Considerações organológicas sobre o Taiko
Considerações organológicas sobre o TaikoPor Alice Lumi Satomi
O signicado da alma do taiko é: Preliminarmente, convém ressaltar que organologia é o estudo dos instrumentos musicais, enfocando não somente a estrutura e possibilidades do instrumento, mas também o seu entorno geográfico, histórico e sócio-cultural. O taiko figura entre os instrumentos mais difundidos e tocados fora do Japão. No Brasil, desde a voga do Olodum – sem pretender apontá-lo como causa – venho notando uma proliferação na adesão à “alma do taiko”, principalmente por parte dos jovens, que como se pode inferir na expressão do professor Oguchi, antes de ser uma opção musical, trata-se de uma atitude de vida. É preciso frisar que ele foi “o introdutor do sistema coletivo múltiplo [grupo de taikos variados], em 1951” (op. cit.: 6), no contexto histórico do pós-guerra. Assim, as palavras “vitalidade, compartilhamento, estímulo e encorajamento”, refletem fortemente o espírito de reconstrução da auto-estima de um país semi-destruído pela segunda guerra. Hoje, segundo o etnomusicólogo londrino David Hughes2 (1983: 501) “essas ‘orquestras’ de taiko desempenham o papel de gerar o espírito da aldeia ou do povoado”, ou seja, de identidade local, sentimento de coletividade e pertencimento. Grafa-se o termo taiko com os kanji (ideogramas) 太 tai, supremo, e 鼓 ko tambor, designando os tambores em geral, sobretudo o membranofone, cujo principal elemento vibratório é uma membrana de couro. Quando o termo é um sufixo, torna-se daiko, como por exemplo, wa-daiko 和太鼓, para todos os tambores nacionais, tsuri-daiko, para todos os tambores suspensos, 大太鼓, ō-daiko, para o tambor grande, 平太鼓 hiradaiko, para o tambor cilíndrico, nodaiko, para o tambor utilizado no teatro no, entre outros. Os tipo mais comuns são o 桶胴太鼓 okedō-daiko, e o締め太鼓 shime-daiko. A leitura isolada do ideograma 鼓, ko, é tsuzumi, outro nome genérico dado aos tambores japoneses, ou especificamente, é o tambor do conjunto do teatro no, que se toca com o instrumento apoiado no ombro direito do executante. O ideograma ko apresenta do lado esquerdo o kanji yorokobi, alegria. Por isso os professsores de taiko costumam recomendar que o aluno aproveite a alegria de tocar, transmitindo esse contentamento para o espectador. A maioria dos tambores japoneses apresenta uma membrana em cada extremidade do corpo: uma para tocar e outra para ressoar ou tocar (pelo mesmo percussionista ou outrem). Essas peles são geralmente bovinas ou equinas. A caixa de ressonância ou “corpo pode ser feito com madeiras diversas, zelkova, sândalo, pinheiro, cerejeira, etc.” (Hughes 1983: 501). Com exceção do hiradaiko e shimedaiko, de corpo cilíndrico reto, todos os taiko possuem o corpo em formato de barril. Diferentemente do tsuzumi 鼓, corpo em forma de ampulheta, cujo couro de potro é golpeado com os dedos, todos os tambores taiko são percutidos com baquetas denominadas bachi. Há uma grande variedade de diâmetros e comprimentos entre os tambores com membranas duplas, os maiores deles são encontrados entre os ō-daiko, tsuridaiko e hiradaiko. Mas diferença principal reside na forma de prender o couro no corpo ou anel: nos tambores em forma de barril, as peles são presas diretamente ao corpo através de tachas; nos tambores cilíndricos ou em forma de ampulheta, as peles são presas num aro com diâmetro maior que o corpo, e são afinadas, geralmente, apertando os cordões atados aos aros. Neste tipo de aro, além do okedō-daiko, temos o dadaiko, utilizado na música da corte gagaku, o kakko, utilizado no nagauta, o shimedaiko, no teatro no e daibyōshi, nas manifestações folclóricas. Os taiko podem ser tocados em diversas posições e ângulos.
Os registros mais antigos de taiko encontrados no Japão, de dois mil anos atrás, foram nas imediações do lago Nojiri e ruínas de Togariishi. Como a primeira região era farta de elefantes, presume-se que o instrumento servia para ser tocado, enquanto o caçador emitia gritos para atacá-los. Na segunda localidade foram encontradas “peças de barro, onde presume-se que estas eram revestidas de couro [..] servindo como ferramenta para a permuta de mercadorias”, prossegue Oguchi (s.d.: 3), inferindo que os antepassados utilizariam o taiko para a comunicação à distância e expressar sentimentos de alegria, ira, tristeza e prazer. Por ser um instrumento essencialmente rítmico, servia para homogeneizar a marcha dos soldados e, em algumas regiões do país, ainda se mantém a tradição de anunciar as horas do dia para o povoado. Oguchi (s.d.: 5) ressalta que para entender a origem de muitos toques atuais:
O verbete “taiko” do Wikipédia3 reforça o seu uso militar:
Após essas suposições remotas de sobrevivência, temos as reminiscências da utilização do tambor como instrumento religioso. Em várias culturas o tambor tem o poder do transe ou encantamento, como por exemplo nas cerimônicas xamânicas ou rituais afro-brasileiros, como o candomblé e umbanda. No Japão, o taiko também está sempre presente nos templos, pois ele é considerado a morada dos antepassados e dos deuses, servindo como instrumento de comunicação ou ligação com tais entidades sobrenaturais. Na própria mitologia consta a versão de que o tambor serviu para atrair a deusa sol Amaterasu – que havia se escondido numa caverna e deixado o mundo nas trevas, após ter sido contrariada por um de seus irmãos – trazendo de volta a luz do dia. Nos dias de hoje, o taiko é protagonista de festividades ou matsuri de várias localidades, pois acredita-se que serve para acalmar ou exorcizar os espíritos perturbadores ou inquietos. Calcula-se que a arte do taiko foi introduzida, quando a música japonesa sofria influência da cultura chinesa, via Coréia, no período Asuka, por volta do século VII, pouco depois de adotar a escrita e o budismo. Oguchi (s.d.: 6) complementa:
O professor elucida também que o taiko já ultrapassou a fronteira da tradição folclórica e, através do seu avanço de recursos e timbres conquistou a sua inserção na música artística contemporânea e internacional. Notes 1. Oguchi, Daihachi. Sem data. Manual de taiko. Traduzido por Artur Nakahara. Sem local: Confederação Japonesa de Taiko, sem data. Alice Lumi Satomi. Professora dos cursos de Educação Musical e do Programa de Pós-Graduação em Música (etnomusicologia) da UFPB, onde coordena o Núcleo de Pesquisa e Documentação de Cultura Popular (NUPPO). © Alice Lumi Satomi
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