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A Criança Esperada

Em 1990 o Japão revisou sua lei de imigração, permitindo os brasileiros descendentes de japoneses a trabalhar no país. Chegando na nova terra, eles passaram por um longo período de adaptação e solidão para, em muitos casos, acabarem trazendo suas famílias e construindo seus lares no Japão.

Com o tempo, vieram os seus filhos - e estes também, atrás de seus próprios sonhos, seguiram os passos de seus pais e tornaram-se trabalhadores. Nesse contexto, é de se pensar se a realidade do imigrante influencia a vida desses jovens e crianças. Como a sociedade japonesa os aceita, e como eles aceitam essa sociedade?

Os dados oficiais deste ano de 2010, quando comemoramos os 20 anos de emigração brasileira no Japão, dizem que de cada cinco brasileiros residentes no país, um é menor de idade e representa a segunda geração de imigrantes brasileiros. E observando as fotos de jovens e crianças brasileiras no Japão que fiz há anos, fico imaginando como eles estariam vivendo agora. Será que já se adaptaram ao país? Será que cresceram e estão tendo uma vida plena e digna?

Por curiosidade, decidi procurar algumas das crianças e jovens e descobri que alguns haviam voltado para o Brasil; outros sumiram sem deixar pistas. Mas consegui restabelecer contato com alguns deles e, então, pedi para que contassem suas histórias. E aqui, neste trabalho, as apresento.


Scarlet Rigoli Fortunatti, 18 anos (na foto, 14 anos)
Mora em Toyohashi, província de Aichi

Eu nasci em São Paulo e vim para o Japão aos quatro anos de idade. Meus pais tinham vindo um pouco antes para conseguir trabalho e uma casa, assim todos poderíamos ficar juntos. Quando fiz seis anos entrei na escola primária japonesa. Demorei um bom tempo para conseguir me comunicar e me acostumar com a comida da escola, e mesmo assim sempre tive dificuldades para me relacionar com as outras crianças, porque para elas eu era diferente. Logo que me formei no ensino fundamental, deixei a escola e fui tentar realizar o meu sonho, que era ser modelo. A foto me mostra bem nessa época. Mas logo depois engravidei e parei tudo para ter a minha filha.

Depois que a Maria Eduarda nasceu eu comecei a trabalhar em uma fábrica que faz impressoras. O primeiro dia foi revoltante, o tempo não passava, quebrei todas as minhas unhas e tive que trocar o salto alto que sempre adorei por um par de tênis. Pensei também que deveria tentar voltar a estudar, mas faço o turno da noite e fico muito cansada.
 
Hoje sei que não quero mais viver no Brasil, me acostumei e quero ficar no Japão mesmo sendo eternamente uma estrangeira. Aqui eu cresci, e só também não nasci aqui porque Deus não quis. O trabalho na fábrica também já não me incomoda tanto, mas nos finais de semana faço questão de esconder os meus tênis.


Hayanna Iguchi Murakawa, 10 anos (na foto, 5 anos)
Mora em Bali, Indonésia

E sou uma brasileira nikkei que não nasceu no Japão e nem no Brasil. É que meus pais se conheceram enquanto trabalhavam no Japão, mas um dia eles foram a Bali e gostaram tanto que resolveram tentar morar na ilha. Foi onde eu nasci. Mas quando eu era menor, nossa família teve que passar novamente um tempo no Japão para juntar dinheiro.
 
Moramos na cidade de Hamamatsu e enquanto meus pais trabalhavam eu ficava na escola. Me deixavam no “hoikuen” (creche japonesa), onde aprendi um pouco do idioma e me enturmei com crianças diferentes de mim. Depois fui para uma escola brasileira, onde conheci crianças brasileiras como eu. Também já fui passear no Brasil e adorei! Tomei caldo de cana e comi todos os tipos de pastéis.

Agora estamos morando novamente em Bali e aqui eu passo mais tempo com a minha mãe e posso brincar mais. Estudo em uma escola internacional e lá meus amigos, assim como eu, são de vários países. Gosto das escolas que frequentei no Japão, mas prefiro assim - quando o normal é ser diferente.


Maucha Shiwa Salles, 21 anos (na foto, 14 anos)
Mora em Hamamatsu, província de Shizuoka

Do Brasil eu me lembro das festinhas, de um grande parque onde eu ia brincar e da escola que eu tanto gostava, em Itapetininga (São Paulo). Eu vim para o Japão com a minha família aos sete anos. Chegamos em uma época de muito frio e logo entrei em uma escola japonesa, onde fiquei uns 3 anos.
 
No início não entendia nada e me sentia muito, muito sozinha. Não conseguia me acostumar com a comida. Uma vez tive que “colar” o teste de um menino, porque não sabia o que escrever na prova. Aí fui me acostumando e fiz amizades. Mas depois de três anos resolvi me mudar para uma escola brasileira, porém mesmo lá não consegui me sentir à vontade. Foi nessa época que fiz a foto. Logo depois, decidi parar de estudar para poder trabalhar.

Meu primeiro dia de trabalho foi em uma fábrica que fazia peças para carros da Toyota. Quando cheguei em casa, exausta, menti para a minha mãe dizendo que o dia tinha sido legal – não queria que ela se preocupasse comigo. Muitas das minhas colegas de escola fizeram o mesmo, mas eu me arrependo por não ter continuado os estudos. Hoje minha única certeza é que quero voltar para o Brasil. Não sei explicar o porque. Passei a maior parte da minha vida aqui, não me lembro bem do meu país mas mesmo assim sinto falta do Brasil.


Rye Inoue, 16 anos (na foto, 11 anos)
Mora em Hamamatsu, província de Shizuoka

Eu nasci no Japão, na cidade de Hamamatsu. Aos 3 anos, meus pais me levaram para o Brasil - eles tinham decidido que eu teria que ficar por lá com minha avó, só assim eles poderiam juntar dinheiro no Japão e ainda sustentar nós duas. Lá, eu fui para a escola e fiz muitos amigos. Aí meus pais perceberam que iria demorar muito para eles voltarem para o Brasil e resolveram me trazer de volta para o Japão. A foto foi feita quando eu tinha acabado de chegar.

Logo entrei em uma escola brasileira mas não me adaptei. Então tentei a escola japonesa. No início sofri por não entender nada, e nos finais de semana ficava em casa porque tinha medo de sair. Mas com o tempo fui me acostumando e alguns meninos até compraram dicionário para tentarem falar comigo!
 
Não sei bem, mas no futuro eu quero fazer faculdade e talvez até morar fora do Japão, porque acho que não conseguiria mais morar no Brasil. Passei minha adolescência aqui, estou no segundo ano do ensino médio, gosto de ir para a escola, acompanho os outros alunos em tudo e o que eu não sei eu pergunto. Então espero que os adultos não olhem as crianças estrangeiras com indiferença só porque elas têm um outro jeito de falar.


Douglas Takahashi Oliveira, 9 anos (na foto, 5 anos)
Hamamatsu, província de Shizuoka

Eu nasci no Brasil, na cidade de Primavera do Leste, estado do Mato Grosso. Lembro que eu morava perto da minha avó e tinha uma gatinha, a Sofia. Eu brincava de pega-pega com a turma e o nome do meu melhor amigo era Lázaro. Vim para Hamamatsu com minha mãe quando tinha cinco anos. Chegando aqui, o mais difícil para mim foi aprender japonês. Eu entrei na escola japonesa e no começo não entendia nada, ficava na sala de aula só ouvindo aquela língua estranha, esperando a hora da minha mãe vir me buscar. Aos poucos eu comecei a entender e as coisas ficaram mais legais.
 
Agora, na escola meu melhor amigo é o Yuji, e lá todo mundo anda junto - brasileiros e japoneses. Minha mãe gosta daqui e quer ficar bastante tempo, e eu também prefiro o Japão. Na escola a gente também brinca muito de futebol, mas apesar de ser brasileiro, não sou muito bom. Sou mais ou menos. E ainda não sei o que quero ser quando crescer.

© 2010 Ricardo Yamamoto

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