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Histórias de Decasséguis

História nº 2: Kimiko, 24 anos depois

Pois é, lembro que foi em abril de 1988. Eu fazia parte de um grupo de 27 mulheres que ia ao Japão para trabalhar. Pela primeira vez, um grupo de decasséguis só mulheres estava embarcando, então aquilo virou uma grande notícia. Os jornais e a televisão estavam no aeroporto. Um repórter nos entrevistou querendo saber por que estávamos indo para o Japão, mas eu fiquei tão tensa que não deu para falar nada. Mas as colegas, de tão exaltadas, disseram seus motivos claramente que eu fiquei admirada:

- Acontece que no Brasil não está dando nem pra comer.

- Achei bom se pudesse conseguir pagar os estudos dos filhos.

- Como não tenho marido nem filhos, preciso garantir meu sustento, né?

Os motivos eram variados, mas era certo que todas tinham decidido ir ao Japão para conseguir dinheiro. Seja para levar a vida sem a ajuda de ninguém, seja porque o marido já estava lá trabalhando, também havia pessoas que, depois de algum tempo, pensavam em chamar os filhos.

Eu nunca tinha pensado em ir para um país tão longe como o Japão, mas não teve outro jeito. Meu marido que nem estava doente morreu de uma hora pra outra, meus filhos eram ainda menores, então só me restava trabalhar. Eu quis voltar a trabalhar como cabeleireira, mas achar um salão que me empregasse estava muito difícil. Já não era mais jovem e a situação econômica no Brasil era crítica.

Mas não vá pensar que eu estava querendo juntar dinheiro para fazer um grande negócio. O que eu queria era comprar uma casinha para poder morar com a Érica, minha filha e com o Alex, meu filho. Só nós três, sabe. Porque desde a mudança para São Paulo estávamos vivendo de favor na casa de minha irmã mais velha. Eu era uma mãe sem capacidade para ter sua própria casa. Por causa disto, a Érica tinha se mudado para o apartamento de minha irmã mais nova e nós fomos nos distanciando cada vez mais.

Eu trabalhei firme para poder voltar ao Brasil no menor espaço de tempo. Cuidar de idosos foi mais duro que eu pensava, mas enquanto me dedicava a esse trabalho aconteceu um milagre.  

Desde muito tempo eu achava que era uma pessoa sem forças para fazer algo pelos outros. Perdi meu filho mais velho num acidente e eu me culpava por não ter podido fazer nada em favor dele. Pouco depois, meu marido não suportou tanta tristeza e pôs fim à própria vida. É doloroso até de lembrar e só estou podendo falar disso agora. Durante muitos anos eu tinha a idéia fixa de que nem para a família eu tinha sido útil.

Mas cuidando de idosos, pouco a pouco fui perdendo esse sentimento de culpa e trabalhar em contato direto com os idosos foi uma experiência valiosa. Encontrei pessoas as mais variadas. Dentre todas elas, a senhora Nakayama foi quem mais me marcou. 

- Kimiko-san, já é de manhã?
- Não, são 8 da noite.

- Está chovendo?
- Mesmo que estivesse chovendo, a senhora está dentro de casa, não precisa se preocupar.

- Você sabia que perdi minha casa no terremoto?
- Mas isso foi há muito tempo, não?
- A Emi, pobrezinha, ficou com defeito na perna por causa do terremoto.
- A Emi é uma boa filha, tem seu trabalho, ajuda em casa também.
- Mas não se casou, o que será dela depois que eu morrer?

Como acontecia sempre, a senhora Nakayama queria tocar no assunto do futuro de sua filha. 

Emi Nakayama trabalhava numa pequena editora. Saía de casa às sete e meia e retornava por volta de sete da noite. Como era a hora em que eu estava indo embora, muitas vezes eu cruzava com ela pelo caminho. Discreta, ela se limitava a cumprimentar em voz baixa.


Certo dia, eu a vi perto da estação. Carregando uma pesada sacola, ela andava com pressa e logo atrás um homem alto, gesticulando e falando, tentava alcançá-la.

Aproximando-me mais, pude ouvir claramente: “Deixa eu ajudar”. Levei um susto porque o homem falava em português. Ele repetiu a frase várias vezes, mas Emi Nakayama nem deu atenção e apertou o passo até que tropeçou e acabou levando um tombo. De dentro da sacola rolaram as compras, espalhando-se pelo chão.

Imediatamente corri em sua direção. “Posso ajudá-la? Machucou-se?”

Emi Nakayama estava caída de joelhos, as duas mãos espalmadas no chão, o rosto voltado para baixo, o corpo tremendo que dava dó. 

- Emi-san, está tudo bem? Estendi-lhe a mão e ela finalmente ergueu o rosto e me olhou com espanto.

O homem ficou parado alguns instantes, mas logo começou a apanhar as coisas do chão.

Emi Nakayama tentou se levantar, mas não conseguia se mover. Nisto, o homem acorreu, segurando a sacola numa das mãos e, com cuidado, ajudou-a a erguer-se.

- Me desculpe, me desculpe. Repetiu, abaixando a cabeça.

Eu pedi ao homem que me ajudasse a levá-la até a casa dela.

Como falei em português, o homem arregalou os olhos e perguntou:

- Brasileira?
- Sou brasileira, sim. Meu nome é Kimiko.
- Sou Massao.

Emi Nakayama podia andar sem dificuldade, então fomos junto com ela até o portão e nos despedimos.

Eu fui entrando na estação e Massao voltou ao trabalho, que ficava na rua em frente.


Uma semana depois, eu estava chegando à casa da senhora Nakayama e vi Emi no lado de fora do portão, parecendo ansiosa.

- Eu queria lhe falar em particular, longe dos ouvidos de minha mãe.

Achei estranho que quisesse conversar comigo. Fomos a um jardim perto e nesse dia Emi Nakayama me pareceu mais descontraída do que de costume.

- A senhora sabe onde está Massao-san?
- Como?!
- Eu gostaria muito de agradecer a ele.
- Não está na barbearia em frente da estação?
- Não, parece que saiu de lá.
- Ah, é?

Emi Nakayama pareceu tristonha, mas eu não pude fazer nada.

“Acontece muito entre os decasséguis, isso de pular de emprego em emprego, sabe” – poderia falar assim, mas isso traria mais tristeza a ela, pensei. E mais, eu tinha trocado poucas palavras uma única vez com ele, mas esse Massao me pareceu estar guardando algum segredo.


Acontece que um ano depois...

Ih, já está na hora. Continuamos a conversa numa outra vez. Preciso ir buscar meu neto Marco na escola. Ultimamente andar em São Paulo está perigoso. Tchau.

 

© 2012 Laura Honda-Hasegawa

Brazil dekasegi fiction

Sobre esta série

Em 1988 li uma notícia sobre decasségui e logo pensei: “Isto pode dar uma boa história”. Mas nem imaginei que eu mesma pudesse ser a autora dessa história...

Em 1990 terminei meu primeiro livro e na cena final a personagem principal Kimiko parte para o Japão como decasségui. Onze anos depois me pediram para escrever um conto e acabei escolhendo o tema “Decasségui”. 

Em 2008 eu também passei pela experiência de ser decasségui, o que me fez indagar: O que é ser decasségui?Onde é o seu lugar?

Eu pude sentir na pele que o decasségui se situa num universo muito complicado.

Através desta série gostaria de, junto com você, refletir sobre estas questões.