiro” eu encontrei! Dá trabalho para tirar as sementes do cálice da flor, mas se tiver vinagre, sal e açúcar, em 24 horas o “umeboshi brasileiro” fica pronto. Uma receita muito fácil. 

Mas no Japão é muito difícil encontrar cálices de “roselle” em abundância no caso de eu querer fazer umeboshi em casa. Então concluí que aquele “umeboshi brasileiro” só se pode comer no Brasil como um produto da criatividade dos nikkeis e, mais do que nunca, aquele é o umeboshi dos sonhos para mim. 

Enquanto estava com vontade de comer novamente o “umeboshi brasileiro”, uma amiga brasileira me mandou esta foto. O “umeboshi brasileiro” está sendo comercializado com o nome de “HANA UME”!!! Agora ficou mais fácil encontrar o meu umeboshi dos sonhos e não preciso ir ao Brasil especialmente em maio ou junho. Estou muito feliz!!! A vontade de comer aumenta cada vez mais.

© 2012 Naomi Kimura

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Sobre esta série

Para muitos nikkeis em todo o mundo, a comida é frequentemente a mais forte e mais permanente conexão que eles mantêm com sua cultura. Com o passar das gerações, o idioma e as tradições são muitas vezes perdidos, mas os laços culinários são preservados.

Descubra Nikkei coletou narrativas de todas as partes do mundo relacionadas ao tópico da cultura culinária nikkei e seu impacto na identidade e nas comunidades nikkeis. A série apresenta essas narrativas.

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