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Crônicas Nikkeis #1 — ITADAKIMASU! Um Gostinho da Cultura Nikkei

A história dos Picles da vovó: O rakkyo da vovó ganha o mundo

1) O sabor do tsukemono feito por minha avó

Tsukemono no supermercado do Havaí. São diversos tipos à venda. Atualmente vêem-se produtos de marca própria. Foto: Maui Takuan de M.Uradomo Farms, Inc.

Hoje em dia nos supermercados de comida japonesa dos Estados Unidos encontra-se uma grande variedade de produtos japoneses. Dentre eles, há as conservas do tipo tsukemono, desde o asazuke (legumes levemente conservados) até o nukazuke (legumes em conserva de salmoura e farelo de arroz fermentado), usando ingredientes variados como gengibre, pepino, hakusai (acelga japonesa), rakkyo (minicebola japonesa ou alho chinês).

Além dos produtos importados do Japão, ultimamente pode-se ver também tsukemono feito por fabricantes locais, que vendem sob marca própria. Embora o sabor tenha sido ligeiramente adaptado para atrair os consumidores, o produto não difere do original japonês.

Assim como o tsukemono é vendido nos supermercados americanos, isto acontece também nas lojas do Japão. Mas como eu fui criada no interior de Kyushu (sul do Japão), a ideia de que tsukemono é algo artesanal feito em casa é muito forte em mim.

Isto se deve ao fato de eu ter morado desde pequena com meus avós, comendo o rakkyo (minicebola em conserva de vinagre adocicado) e o umeboshi (conserva de ameixa seca) que minha avó fazia. Todos os anos, após a colheita dos legumes da estação, ela fazia as conservas que iam à mesa em todas as refeições, durante o ano inteiro. Foi assim durante a época em que vivi no interior. 

Foto de meus avós com minha mãe. Eles eram agricultores no interior de Kyushu. Desde aquela época, no interior fazia-se tsukemono de diversos tipos em casa.

2) As raízes familiares se conectam através da cultura alimentar 

Depois de me formar na universidade, morei em Honolulu durante 3 anos cursando pós-graduação. Acontece que eu já tinha um tio por parte de mãe morando em Honolulu com sua família. Embora nossas famílias tivessem mantido contato desde antes, era a primeira vez que eu estava encontrando pessoalmente meus parentes nikkeis. E depois de cruzar os mares, eu descobri 2 coisas importantes: que ali estava enraizada a cultura alimentar japonesa através do TSUKEMONO e que naquela família nikkei estavam as raízes de nossa família.

Vovó Susie e vovô George eram nikkeis de segunda geração - da mesma geração de meus avós do Japão - e os hábitos alimentares tanto de um como de outro eram muito semelhantes. Susie era uma grande cozinheira e sabia preparar takuan (conserva de nabo) e conserva de gengibre do mesmo modo. Quer dizer, mesmo no distante Havaí comia-se tsukemono como no Japão. A receita de TSUKEMONO de Susie foi passada por sua mãe, nikkei de primeira geração. Ademais, quando eu era pequena, a minha avó mandava para os parentes de Honolulu alimentos japoneses como o rakkyo e umeboshi e, nas cartas que punha junto, ela escrevia suas receitas de conserva caseira. Desde essa época, o tsukemono atravessava os mares para preservar nossas raízes familiares.

Por sua vez, Susie preparava seu TSUKEMONO e enviava para a sua família e parentes nikkeis que moravam no continente americano. Aqui também dá para sentir o quanto os japoneses prezam os laços familiares e de que maneira tudo isto vem sendo preservado dentro da comunidade nikkei.

Com membros da Associação de Senhoras Budistas de Hongwanji de Moiliili, Honolulu. As senhorinhas nikkeis estão sempre alegres quando as encontro. Duas vezes ao ano eu visito o templo e sou sempre bem recebida.

3) Divulgando a cultura do TSUKEMONO no mundo

Na pós-graduação eu pesquisei o desenvolvimento da comunidade nikkei de Honolulu, o que me deu oportunidade para interagir frequentemente com as integrantes da Associação das Senhoras Budistas do Templo Jodo Shinshu Hongwanji, Missão do Honpa Hongwanji do Havaí. Este foi um dos temas de minha tese.

Legumes e frutas tropicais cultivadas na Fazenda Orgânica Kahumana no Havaí. Usando produtos locais junto com temperos japoneses e seguindo as receitas de minha avó, quero partir para a produção e comercialização de um tsukemono original.

Uma vez ao ano eu voltava para o Japão e, quando retornava ao Havaí, carregava as conservas que eu pedia para minha avó fazer. Toda vez que isto acontecia, as senhorinhas nikkeis ficavam me aguardando com ansiedade, pois as conservas de rakkyo e umeboshi que eu repartia com elas eram grandemente apreciadas. Pois fazia com que elas relembrassem como era o sabor da comida de suas mães e avós. Por tudo isto, estou pensando em reproduzir nos Estados Unidos os sabores do Japão regional, através do rakkyo e umeboshi de minha avó.

Contudo, o rakkyo e o ume, que têm colheita uma vez ao ano, são de difícil cultivo no Havaí. Sendo assim, grande parte desses produtos procede do continente americano ou são importados do Japão.

Pensando nisto, atualmente estou em preparativos para começar um novo negócio, utilizando legumes e frutas produzidas de maneira orgânica no Havaí e elaborando conservas originais, baseadas nas receitas herdadas de minha avó e tendo como tempero o vinagre de arroz, o shoyu e o misso do Japão. Aqui o objetivo não é somente reproduzir na íntegra a comida tradicional de minha avó, mas também aproveitar o que eu aprendi com minhas experiências nos Estados Unidos e minha convivência com a comunidade nikkei, no sentido de valorizar e propagar para as gerações futuras a importância de manter os laços de família através dos costumes alimentares.

Espero poder mostrar aos japoneses e nikkeis espalhados pelo mundo que a cultura alimentar japonesa está fortemente enraizada mesmo fora do Japão, tendo como testemunho a minha convivência com vovó Susie e vovô George; acrescentando que isto tem um papel importante na história de nossas famílias.

Produtos de rakkyo em desenvolvimento. São os primeiros da série “Grandma’s Pickles Story”. Futuramente estão previstos produtos elaborados não só com vinagre adocicado, mas também com temperos diversos como: sal, mel com limão, vinho tinto, "shoyu tamari" (mais encorpado), kimuchi, visando a atrair as terceira e quarta gerações. O meu sonho é vender o rakkyo de minha avó para os nikkeis ao redor do mundo.

* * * * *

O nosso Comitê Editorial escolheu este artigo como um dos seus relatos favoritos da série Itadakimasu!. Aqui estão os comentários. 

Comentário de Yukikazu Nagashima:

Na sua grande maioria, foram trabalhos de ótimo nível que eu li com bastante interesse. E escolhi o texto de Asami Goto por considerá-lo dentro do tema proposto.

Nele são contadas três histórias. A primeira fala sobre o tsukemono da casa do tio de Honolulu estar ligado às raízes de sua família do Japão. Na segunda, a autora retorna ao Havaí levando o tsukemono caseiro japonês, o que cria uma conexão psicológica com as senhoras da Associação Budista, que relembram com saudades como era a comida de suas mães. Por último, como essas duas “descobertas” despertam na autora o desejo de abrir seu negócio de tsukemono.

Tais histórias se juntam de modo sucinto e nos fazem sentir o quanto a autora está empenhada em concretizar essa ideia. Espero que esse empreendimento tenha sucesso.

Também achei interessante o artigo de Yasuko Nakamachi (japonês) sobre o papel do restaurante de chop suey e de como os clientes apreciavam os Biscoitos da Sorte.      

Comentário de Hirochika Nakamaki:

 

O sabor do tsukemono descoberto pela autora quando foi a Honolulu estudar e conhecer parentes. Diferente dos picles de pepino que os americanos apreciam, era o takuan e a conserva de gengibre que a avó nikkei americana fazia. Os nikkeis mais antigos que frequentam a Associação Budista também apreciam as conservas japonesas como o rakkyo e umeboshi. Não obstante serem simples tsukemono, é inegável que não podem faltar na refeição japonesa.

A tradição da cultura alimentar japonesa tende a ser herdada por famílias e organizações; mas o que me deixou curioso foi a proposta da autora de manter essa tradição através de seu novo empreendimento.

Sabores sutis refletem a identidade de um povo e também influenciam os negócios com o exterior, característica ímpar de um mundo moderno e globalizado.

Tenho também em alta consideração o artigo escrito por Naomi Kimura sobre o okaki e o umeboshi “Hanaume” do Brasil, assim como o trabalho de Yasuko Nakamachi (japonês) falando dos Biscoitos da Sorte.

© 2012 Asami Goto

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Sobre esta série

Para muitos nikkeis em todo o mundo, a comida é frequentemente a mais forte e mais permanente conexão que eles mantêm com sua cultura. Com o passar das gerações, o idioma e as tradições são muitas vezes perdidos, mas os laços culinários são preservados.

Descubra Nikkei coletou narrativas de todas as partes do mundo relacionadas ao tópico da cultura culinária nikkei e seu impacto na identidade e nas comunidades nikkeis. A série apresenta essas narrativas.

Aqui estão suas favoritas:

Para maiores informações sobre este projeto literário >>


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#2: Nikkei+ ~Histórias sobre Idiomas, Tradições, Gerações & Raças Miscigenadas~
#3: Nomes Nikkeis: Taro, John, Juan, João? 
#4: Família Nikkei: Memórias, Tradições e Valores 
#5: Nikkei-go: O Idioma da Família, Comunidade e Cultura 
#6: Itadakimasu 2! Um Novo Gostinho da Cultura Nikkei
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