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Um Olhar sobre o ‘Movimento Dekassegui’ de Brasileiros ao Japão no Balanço do Centenário da Imigração Japonesa ao Brasil - Parte 7

>> Parte 6

Considerações finais: aspectos negativos e positivos do movimento dekassegui

Os aspectos negativos do Movimento Dekassegui são vários que foram enumerados ao longo do texto: desemprego; instabilidade ocupacional, econômica, emocional, social; precarização das condições de vida; diminuição do nível de escolaridade desse contingente; evasão escolar; aumento no número de crimes cometidos por brasileiros no Japão; desentendimentos por conta da diferenças na língua e cultura, discriminação, preconceito; pensão alimentícia; divórcio; famílias abandonadas no Brasil; desestruturação ou novos arranjos familiares; criminosos fugitivos; problemas referentes a cartas rogatórias, etc..

E o que há de positivo nisso tudo? Um dos aspectos que podemos apontar é a intensificação na relação bilateral entre Brasil e Japão; maior exposição sobre a cultura japonesa no Brasil e cultura brasileira no Japão em várias áreas; institucionalização da presença japonesa no Brasil e presença brasileira no Japão, que foi fartamente celebrada nas comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil em 2008, quando também foi considerado o ano de intercâmbio Brasil-Japão. Esse ano certamente marcou as relações entre Brasil e Japão.

Onde há conflitos, há também solidariedade. Muitas cidades japonesas têm se mobilizado para lidar com os problemas que surgiram com a presença cada vez mais permanente de estrangeiros no Japão, dentre os quais, os brasileiros. Por exemplo, as discussões sobre a questão dos trabalhadores e residentes estrangeiros têm se tornado pauta na agenda política do governo não mais apenas local ou regional, mas também passou a ser discutido entre as autoridades do governo nacional tanto japonês quanto brasileiro e o seu diálogo num contexto internacional. Isto é, o que está dando maior visibilidade ao assunto é a colaboração conjunta de diferentes setores governamentais e da sociedade civil, organizando-se em entidades e grupos de diferentes frentes.

Qual a imagem que o Japão tem do Brasil hoje? Atualmente, o Japão tem muitos interesses em manter boas relações com o Brasil em diversas áreas. De um modo geral, aos olhos japoneses o Brasil tem recursos naturais e matérias primas como minérios, energia, alimento (agricultura, pecuária), indústria aeronáutica, empresas petrolíferas – que indicam um sólido crescimento econômico. Além disso, está entre as 10 principais economias do mundo; a partir do início do terceiro milênio, faz parte do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – que são os principais países emergentes no mundo; no aspecto político, diplomático, o Brasil faz parte do conselho de segurança na ONU; e também faz parte da Organização Mundial do Comércio; questões ambientais – são temas internacionais que o Brasil tem participado assertivamente. Assim, no cenário atual, o Brasil não é visto apenas como o grande país da América do Sul, mas sim reconhecido como um dos principais países do mundo (Miwa 2008). Atualmente, as relações econômicas entre o Brasil e o Japão estão sendo reativadas em várias áreas como na siderurgia, fabricação de papel, energia e televisão digital. Assim, a imagem que o Japão tinha sobre o Brasil mudou muito desde quando os brasileiros descendentes de japoneses começaram a ir ao Japão trabalhar – de um país do terceiro mundo a um país emergente. Esse crescimento econômico começou a ganhar vulto nos últimos anos e a tendência é de continuidade. Certamente, isso afetará na dinâmica do fluxo migratório populacional já estabelecido entre Brasil e Japão, uma vez que se está sujeito a flutuações e a mudanças na conjuntura geral.

A partir de 2008, o governo brasileiro tem alinhavado sua política interna e externa para poder acompanhar e participar num contexto internacional mais amplo, passando a assumir a existência de uma comunidade brasileira no exterior, com um contingente atualmente estimado em quatro milhões. Nesse período também foi recriado o Conselho Nacional de Imigração (CNIg) pelo governo brasileiro, um órgão ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), como vimos, além de uma divisão consular voltada para brasileiros no exterior, no MRE.

A relação Brasil-Japão, apesar de tantos problemas que têm afetado de fato uma parte daqueles que transitam entre os dois países, tem tudo para continuar cooperando, dialogando, trocando ideias para que essa comunidade brasileira no exterior, no caso no Japão, seja efetivamente contemplada através de acordos bilaterais em diversas áreas.

Em muitas áreas de origem na sociedade brasileira, por sua vez, pode haver associações nipônicas que, provavelmente ofereçam cursos de japonês. Assim, nessas cidades para onde muitos brasileiros têm retornado desde o final de 2008, com seus familiares, existem nihongakkō, isto é, escolas étnicas japonesas, onde se ensinam a língua e a cultura japonesa aos descendentes de japoneses. Talvez elas possam vir a ser ressignificadas – não só pelo grande interesse na cultura pop japonesa como anime e mangá (Histórias em Quadrinhos), mas essas escolas japonesas poderiam atender às demandas educacionais das crianças brasileiras que cresceram e muitos nasceram na sociedade japonesa onde, por um tempo, seus pais estavam trabalhando por uma melhor renda. Mas subitamente, por força das circunstâncias, os que puderam retornaram ao Brasil e agora, estão diante de uma nova série de dificuldades de se reinserirem, sentindo-se ‘estrangeiros’ no sentido mais pleno da palavra. Tal como as crianças. Assim, quem sabe, comecem a revigorar o ensino bilíngue Português-Japonês nessas escolas espalhadas por onde tenha grupos de japoneses pelo Brasil afora. Essa política linguística, certamente, faz parte do processo de internacionalização em que o domínio ou qualificação cada vez maior de línguas estrangeiras é cada vez mais exigido no mercado de trabalho nacional e internacional.

De todo modo, a comunidade brasileira no Japão não irá acabar tão cedo. Ela ainda vai enfrentar muitos altos e baixos, como todo o mundo. Basta estar vivo. Talvez alguns padrões de dinâmicas migratórias venham a se alterar, mas o fluxo migratório já estabelecido entre o Brasil e o Japão há mais de um século, deve continuar.

* Bibliografia citada (PDF)

© 2010 Elisa Massae Sasaki

Brazil dekasegi