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OHAYO Bom dia

Capítulo 10: O sonho da menina que gostava de cinema

                                                         I

Sempre fui agarrada à minha mãe. Se ela ia preparar a comida, lá estava eu espiando a mesa, perguntando: “Que que é isto?”

Desde que me conheço por gente, sempre fui fascinada por desenhos. Lembro deles como se fosse hoje. Os meus preferidos eram o da lata de sardinha e a ilustração da embalagem de aveia.

“Este é o papai”, dizia apontando para o desenho da sardinha que parecia estar usando óculos, e mamãe se divertia. O homem que estava na lata de aveia, por estar usando peruca, eu achava que era mulher, idêntica à senhora alemã que morava na vizinhança. “Por que aquela senhora está na embalagem de comida?”. Ouvindo isto, mamãe deveria ter pensado: “Mas que imaginação!”.

Passado um tempo, conheci o desenho que se movia – o cinema – e fiquei encantada.

A matinê aos domingos era a diversão aguardada da semana. Junto com a criançada da vizinhança, ia a pé ao Cine Maracanã, que saudades! Na programação, comédias brasileiras e bangue-bangue americano.

O cinema ficava lotado de crianças. Na hora do suspense era aquela gritaria, no clímax, então, a turma aplaudia, assobiava, fazia barulho com os pés, uma loucura!

Não era apenas à matinê que eu ia. Meu pai achou que eu deveria conhecer os usos e costumes japoneses e foi então que mamãe e eu passamos a ir aos cinemas da Liberdade. Com mais idade, às vezes ia junto com minhas amigas.

Como são fatos antigos, torna-se difícil lembrar os títulos e os enredos de cada filme. Mas sei que a série Wakadaisho estrelada por Yuzo Kayama era sensacional, Tora-san, da série “É triste ser homem”, de engraçado tinha tudo, mas não havia como não sentir compaixão. Hibari Missora, Izumi Yukimura e Chiemi Eri era um trio dos mais alegres. Romantismo no paraíso do Havaí, as boates do pós-guerra, a despedida do casal no cais do porto, a viagem noturna de trem para esquecer o fim de um caso de amor – cenas das mais variadas ficaram na memória.

Verdadeiramente, conto com um extenso e rico repertório de filmes em meu currículo.

                                                         II

Estava no 1º colegial quando li certo dia no jornal sobre um filme japonês em cartaz.

“A rotina tem seu encanto” era o filme, dirigido por Yasujiro Ozu. Tanto me chamou a atenção o título que fiquei na expectativa para ir vê-lo.

“Acontece o encontro e nasce daí um vínculo” – foi o que senti ao ver a primeira obra-prima desse cineasta em minha vida.

A partir de então, desenvolveu-se e aperfeiçoou-se a minha maneira de “ver” o cinema japonês.

“A rotina tem seu encanto” foi o último filme de Ozu (1962) e eu assisti no cinema em circuito comercial. As demais obras fui conhecendo toda vez que a TV Cultura apresentava em sessão especial ou quando havia uma retrospectiva das obras de Ozu na Capital.

Yasujiro Ozu é reconhecido como o mais japonês de todos os diretores japoneses, comparado a um fabricante de tofu que prepara seu produto com maestria de artesão.

Li isto no livro “Ozu – O extraordinário cineasta do cotidiano” (Editora Marco Zero), que eu adquiri em 1991.

Quando vi o primeiro filme vinte e tantos anos antes, eu desconhecia qualquer dado sobre Ozu, mas o impacto foi grande.

Certamente, até então, eu já havia visto um bom número de filmes que tratam da família: o pai que fica sozinho após o casamento da filha, pais idosos que têm de viver na casa de um dos filhos, um dos cônjuges que falece. Histórias comuns em qualquer família.

Mas a “família” focalizada por Ozu é muito especial. São personagens que agem com tanta naturalidade que os sentimos muito próximos e pelos quais nos enternecemos.

A filha não pensa em se casar para não deixar seu pai sozinho. Ao saber disso, o pai comunica sua intenção de se casar novamente. Assim, a filha se tranquiliza e decide casar-se. O que ela não sabe é que o pai havia inventado essa história para não prendê-la... Após a cerimônia, o pai volta para casa, senta-se na cozinha e, silenciosamente, começa a chorar.

Esta é a última e inesquecível cena de “A rotina tem seu encanto”. Memorável também a atuação de Chishu Ryu no papel do pai.

“Pai e filha”, “Era uma vez em Tóquio”, “Bom dia”, “Dias de outono”, “Fim de verão” e “A rotina tem seu encanto” são como tesouros que guardo com carinho dentro do coração.

“O sonho da menina que gostava de cinema” é justamente ver novamente essas obras-primas que transmitem humanidade simples e autêntica. (Pode o tempo passar e a menina virar senhora, mas continua a certeza de que, um dia, esse sonho vai se realizar).


P.S.  Algum tempo depois de escrever este artigo, viajei para o Japão e, faltando pouco para regressar ao Brasil, ocasionalmente li no jornal que haveria um festival de cinema com as obras de Yasujiro Ozu! Era 10 de janeiro de 2009, sábado, e lá fui eu! O filme chamava-se “Ukigusa monogatari”. Além de ser a primeira vez que via, fiquei bastante emocionada com o acompanhamento de música e narração ao vivo, tal como era nos tempos do cinema mudo. Os filmes que minha mãe viu quando criança (por volta de 1925) eram do tempo do cinema mudo. E eu, vendo diante de meus olhos a apresentação calorosa do “benshi”, da mesma forma como minha mãe contava, pensei “Que sorte!”. Pois acho que hoje em dia os próprios japoneses raramente poderiam ter uma experiência igual a esta.

Com isso posso dizer que a “menina” do título, agora senhora, sentiu-se plenamente realizada. Mas os seus sonhos vão continuar, por muito tempo ainda.

A foto registra as lembranças daquele dia: o DVD do filme “Tokyo Boshoku”, o carimbo comemorativo e o ingresso.

© 2011 Laura Honda-Hasegawa

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Sobre esta série

Meus avós vieram do Japão há mais ou menos 100 anos. Eu nasci no Brasil. Por isso, quero servir de “ponte” entre o Brasil e o Japão. O Japão que está arraigado no meu coração é um tesouro que quero guardar para sempre.  E foi movida por esse sentimento profundo que escrevi a presente série.  (Bom dia em japonês é Ohayo)