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No Amazonas: Os Koutakuseis e o Plantio da Juta

No ano passado, as comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil me deram uma grande saudade da época em que eu estudava japonês. As aulas de kanji, as partículas, o keigo... Mesmo não podendo estar de novo em uma classe, o meu interesse pela língua e pela cultura japonesa continuava falando alto em meu coração. Assim são as comemorações: sempre trazem à memória alguns fatos do passado.

Quando eu estava de mudança para Manaus, em julho de 2006, alguém me disse que havia muitos descendentes de japoneses no Amazonas. Desde a minha chegada à nova cidade, não me faltou vontade de procurar informações, de saber se havia escola de japonês, se havia um calendário de festividades. O que me faltou foi iniciativa. Há cerca de um ano, eu andava meio perdida pela rua, procurando um endereço, quando vi uma das muitas revistas comemorativas numa banca de jornal. Falava especialmente sobre os imigrantes japoneses do sul e do sudeste. Procurei um artigo que falasse sobre os imigrantes no Amazonas, mas o que achei foi uma única página falando de modo genérico sobre a região norte como um todo.

Devo dizer que foi o estopim para me dar a iniciativa que me faltava. Movida pela curiosidade, procurei alguma referência bibliográfica, algum artigo, qualquer coisa que fosse, na biblioteca de duas universidades. Não achei muita coisa. Então fui à caça na Internet para buscar alguma informação a respeito.

Foi quando me deparei com a chamada Amazon Koutakukai e a história dos koutakuseis. Alunos da Kokushikan Koutou Takushoku Gakkou (Escola Imperial Superior de Agricultura) em Tóquio, eles foram elementos sui generis na história da imigração japonesa no Brasil. Imediatamente fiz contato com o Sr. Valdir Sato, presidente da Associação, que muito bem me recebeu e contou a história dos koutakuseis. A própria loja do Sr. Sato, no Centro de Manaus, é uma homenagem aos seus pais e aos de sua esposa. Tanto seu pai quanto seu sogro eram koutakuseis.

É fato que o norte do Brasil testemunhou um processo imigratório diferente do ocorrido no sul e no sudeste. O Kasato Maru aportou em Santos em 1908, mas as primeiras famílias que chegaram ao norte só o fizeram em setembro de 1929, no Pará. Foi na transição entre 1929 e 1930 – depois das negociações entre o governo do Amazonas e o senhor Kosaku Oishi, responsável pelo empreendimento, que começaram em 1928 – chegaram os imigrantes japoneses ao Amazonas, visando à plantação do guaraná no município de Maués. Apenas em 1931 chegaram os koutakuseis, cujo perfil é totalmente diferente dos outros.

Os primeiros colonos japoneses que se estabeleceram em Maués, em terras doadas pelo governo do Amazonas, plantaram cerca de quarenta e cinco mil pés de guaraná numa área de cem hectares. Tiveram, porém, que enfrentar muitas dificuldades, de caráter econômico (por causa da falência da Companhia que os tinha enviado), de saúde (epidemia de malária e de febre amarela) e de alimentação. A produção do guaraná chegou a dar bons lucros. Contudo, o excesso de produção desvalorizou o preço do guaraná e muitos colonos, por uma questão de sobrevivência, partiram para outros lugares, dirigindo-se inclusive para o sul.

A partir de 1931, chegam os koutakuseis. A primeira coisa que chama a atenção a respeito de sua peculiaridade é o fato de que deixavam o Japão sob juramento de jamais retornarem. Assumiam o compromisso de permanecerem em seu lugar, o Amazonas. Nisto se diferenciavam completamente da maioria dos imigrantes que vinham para o Brasil naquela época, com o objetivo principal de enriquecimento rápido, para voltar à terra natal. Outra característica que os diferenciava dos demais era o fato de serem jovens oriundos da classe média-alta, a maioria de ambiente urbano, embora a atividade a ser exercida fosse basicamente relacionada à agricultura.

Próximo ao município de Parintins, o deputado japonês Tsukasa Uetsuka (ou Uyetsuka), juntamente com cerca de vinte técnicos, achou o lugar adequado para os recém-egressos da Escola: eram terras de várzea – próprias para culturas rápidas, que proporcionariam retorno em pouco tempo – que cobriam parte do rio Paraná do Ramos, do rio Uaicurapá e do rio Andirá. Esta posição entre rios era extremamente estratégica, pois os produtos poderiam ser escoados para Manaus e Belém, as grandes capitais próximas. O lugar, chamado antes de Vila Batista, passou a chamar-se Vila Amazônia.

No dia 21 de outubro de 1930, aconteceu a cerimônia de lançamento da Pedra Fundamental da Vila Amazônia; em 20 de junho do ano seguinte, chegou a primeira turma de koutakuseis (35 alunos). Num total de sete turmas enviadas ao Brasil, após cada ciclo letivo, foram ao todo 249 koutakuseis. Tão bem sucedida foi a empresa que Tsukasa Uyetsuka fundou a Companhia Industrial Amazonense (1936), que gerenciava desde a produção até a comercialização dos produtos de Vila Amazônia.

O desafio era grande: o clima, a cultura e a língua eram muito diferentes. Os alunos tinham entre 19 e 20 anos de idade e freqüentavam a Kokushikan Koutou Takushoku Gakkou pelo período de um ano, para bem se prepararem. Em suas lições, recebiam informações a respeito da terra, das culturas agrícolas mais adequadas, do clima, da cultura local e também aprendiam um pouco da língua portuguesa. A falta de energia elétrica e água encanada, as condições precárias em que viviam, de certa forma isolados, foram dificuldades a superar. No entanto, a maior delas, sem dúvida, foi a perseguição na época da Segunda Guerra Mundial. Em setembro de 1942, a Companhia Industrial Amazonense foi desapropriada pelo governo brasileiro e o projeto foi desativado. Os koutakuseis da Vila Amazônia ficaram presos em Tomé-Açu, no Pará, até o final da guerra. A Vila Amazônia, considerada como espólio de guerra, foi leiloada em abril de 1946 e adquirida por uma quantia inexpressiva.

A primeira grande contribuição dos imigrantes japoneses para a economia do Amazonas está na aclimatação e no cultivo da juta – que proporcionou rápida recuperação econômica ao Estado (bastante enfraquecido com o fim do ciclo da borracha) e, em decorrência disto, também beneficiou a economia do país. Contudo, o processo de aclimatação da juta no Amazonas foi árduo. Depois de muitas tentativas, porque os pés não davam mais de dois metros e meio, somente em 1934, na propriedade do senhor Ryota Oyama, em Andirá, dois pés de juta alcançaram a altura de cerca de quatro metros e nove centímetros de diâmetro, mas quase sem ramos. Destes dois pés, de características diferentes, um morreu; do outro, o único, foi possível separar novas sementes, entregues ao senhor Ryota e a outro colono, senhor Yoshimasa. Em 1937, Ryota conseguiu colher seis toneladas de fibra e Yoshimasa, quatro toneladas. Tal era a qualidade da juta que a firma compradora (a Companhia Martins Jorge, no Pará) não acreditava que fosse produto do Amazonas, mas importado.

Em 2009, comemoramos os oitenta anos da imigração japonesa na região norte do Brasil. Com efeito, as comemorações em geral são eventos que trazem de volta à memória alguns fatos do passado. O “caso da juta”, na verdade, é mais que história: é uma lição de vida. É um exemplo de superação, de realização, de perseverança.

© 2009 Michele Eduarda Brasil de Sá